Mulher de soldado

José Horta Manzano

A onda do politicamente correto não é exclusividade brasileira, longe disso. Ela tem-se alastrado pelo mundo todo. Quando a conversa resvala para assuntos de sexo, de posição social ou de cor da pele, todo cuidado é pouco. Uma palavra mal pronunciada pode azedar o ambiente. Pode até pôr fim a uma velha amizade.

A feminização do nome das profissões é preocupação geral. É natural: ofícios que antes eram exclusivamente masculinos são hoje exercidos por homens e por mulheres. Se não havia palavra para indicar que o profissional era mulher, hoje ela tem de ser inventada.

Certas línguas, como o inglês, são menos afetadas por essa questão. De natureza «unissex», essa língua não perde tempo com essas miudezas gramaticais. Adjetivos, por exemplo, não vão nem para o plural ‒ que dirá para o feminino. Nomes de profissão geralmente não são flexionados. A exceção fica para os que terminam em man, como salesman. Nesse caso, a forma feminina vem naturalmente: saleswoman. E o problema está resolvido.

O alemão tem um modo muito jeitoso de feminizar nome de profissão. Como todas terminam por consoante, basta acrescentar o sufixo in. Cabe sempre. Jurist (jurista) faz Juristin. Verkäufer (vendedor) faz Verkäuferin. Ingenieur (engenheiro) faz Ingenieurin. E assim por diante. É muito prático e não ofende ninguém.

Em francês, o assunto dá dor de cabeça. Há alguns sufixos que dão ideia de feminino, mas precisa tomar cuidado ao manipulá-los, que cada caso é um caso. Todo médico é tratado por Docteur. A médica pode aceitar Doctoresse (doutora) ou preferir Madame le Docteur (Senhora Doutor). Melhor perguntar antes. É muito complicado. Tem de andar na ponta do pé. Isso vale para todas as profissões.

Nossa língua é mais camarada. Quando o nome da profissão termina em consoante, é suficiente acrescentar um a ao final pra obter o feminino: vendedor/vendedora, bacharel/bacharela, doutor/doutora, juiz/juíza. Quando termina em a ou e, não varia: o/a atleta, o/a estudante, o/a agente, o/a presidente, o/a obstetra.

Nos nomes de profissão que terminam em o, basta trocar o por a: engenheiro/engenheira, médico/médica, padeiro/padeira. Nesse particular, tenho notado certa reticência em feminizar a palavra soldado. Volta e meia, lê-se na manchete que «a soldado acudiu à ocorrência». Fica pra lá de esquisito. Fosse em francês, a hesitação seria compreensível, mas em português… francamente.

Se temos advogado/advogada, deputado/deputada, delegado/delegada, jurado/jurada, por que não soldado/soldada? Coragem, gente, coragem!

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