Processo e resultado

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um de nossos traços culturais mais distintivos talvez seja a enorme ênfase que colocamos em resultados e a pouca paciência – ou pouca habilidade – que demonstramos para lidar com processos.

Qualquer que seja a área de atuação, ao elaborar um projeto de futuro, a intelectualidade brasileira costuma aquecer o próprio peito, visualizando mentalmente e saboreando antecipadamente o ovo que ainda não saiu do fiofó da galinha. Compreensível. Somos o país da improvisação, da inventividade e da malemolência e gostamos de ser aclamados internacionalmente pelas gambiarras que sempre conseguimos introduzir no projeto quando o processo falha.

Praia 3Há pouco tempo vi um vídeo muito interessante postado no Facebook. Nele, destaca-se outra característica nacional a respeito da qual eu nunca havia pensado antes: nossa dificuldade de receber um elogio, sem acrescentar uma enormidade de explicações. A cena usada para ilustrar esse comportamento nos é bastante familiar: o marido convida um estrangeiro que acabou de conhecer para jantar na sua casa e avisa a esposa de última hora. A mulher sai correndo do trabalho, passa em um supermercado, compra os ingredientes, prepara o jantar, toma um banho, perfuma-se, veste a melhor roupa e ainda encontra um tempinho para dar uma caprichada na decoração da casa.

O estrangeiro, fortemente impressionado com a prodigalidade da recepção, elogia a mulher ao final do jantar: “Foi uma das noites mais agradáveis que passei na vida, o jantar estava maravilhoso”. Ao invés de simplesmente dizer “obrigada”, ela reage dizendo: “Ah, que bom que você gostou… Sabe, na verdade, esse não é meu melhor prato. Tenho algumas receitas de família deliciosas que lhe proporcionariam uma experiência mais significativa da gastronomia brasileira, mas saí tarde do trabalho e não tive muito tempo para pensar no cardápio…”. E por aí vai, acrescentando um a um todos os detalhes que justificam porque ela não está totalmente satisfeita com seu desempenho.

Foi um choque, para mim, perceber que não sou só eu a cair nessa armadilha mental. Só depois de muito refletir, é que me dei conta de que, dormitando lá no fundo de nosso inconsciente, há sempre uma acusação e uma culpa: você não merece esse elogio porque sabe que desrespeitou os passos do processo. Ao mesmo tempo, deixando a hipocrisia de lado, mergulhamos de cabeça no poço da vaidade. Uma vozinha sedutora sussurra docemente em nossos ouvidos: ninguém sabe, como você, fazer tanto com tão pouco. Parabéns, você simplesmente arrasou.

Repas 1Talvez essa nossa mania possa explicar ainda nossa paixão pela tecnologia. Não resistimos a aparelhos que facilitem nosso cotidiano, principalmente se eles forem multifuncionais, como os celulares. Mas, atenção, não é apenas nos hábitos de consumo que nossa irresistível atração por resultados se manifesta. Na área da aprendizagem, a coisa ganha uma dimensão ainda mais perversa. Para que passar longas e entediantes horas estudando uma matéria ou aperfeiçoando o próprio desempenho se basta um toque de dedos para encontrar em segundos no Google as respostas que buscamos?

Sejamos honestos: adoramos queimar etapas. Controlar cada pequeno passo ao longo do caminho, identificar os pontos fortes e fracos que surgiram em cada etapa, analisar os motivos do bom e do mau desempenho, buscar outras referências, voltar atrás e experimentar de novo é para quem tem paciência de chinês. Nós não temos tempo a perder, queremos entrar logo em campo e correr o mais rápido possível para os braços da galera. Não é essa, afinal, a definição de esperteza?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um pensamento sobre “Processo e resultado

  1. Muito interessante, acho muito legal alguém capaz de analisar um povo e ser capaz de se colocar nela. A internet está cheia de gente falando do povo brasileiro como se fosse nascida em Marte. Vc foi uma bem vinda exceção.

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