Não me esqueçam!

José Horta Manzano

O senhor Julian Assange, nome meio esquecido ultimamente, está mofando há dois anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres.

by Patricia Storms, desenhista canadense

by Patricia Storms, desenhista canadense

Sabe-se lá por que razão, o gajo decidiu um dia subir ao telhado e gritar ao mundo o que o mundo já sabia. Contou que agências americanas bisbilhotavam a vida e a obra de gente importante e de empresas relevantes. Por malícia ou por ignorância, nada disse sobre agências de outros países.

O primeiro caso de espionagem se deu quando um agrupamento de neandertais sofreu a primeira cisão, indo cada subgrupo morar em caverna própria. A partir do dia seguinte, cada grupo designou emissário para, discretamente, inteirar-se do que estava acontecendo na caverna rival.

E assim continua até hoje. Todos espionam todos. Marido e mulher, pais e filhos, chefes e subordinados, bandoleiros, seitas religiosas, partidos políticos. E, com maior razão, países. Democráticos, comunistas, fascistas, autoritários, liberais, republicanos, monárquicos ― todos os países se espionam entre si. Na medida dos interesses de cada um e, é claro, de suas possibilidades.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

É altamente improvável que agências americanas sejam as únicas interessadas em abelhudar altas esferas brasileiras. Não precisa ser formado em contraespionagem para imaginar que russos, chineses, argentinos, britânicos, alemães, franceses também tentem colher informações sobre o que se passa em Tupiniquínia.

Bom, eu disse tudo isso para reafirmar que, ao dar com a língua nos dentes, o senhor Assange não disse nada de extraordinário. Todos fizeram cara de espanto e ar de melindre, mas era ― ou deveria ter sido… ― só pra inglês ver.

Depois de dois anos sem botar o nariz fora do imóvel onde se encontra, é compreensível que Assange esteja à beira de um ataque de nervos. Como bom súdito da Coroa, ele sabe que as autoridades britânicas não costumam largar o osso. Uma vez que decidiram negar-lhe salvo-conduto e vigiar a saída da embaixada 24 horas por dia, irão até o fim.

Outro dia, o refugiado bateu um papo telefônico com um jornalista do Estadão. Percebendo que, no Brasil, alguns ainda se lembram dele, decidiu requentar o prato já servido dois anos atrás.

Para botar medo nas autoridades brasileiras ― e tentar, quem sabe, cavar uma oferta de asilo ―, ressaltou o fato de que «os EUA são capazes de cortar o Brasil do resto do mundo em qualquer momento que queiram». É grande o risco de sua advertência cair em ouvidos de mercador.

EspiãoEm primeiro lugar, porque é de conhecimento geral que o grosso das telecomunicações planetárias transita pelos Estados Unidos. Assim é e assim continuará a ser. Não faz sentido instalar centenas de cabos submarinos para ligar o Brasil diretamente a cada país.

Em segundo lugar, porque o refugiado agita espantalho na hora errada. Período eleitoral não é momento adequado para esse tipo de polêmica.

Em terceiro lugar, vem a razão mais importante. O Brasil não precisa de interferência dos EUA para desligar-se do mundo. Nosso governo federal, com a inestimável ajuda dos aspones que cuidam de nossa diplomacia, já está cuidando, faz anos, de apequenar nossa importância na cena planetária. Mais alguns anos, conseguirão.

Thank you anyway, Mr. Assange. Valeu!

3 pensamentos sobre “Não me esqueçam!

  1. Cara, realmente o Assange não disse nada de muito novo ou extraordinário, o que ele fez, que ninguém conseguia fazer até então, foi provar o que todo mundo já sabia, ou tinha como teoria da conspiração, enquanto, neste caso, o réu, EUA, negava. Provou com documentos oficiais, não só com fontes seguras. É de conhecimento geral que todas as telecomunicações do Brasil passam pelos EUA, em grande parte, por causa do Snowden e o alto jornalismo praticado por Glenn Greenwald, que juntos provaram isso. Tal ação inspirada, em partes, pelas ações anteriores do WikiLeaks e do Assange. Realmente ele esta numa situação difícil, e depois de dois anos realmente deve estar prestes a surtar e sair correndo pelado da embaixada do Equador em Londres para ver o que acontece. Só não entendi porque tamanho desdém com ele, que não tem nada a ver com a eleição brasileira e notavelmente não apoia, nem tem apoio, de nenhum político por aqui. Acho que ao contrário, os jornalistas deviam estar preocupados em ajudá-lo, e em garantir o direito de liberdade de expressão da imprensa independente de isso revelar um monte de merda de alguém, ou país, ou não. Numa das redações que já trabalhei escutei de um chefe uma vez: “Jornalismo não é o que você sabe, é o que você pode provar.” Taí, o cara, e o WikiLeaks, fizeram jornalismo de alta categoria. Também não vejo “maior razão” para países se espionarem (o que também vale para pais e filhos, etc) por que não existe razão que justifique a espionagem e consequente supressão do direito a liberdade e de ser imprevisível.

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    • Eder,

      Os franceses dizem que «toute vérité n‘est pas bonne à dire» ― nem todas as verdades devem ser ditas.

      A verdade de que trato neste artigo entra nessa categoria. Levantou uma poeira danada e não resolveu o problema de ninguém. Tudo continua como antes, com a diferença de a espionagem estar sendo feita por meios mais sofisticados.

      Moscou, Paris, Pequim, Londres, Berlim, Buenos Aires saíram bem na foto. Mas ― acredite ― continuam todos cumprindo o sagrado dever de espionar. Na surdina, como fizeram desde sempre.

      Entre países espiões, nem o Brasil escapa. Recomendo a você a leitura do artigo de Marcelo de Moraes, publicado pelo Estadão um ano atrás. Trata das artes do governo brasileiro 40 anos atrás no campo da espionagem. Naturalmente, ainda é cedo para falar das estrepolias atuais. Quem viver, verá.

      http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ditadura-militar-criou-rede-para-espionar-vizinhos,1062721

      Abraço.

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