Escolha infeliz

José Horta Manzano

O escritor Ruy Castro, colunista da Folha de São Paulo, acertou no milhar com seu artigo Solene esnobada, publicado em 23 de junho. Irretocável.

Nestes tempos de “Copa das copas”, todos nós temos tido nossos ouvidos e olhos bombardeados com gritos de goool, patriotadas, análises, janelas embandeiradas, carreatas, trombetas, buzinaços. E continhas de chegar.

Nós outros, expatriados, vivemos imersos em ufanismos múltiplos. As carreatas e os buzinaços não correspondem necessariamente às conquistas daquela que antigamente chamávamos Seleção canarinho. Dependendo do país onde se esteja, as continhas de chegar podem até ir em sentido contrário ao que nos interessaria. É natural. Vivemos na casa dos outros.

Já se disse e redisse, já se pisou e repisou o assunto: a dinheirama que o povo brasileiro ― através de seus representantes, evidentemente ― despejou na organização da Copa e na construção de estádios ma-ra-vi-lho-sos teria sido mais bem utilizada em projetos de educação e saúde.

Assim não foi feito, que é que se há de fazer? O que está feito está feito. Resta fazer das tripas coração. Os bilhões de reais arrancados do povo brasileiro estão, pelo menos, servindo de maxipromoção do País em nível planetário. Será?

Fifa vinhetaComo salientou Ruy Castro, nenhuma das atrações do País tem sido mostrada à plateia brasileira. Querem saber mais? Tampouco os espectadores estrangeiros têm tido direito a conhecer, nem que fosse por alguns segundos, alguma coisa além das “arenas” de padrão Fifa.

A vinheta ― acho linda essa palavra(*) ― tem sua beleza plástica, não há que negar. Falo daquele desenhozinho animado de alguns segundos que nos repetem umas dez vezes por dia. Aquele que sobrevoa uma praia, atravessa uma floresta, mostra uma selva de prédios e termina com um menino com cara de pobrezinho, encarapitado em sua favela, com o olhar maravilhado ao vislumbrar ― bem longe ― um estádio iluminado. Estádio padrão Fifa que ele, pobrezinho, visivelmente não tem condições de frequentar.

Gastar tantos bilhões suados dos brasileiros para reiterar ao mundo a imagem de um país marcado pela desigualdade social? Que escolha infeliz.

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(*) Vinheta, do francês vignette. No século XII, quando entrou na língua francesa, a palavra fazia alusão à decoração de folhas de vinha com que se ornava o bordo de utensílios de louça.

2 pensamentos sobre “Escolha infeliz

  1. Também reparei na “vinheta”. Esse povo do marketing de hoje em dia não tem muita lógica não. Ou exageram na dose – como no comercial polêmico do PT “fantasmas do passado” ou são surreais, ou são vinagrete – salada mesmo. Será que vignette é algum parente próximo do vinagrete? Acho que não. Abs!

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    • Olá, Michèle!

      Vinheta e vinagrete são parentes, sim, senhora. Descendem ambos da vinha, do vinho.

      Já expliquei no próprio post o caminho que o étimo seguiu para desembocar em vinheta. Explico agora a evolução que deu vinagrete.

      Como vinheta, vinagrete também vem do francês. Sua forma na língua de Molière é vinaigrette. É um molho frio à base de óleo, ervas e vinagre. Usa-se para condimentar saladas, mas não só. O nome vem, naturalmente, do vinagre, componente predominante na receita.

      Vinagre, por sua vez, nada mais é que o resultado da fermentação do vinho. (Não deixa de ser um vinho estragado, morto.) É vocábulo formado de vinho + acre. Acre é azedo, ácido.

      Acre, palavra de uso restrito no Brasil, tem descendentes bem mais populares: agrião (verdura de sabor azedo), agridoce (azedo e doce ao mesmo tempo).

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