Personalidades caninas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É estranho como um pet, principalmente se for um cachorro, é capaz de denunciar com seu comportamento a maneira de seu dono encarar a vida. Explico melhor: se o dono é uma pessoa esportiva, o cachorro será elétrico, propenso à ação. Se o dono é um intelectual, amante dos livros, o cão será capaz de permanecer horas a fio deitado aos pés da cadeira onde o dono está sentado em absoluto silêncio, dormitando (ou, quem sabe, até “filosofando”).

Já contei aqui que sou uma pessoa repleta de manias e hábitos arraigados. No entanto, percebo que meu espírito burocrático foi transferido de formas distintas para minhas duas cachorras. No caso da mais velha, ele parece ter sido absorvido integralmente, sem tirar nem pôr. Sempre me surpreendo ao vê-la circulando livremente, sem guia. Ela faz sempre o mesmo percurso, dia após dia, cheira os mesmos lugares e caminha sempre no mesmo ritmo, não importa se está chovendo, fazendo frio ou se é um esplendoroso dia de sol primaveril. Rói cada grãozinho de sua ração com a paciência de um chinês ou como se conhecesse os benefícios da mastigação saudável. Se está com um petisco na boca, é pura perda de tempo tentar atraí-la com outro ou chamá-la para outra atividade qualquer. Enquanto não terminar o que está fazendo, ela nem mesmo se digna a levantar os olhos. Sua humildade se revela nas coisas mais simples: ela não aceita nada que considere grande demais, seja alimento, petisco ou brinquedo.

Cachorro 7Já no caso da mais nova, é mais difícil perceber como a rotina se entranhou nela. Festeira e carente por natureza, ela sempre se mostra disposta a incorporar uma novidade, seja de que tipo for. Se está mordiscando um petisco e é apresentada a outro, ela rapidamente cospe fora o anterior e abre o bocão. Se for possível, come os dois ao mesmo tempo. Se está pacatamente entretida com uma bolinha e alguém mostrar outra, ela corre de um lado para outro tentando decidir qual das duas prefere abocanhar. Se está sonolenta, basta chamá-la para passear que ela se levanta e dispara, sem nem mesmo olhar para trás. Precisa de movimento, agitação e atenção em tempo integral.

Outra coisa que me intriga desde sempre é como a mais nova parece observar e copiar o comportamento da mais velha, especialmente se ele provoca uma reação positiva em mim. Se elogio a capacidade da Molly de conter impulsos, a Aisha imediatamente tenta refrear os dela. Se a Molly tem um lugar favorito para dormir, na primeira oportunidade a Aisha a expulsará sem nenhuma delicadeza (já chegou a se deitar por cima da pobre coitada). Se a Molly escolhe um lugar para fazer xixi, a Aisha a segue e faz o seu exatamente por sobre o dela.

Por estes dias me dei conta de que, todo dia de manhã, a mais nova me espera fazer o café e depois me segue, trazendo consigo sua indefectível bolinha. Tão logo eu me sente, ela senta à minha frente e encosta a cabeça no meu joelho, o rabo abanando feliz, à espera de um carinho ou de que eu aceite brincar com ela. Se a ignoro, ela se afasta e vai deitar em algum canto distante, com uma cara de amuada de fazer dó.

Se eu tivesse de fazer uma analogia da postura característica de cada uma com a de atrizes tradicionais do cinema, diria que a Aisha é certamente uma mistura de Mae West e Greta Garbo. Só quem já a viu deitada no sofá, com a cabeça recostada numa almofada, olhar lânguido e o rabo pendendo em suave curva para fora do sofá, pode testemunhar a favor dessa tese. Às vezes, chego a pensar que um dia ela vai me olhar e dizer com cara de enfado: “I’m no angel” ou “Leave me alone”.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

Por outro lado, qualquer um pode perceber à distância que a Molly exala um ar de seriedade, tem a elegância de uma “lady” recatada como Audrey Hepburn, misturado a uma aura dramática de mistério, como Bette Davis. Muitas vezes, quando está deitada, cruza as patas da frente e me encara altiva, como se imperatriz ou esfinge fosse. Por vezes, tenho a impressão de ouvi-la dizer “Decifra-me ou te devoro”.

Não sei dizer se a raça ou a coloração do pelo interferem nessa avaliação. Aisha, uma Golden Retriever, tem a personalidade estereotipada das loiras fogosas: é extrovertida, exibicionista, explosiva e quer sempre ser o centro das atenções. Molly, uma Bernese Mountain Dog, traduz em tudo o padrão comportamental das morenas aspirantes ao esplendor espiritual: é tímida, assustadiça e desconfiada das pessoas que fazem muito estardalhaço. Ao mesmo tempo, quando se aproxima espontaneamente de alguém (o que acontece raríssimas vezes), pode-se apostar que ela encontrou uma alma gêmea.

santos-dumont-1De qualquer maneira, vejo-me forçada a admitir: tenho um lado defendido, de quem luta com unhas e dentes para preservar a própria intimidade, mas adoro também ser alvo de admiração. Pensando bem, talvez seja eu mesma uma combinação das tradições francesas e da malemolência insolente brasileira. Unindo os dois lados, só o meu desejo de fazer a Europa curvar-se ante o Brasil, como dizia a modinha que minha avó cantarolava.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Interligne 18cNota deste blogueiro
A modinha à qual a autora se refere é a cançoneta em homenagem a Santos-Dumont composta por Eduardo das Neves e gravada pelo cantor Bahiano no longínquo ano de 1902. Quem quiser ouvir um trechinho dessa preciosidade pode clicar aqui.

Quebrando hábitos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Desde que me conheço por gente, sempre senti a necessidade de permanência. Não sei lidar bem com nada que me traga a sensação do efêmero, do transitório. A angústia que toma conta de mim quando algo muda ou acaba é tão devastadora que me fez desenvolver ao longo da vida um apego doentio pela rotina.

Minha ansiedade aflora desde quando ocorre o afastamento ou morte de pessoas queridas até pequenas perturbações do dia a dia, como uma simples mudança na mão de direção de uma rua que costumo utilizar. Se sei que tenho um compromisso agendado para amanhã, revejo instintivamente as tarefas que vão ser afetadas e me programo para realizá-las em outra ordem, outra hora ou outro dia. Se o evento é inesperado, primeiro entro em pânico e, quando mais tarde consigo voltar a respirar, aciono mentalmente todas as pessoas que poderiam me prestar ajuda, mesmo que seja na forma de aconselhamento.

calendario-1Hábitos são armadilhas, eu sei, mas me é sempre muito difícil resistir à doce ilusão de conforto e proteção que eles trazem. Como me alertava uma amiga consultora organizacional, a mente burocrática está assentada sobre dois pilares: a necessidade de controle e previsibilidade. Num cenário de crise, é inevitável que esses sustentáculos de segurança sejam abalados. Sem liberdade interna, não há condições para buscar soluções criativas.

Ultimamente venho sendo desafiada pelo destino, como em nenhuma outra fase de minha vida, a criar jogo de cintura. Mesmo ‘à contre-coeur’, praticamente todos os dias vejo-me forçada a adaptar meu corpo e minha cabeça a situações novas, criadas tanto pela deterioração das minhas condições físicas e financeiras quanto pelas do ambiente em que vivo. Para piorar, o desconforto, na idade em que estou, é um companheiro para lá de irritante, nada leal.

Relógio solarAcontece que, sem ter consciência plena do que estava fazendo, acostumei também minhas cachorras a conviverem com um rígido esquema de vida. Elas têm hora certa para acordar e para dormir, para comer, para passear e até para brincar. Têm dia certo para tomar banho. Têm local certo para desenvolver cada uma dessas atividades. A cada vez que elas tentam burlar minha “sistemática”, como dizem meus parentes mineiros, repito qual papagaio: “agora, não”, “espera um pouco”, “me deixa em paz”.

Pois bem, o preço dessa conduta insana me foi cobrado há dois dias. Minha irmã, condoída com o estado deplorável de meu sofá, resolveu me dar de presente um dos dela, que estava fora de uso, mas ainda em boas condições. Para acomodá-lo, fui obrigada a rearranjar todos os móveis da sala, dado que suas dimensões eram bastante diferentes.

A configuração da sala não era alterada havia mais de uma década, portanto, minhas cachorras nunca haviam passado por uma experiência similar. A mais nova estava habituada a dormir num canto entre o sofá e a parede, debaixo de uma mesinha lateral. A mais velha costumava se estender na frente do sofá, muitas vezes se aninhando embaixo das minhas pernas e dificultando minha locomoção. Com a mudança do layout, o espaço de “dormitório” da mais nova acabou sendo eliminado e o de relaxamento da mais velha, comprometido.

calendario-2Para meu desespero, tão logo terminei de colocar tudo no lugar, as duas entraram em um estado inacreditável de frenesi e ansiedade. Caminhavam sem direção e sem descanso pelo apartamento todo. Recusaram-se a comer, tanto na hora do almoço quanto na do jantar. O incômodo da mais nova era tão evidente que ela chegou a rejeitar até mesmo os petiscos pelos quais, antes, daria alegremente a vida. Meu descontrole emocional passou a alimentar o delas e vice-versa.

Foi então que me lembrei de um exercício recomendado por meu médico antroposófico para quebrar rapidamente hábitos arraigados. É um método engenhoso, mas simples e relativamente indolor. Consiste basicamente na criação do “dia do contrário”. Nesse dia, que deve acontecer pelo menos uma vez por mês, é preciso fazer tudo diferente do costumeiro: ensaboar-se numa sequência distinta, abrir portas, escovar os dentes e o cabelo com a mão errada, vestir-se de maneira não-usual, adotar um novo itinerário para chegar ao trabalho, alimentar-se com ingredientes alternativos, etc. Com isso, a sensação de aprisionamento pode finalmente chegar à consciência e determinar os passos que ainda serão necessários para se livrar de outros condicionamentos.

Resolvi testar a eficácia do método com minhas cachorras. No dia seguinte, levei-as a passear pela manhã, quando o habitual era o passeio à tarde. Dei comida algumas horas depois do esquema tradicional para que a fome as induzisse a aceitar de novo a comida. Espalhei iogurte por cima da ração seca para que o cheiro, o sabor e a textura dos grãos fossem alterados. Troquei os petiscos. Coloquei o sofá antigo em outra posição na sala, atravancando a passagem que elas estavam acostumadas a usar. Mudei minha rotina de trabalho para dar atenção e brincar com elas em horários incomuns – e rezei para que a estratégia funcionasse logo.

Relógio moleNo começo da noite, exausta, me dei conta de que havia uma quietude estranha no ambiente. Naquele horário, as duas ainda estariam ativas, brincando uma com a outra ou latindo para chamar minha atenção. Curiosa, fui pé ante pé até a sala e me deparei com uma cena enternecedora: a cachorra mais nova dormitava relaxadamente entre os dois sofás e a mais velha dormia a sono solto estendida na frente do novo sofá. Não tenho palavras para descrever a alegria e o alívio que experimentei. Só me ocorria saborear demoradamente essa recompensa sem igual para tantos eventos paradoxais do dia.

Posso informar a todos que já estou novamente me sentindo apta a pontificar a respeito do dom precioso que é ser capaz de flexibilizar o próprio credo comportamental. Isso sem falar da sublime leveza que se experimenta ao abrir mão das zonas de conforto. Recomendo a experiência a todos de “alma pequena” como eu.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.