Pedras da fome

José Horta Manzano

Você sabia?

As mudanças climáticas, que enfrentam o negacionismo de gente desinformada ou de má-fé, têm se acelerado neste século. Situações que se previa fossem ocorrer por volta do ano 2050 estão ocorrendo agora.

O Hemisfério Norte, que concentra 2/3 das terras emersas, tem sofrido particularmente nesse sentido. Episódios climáticos extremos, que costumavam aparecer de raro em raro, têm-se tornado frequentes, quase corriqueiros. Chuvas de proporções bíblicas, calores saarianos, furacões, gigantescos incêndios florestais e secas catastróficas se sucedem.

Este ano, o calor e a seca têm castigado a Europa Ocidental. Paris, Berlim, Milão e até a brumosa Londres tiveram seus dias de 40° de temperatura. Em toda a região, a seca começou em junho e dura até agora. Não tem praticamente chovido, a não ser uma garoinha aqui, outra ali.

Agricultores estão perdendo a colheita, o gado já não tem o que comer. Lagos estão secos. Numerosos rios estão com um filete d’água. O Rio Reno, importante via de transporte fluvial, está com restrições de navegação devido à altura da água, que não dá calado. Até a nascente do Rio Tâmisa, atração turística da Inglaterra, secou. Na França, muitas cidadezinhas estão sendo abastecidas por caminhão pipa, pois água não há. Na Suíça, diversos lagos completamente secos se transformaram num gramado.

Tirando o dramático da coisa, aparece o lado pitoresco. “Pedras da fome”, surgidas do passado, estão reemergindo. Essa curiosa expressão designa pedras de beira de rio que, em tempos normais, ficam invisíveis, abaixo do nível da água. Nos anos de grande seca, apareciam. Os antigos então esculpiam e traçavam uma linha para mostrar o nível mínimo a que as águas chegaram. É que, na Idade Média (e até não faz muito tempo), falta d’água era sinônimo de colheitas perdidas e, no final, de morte por inanição. Naquele tempo, não dava pra importar alimento por via aérea do outro lado do mundo. Não havia meio de transporte. Cada vilarejo tinha de se virar com o que a terra dava.

Já se conheciam algumas “pedras da fome”. Este ano, com a baixa de nível dos rios, numerosas outras vêm sendo descobertas. A pedra mais antiga que se conhece foi esculpida em 1417. Outras são mais recentes. Muitas estão sendo gravadas este ano. Assim que o nível das águas faz surgir nova pedra, o ano de 2022 é esculpido.

Na pedra da fome que aparece na ilustração, gravada séculos atrás, está escrito: “Wenn du mich siehst, dann weine” – se você me vir, chore!

Voo de galinha

José Horta Manzano

Você sabia?

Será que o distinto leitor sabe o que há de comum entre as cidades de Prêveza (Grécia), Friedrichshafen Alemanha) e Pula (a antiga italiana Pola, atualmente na Croácia)? Pois fique sabendo que fazem parte dos destinos da mesma companhia de aviação.

Friedrichshaven, Alemanha

Friedrichshafen, Alemanha

A People’s ViennaLine é herdeira de uma história acidentada, cheia de altos e baixos, que começa em 1914, quando o alemão Herr Dornier fundou uma fabriqueta de aviões. De lá pra cá, houve crise, nazismo, guerra, miséria, cortina de ferro, reconstrução, um banzé. A firma pioneira saiu de cena por um bom tempo mas acabou ressuscitando. Por um desses caminhos tortuosos que o destino constrói, um descendente longínquo da antiga empresa ressurgiu, já faz alguns anos, como linha aérea regional.

A frota de 3 aviões da companhia serve 13 destinos. A sede social é em Viena (Áustria), mas a base operacional está instalada de facto no pequeno aeroporto de Altenrhein, no nordeste da Suíça, perto da cidadezinha de Sankt Gallen. Diga-se de passagem que a People’s é a única companhia aérea regular a utilizar aquele aeroporto. Em termos práticos, é a dona do pedaço. Privilegia destinos turísticos como Ilhas Baleares, Sardenha, Nápoles, Grécia.

aviao-15O aeroporto suíço de Altenrhein oferece a vantagem de estar a poucos pares de quilômetros da Áustria e da Alemanha, situação que potencializa a bacia de clientes do transportador.

Duas peculiaridades da People’s ViennaLine merecem ser ressaltadas. A primeira é que a frota é constituída de aviões Embraer, todos «made in São José dos Campos»: dois Emb-170 e um Emb-145. A segunda é que mantêm a linha aérea (regular) mais curta do mundo. Linha internacional, faz favor!

Percurso do voo comercial mais curto do mundo Imagens: Google maps

Percurso do voo comercial mais curto do mundo: 20km em linha reta
Imagens: Google maps

De fato, dois voos diários ligam os aeroportos de Altenrhein (Suíça) ao de Friedrichshafen (Alemanha), separados por apenas 20 quilômetros em linha reta. As duas cidadezinhas ficam defronte uma da outra, separadas pelo Lago de Constança. Esse lago é alimentado pelo Rio Reno, que em seguida continua seu percurso até desembocar no Mar do Norte, 1500 quilômetros mais adiante.

Nunca percorri esse trecho de avião. Embora seja pouco mais que um voo de galinha, suponho que deva ser rentável, senão já teria sido suprimido.