Murro em ponta de faca

José Horta Manzano

Tem uma expressão conhecida, clara, usada com frequência e que carrega uma imagem doída do que nunca se deve fazer: dar murro em ponta de faca. Ui! Precisa ser demente pra fazer um negócio desses, não lhe parece?

Pois Jair Bolsonaro, nosso saudoso ex-presidente, está dando mostra de sua especial disposição para o sacrifício. Seria heroico, não fosse inútil. O capitão chegou ao cúmulo de convocar um comício no dia 7 de Setembro para dar publicidade a seu ato de coragem.

A multidão não veio tão compacta como costumava vir no passado, mas a mise en scène seguiu à risca o que tinha sido ensaiado. Os protagonistas principais discursaram, cada um dando sua contribuição e botando falatório para plateia cativa.

Quanto ao ex-presidente, abdicou do cargo de messias, posto ao qual se tinha autopromovido no passado. Deixou claro que sua única preocupação atualmente é salvar a própria pele e escapar dos processos a que responde. “O povo que se dane, eu quero mais é tirar Alexandre de Moraes do meu caminho” – ele não pronunciou exatamente essas palavras, mas elas resumem seu pensamento.

O capitão quer que o juiz seja destituído de suas funções e, se possível, que seja condenado a apodrecer numa masmorra. Puro murro em ponta de faca. Jair não se dá conta das consequências de sua insistência.

Quanto mais o capitão vocifera contra o juiz, mais forte este fica. Tão forte ele está se tornando, que foi a estrela do desfile oficial do Dia da Independência. Apareceu sorridente e prestigiado, ao lado do presidente e dos figurões da República.

Quanto mais o capitão bate no juiz, mais se reforça o corporativismo do STF. Ainda que, numa hipótese de probabilidade quase nula, Moraes fosse destituído, mais coesos e ressentidos ficariam os magistrados restantes. Um perigo, capitão!

Da justiça, vai ser difícil Jair escapar. Seus esperneios mais irritam que ajudam. Atacar e insultar aqueles que vão te julgar é péssima ideia. Percebe-se que os anos passaram, mas o capitão nada aprendeu: continua vociferando como quem acha que se ganha no grito. Não se ganha, capitão.

Se ele não aprendeu até hoje, é caso sem esperança.

Termômetro da sociedade

José Horta Manzano

Que as redes se tornaram o termômetro maior da sociedade mundial, ninguém há de discordar. Pois essas redes às vezes me parecem um tanto hipócritas. Ou estarão desnorteadas.

A foto acima circulou pela internet. É um instantâneo do círculo mais chegado a Bolsonaro, colhido no show que a cantora Madonna estrelou sábado passado no Rio de Janeiro. Em princípio, seria mais uma imagem banal, semelhante a milhares de outros selfies tirados durante o concerto da diva. Mas este aqui tem uma carga diferenciada, como se diz hoje em dia.

As redes dos bolsonaristas se interessam por tudo o que diz respeito ao Jair, ídolo deles. Pois eles torceram o nariz para a foto, que elevou o nível de tensões internas preexistentes na extrema direita.

Entre os admiradores do capitão, forte contingente idealiza um mundo de sonho, sem pecados, sem erotismo, todo regradinho, sem desvios comportamentais de natureza sexual. A estrela do show de sábado não é conhecida por seu puritanismo. Bem ao contrário, nunca escondeu suas ideias de mulher liberada, empoderada, livre de preconceitos de ordem sexual.

Ora, ver que os colaboradores mais próximos do capitão – incluindo seu advogado pessoal – assistiram a um espetáculo a tal ponto ímpio deu frio na barriga de muito bolsonarista radical. A luta pela decência moral e contra toda desenvoltura sexual, razão de ser de todo cidadão de extrema direita, não combina com o escândalo dado pelos integrantes do primeiro escalão da seita bolsonárica que assistiram ao show de Madonna e ainda ousaram tirar essa foto com tanto sorriso.

Compreende-se que os demais seguidores do capitão, que se inteiraram do acontecido pelas redes, tenham ficado chocados e desorientados.

Quanto a nós, que não rezamos por essa cartilha, o que salta aos olhos são outros detalhes reveladores.

  • Como de costume, a galera vem do clube da testosterona, onde menina não entra. Para eles, lugar de mulher é certamente em casa, cuidando da numerosa prole. Como Deus manda.
  • Como de costume, a confraria é composta unicamente de homens brancos (ou quase brancos). É um conciliábulo em que diversidade não entra. As esposas? Decerto em casa, cerzindo as meias.

Agora dá pra entender como é que Madonna consegue reunir um milhão e meio em Copacabana. Ela, que não é boba, não faz diferença entre espectadores de esquerda ou de extrema direita. Quer que venham todos, desde que aplaudam.