Golpe?

Proclamação da República

José Horta Manzano

Uma mudança de governo – quando violenta e provocada voluntariamente em afronta às normas vigentes – configura um golpe de Estado. Essa é a teoria, mas na prática nem sempre funciona assim.

No Brasil de 1889, a queda do regime monárquico foi provocada por um golpe de Estado. Hoje isso nos parece cada vez mais evidente. No entanto, passados quase 140 anos, ainda nos ensinam na escola que o novo regime, a república, foi “proclamada” naquele 15 de novembro. O aluninho entende cada vez menos o significado da tal “proclamação”, mas fica por isso mesmo. Ninguém lhe ensina a história de verdade.

Em 1930, tropas depuseram o presidente eleito e levaram Vargas ao poder. Foi um evidente golpe de Estado que ninguém nunca chamou pelo nome. Entrou para a história como Revolução de 30 e até hoje se chama assim.

O movimento de tropas de 1964 foi outro que, como em 1930, defenestrou o presidente da república e mandou-o para o exílio. Em seu lugar, instalou uma ditadura de generais. Pelo tempo que durou o regime militar, os acontecimentos de 1964 foram chamados de “revolução”. Naquele tempo, se alguém se referisse ao movimento de 64 chamando-o, em público, de “golpe de Estado”, estaria arriscando a pele.

Foi só bem depois do fim da ditadura e com as instalação de governos mais à esquerda que a “revolução” pôde ser chamada pelo nome verdadeiro de golpe.

Contando todos os golpes e tentativas de golpe de que nossa história está coalhada – revoluções, inconfidências, intentonas, etc – é interessante notar que o de 1964 é o primeiro que acabou sendo popularmente qualificado de golpe. Não me ocorre nenhum outro caso, nem mesmo o evidente golpe de 1945 que depôs Vargas.

Para dar continuidade à nova tradição, temos agora a tentativa de “virar a mesa” protagonizada por Bolsonaro entre 2022 e 2023, Não sabemos ainda como estes acontecimentos serão conhecidos no futuro: Golpe de 2022? Golpe de Bolsonaro? Golpe pra derrubar Lula?

O que se sabe é que a tentativa de virada de mesa está sendo (e continuará sendo) chamada pelo nome correto: Golpe Malogrado. Ou Tentativa de Golpe, que dá no mesmo.

Golpes e revoluções

José Horta Manzano

Todos os países ‒ uns mais, outros menos ‒ têm, na história, alguns sobressaltos. São tentativas ilegais de tomada do poder ou de implantação de mudança brusca de regime político. A história do Brasil está coalhada de episódios assim. Dos anos 1700 até hoje, já ocorreram muitas dezenas. Tais ‘episódios’ incluem golpes de Estado, revoltas, revoluções, insurreições, inconfidências, intentonas, levantes & outras manifestações do gênero. Alguns foram bem-sucedidos. Outros, menos.

Por razões que as particularidades de cada caso explicam, alguns desses acontecimentos entraram pela porta da frente, são oficialmente reconhecidos como glória da nação e podem ser louvados. Alguns deles tornaram-se até feriados oficiais. Eis alguns:

Golpe de 1822, um putsch palaciano, uma obscura traição familiar. As consequências foram pesadas: Portugal perdeu a colônia americana. É comemorado como feriado nacional em 7 de setembro.

arquivo pessoal deste blogueiro

Insurreição de 1789. Foi conspiração contra a ordem vigente, um golpe que não deu certo. Ficou na tentativa frustrada. Assim mesmo, é comemorado como feriado nacional em 21 de abril.

Golpe militar de 1889, traição cometida contra um imperador que estava longe de ser déspota ou tirânico. Em vez de ser condenada à vergonha nacional, a violência é comemorada a cada ano em 15 de novembro. Com festa e banda de música.

Levante militar de 1932. Inscreve-se numa época rica em sobressaltos. Foi uma revolta da força pública paulista contra o regime Vargas. O enfrentamento armado durou dois meses e meio. Apesar de fracassado, o movimento é louvado todos os anos, como feriado estadual em São Paulo, celebrado dia 9 de julho.

Já outros acontecimentos, expulsos pela porta de trás, caíram na sacola do esquecimento nacional. Não é de bom-tom celebrá-los. Eis alguns:

Revolta do Forte de Copacabana. Aconteceu em 1922 e durou apenas um dia. Foi uma das expressões do movimento conhecido como tenentista. Ocorreu num 5 de julho, mas não convém comemorar.

Revolta Paulista de 1924. Arrebentou na manhã de 5 de julho de 1924 e foi outra manifestação do tenentismo. Como a anterior, não deu certo. Durou menos de um mês. Não se deve comemorar.

arquivo pessoal deste blogueiro

Revolução de 1930. Foi o golpe militar que depôs o presidente Washington Luís e o substituiu por Getúlio Vargas. As datas mais significativas do movimento são o 3 de outubro e o 3 de novembro. Nenhuma delas é comemorada.

Intentona Comunista. Inspirado pela Internacional Comunista, foi golpe fracassado que visava a depor Getúlio Vargas. Aconteceu em 23 de novembro de 1935. Tampouco este deve ser comemorado.