Madame vai primeiro

José Horta Manzano

Todo chefe de Estado, antes de viajar ao exterior, envia exploradores para preparar sua chegada e sua permanência. Vão verificar assuntos variados, desde questões de segurança, alojamento e deslocamento até detalhes do cardápio a ser servido ao visitante. Além de contar com sua equipe de especialistas, Lula pode se apoiar numa personagem que lhe é especialmente próxima e fiel: sua esposa, Janja.

Lula ainda não foi, mas Madame já está lá, tendo embarcado cinco dias antes do marido e chefe. Um programa foi especialmente preparado para ela, incluindo manifestações ligadas à educação, à cultura e ao combate à fome. Está também prevista uma visita ao Teatro Bolshoi de Moscou para assistir a uma representação de “O lago dos cisnes”, balé composto por Tchaikovski.

O motivo oficial da longa viagem de Lula é prestigiar os festejos do 80° aniversário do fim da Segunda Guerra na Europa. Na Rússia, a guerra mundial é chamada Grande Guerra Patriótica. Por lá, a história oficial dá relevo à participação soviética, deixando para segundo plano os aliados. Nos demais países europeus, o fenômeno inverso ocorre: a glória maior é conferida aos europeus e norte-americanos, ficando os russos com um papel marginal.

É curioso que Lula nunca tenha pensado em comparecer à celebração do Desembarque do 6 de Junho de 1944, considerado o ponto de virada da vitória aliada na Segunda Guerra. Esse evento é comemorado todos os anos na Normandia, norte da França. Terá seus motivos para não ter ido; talvez porque seria apenas um entre vários, enquanto que, em Moscou, será um convidado importante. Putin, mandado para o banco pelo mundo democrático, precisa de visitantes conhecidos.

Os principais dirigentes a prestigiar os festejos moscovitas são ditadores ou dirigentes autoritários: Bielorrússia (Lukatchenko), Hungria (Orbán), Eslováquia (Fico), Azerbaidjão, Sérvia, Tadjikistão, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela. A figura de maior projeção a ter anunciado presença é Xi Jinping, ditador da China.

Entre eles, lá estará nosso Lula, cujas intenções não ficaram claras. Quem sabe:

  • Estará dando um enésimo sinal de rebeldia para com os EUA? Mandando uma banana pra eles, como quem diz: “Aqui sou amigo do rei”?
     
  • Está tentando recuperar para si a liderança do Brics, perdida desde que o grupo foi expandido, tornando-se uma agremiação de países heterogêneos, sem programa e sem objetivo.
     
  • Cansado dos miasmas tóxicos de Brasília, decidiu mudar de ares por alguns dias. O sacrifício de encarar mais de 24 horas de viagem de avião (ida mais volta) compensa. Afinal, não é todo dia que se dá um aperto de mão no coreano Kim Jong-Un.

Sejam quais forem as ideias que povoam a cabeça de Luiz Inácio, uma certeza fica: não é prestigiando a Rússia que ele vai obter vantagem. Simplesmente porque Moscou não tem nada a oferecer além de fertilizantes e armas. Fertilizantes, já compramos; armas, não, obrigados.

Bolsonaro disse um dia, em Moscou, diante de Putin, que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Agora vai Lula e, com sua visita, reitera as palavras do capitão. Putin vai acabar acreditando.

Fim da Guerra da Coreia

José Horta Manzano

A Guerra da Coreia (1950-1953) foi o primeiro «conflito por procuração» dos tempos modernos. Vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética tratavam de fincar mourões pra delimitar a própria área de influência.

Apesar do nome, a guerra dita «da Coreia» foi, no fundo, enfrentamento (mal) disfarçado entre as duas potências. Por detrás das tropas do norte, ativava-se a União Soviética, enquanto as tropas do sul eram armadas e sustentadas pelos EUA.

Lá pelo fim dos anos 1940, na Europa, a fronteira estava balizada, com clara delimitação do feudo de cada potência. Na expressão de Churchill ‒ um achado! ‒, uma «cortina de ferro» tinha descido sobre o continente, a marcar fronteira entre os dois espaços.

Na Europa, o assunto estava empacotado, nada mais havia a fazer. As Américas eram tradicionalmente zona de influência americana ‒ ninguém contestava. Na Ásia, ainda havia regiões onde o domínio estava por definir. O conflito entre o norte e o sul da península coreana tem muito que ver com essa marcação de território.

Depois de três anos e mais de um milhão de mortos, a briga terminou empatada. A Coreia foi dividida em duas partes, ficando cada uma na zona de influência de uma das potências. Com o passar das décadas, consolidou-se uma ditadura hereditária na Coreia do Norte e, no sul, o liberalismo econômico deu lugar a uma república próspera.

Apesar da unidade étnica, cultural e linguística, os dois países se deram as costas. De ameaça em provocação, passaram-se 65 anos sem que se vislumbrasse esperança de reconciliação. De repente, de onde menos se imaginava, está surgindo o desenlace do nó atado pela ausência de tratado de paz entre os beligerantes.

Paradoxalmente, Donald Trump, o cospe-fogo que preside os EUA, prepara-se pra entrar para a história como o pacificador das desavenças entre os dois irmãos inimigos do Extremo Oriente.

O presidente da Coreia do Sul é esperado em Washington dia 22 de maio para preparar, junto com seu colega americano, a inédita reunião entre as duas Coreias, patrocinada pelos EUA. Segundo Trump, a cúpula deverá ter lugar em breve, talvez ainda este mês.

Esse capítulo final da Guerra da Coreia, 65 anos depois de o último canhão ter silenciado, sinala que os Estados Unidos levaram a melhor sobre a extinta URSS. Venceram a guerra.

Consideração final
Se tudo der certo ‒ e parece que vai dar ‒, o atual belicoso presidente dos EUA, mais do que seu antecessor, estará a merecer o Nobel da Paz. Ou não?