Histórico familiar

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que a história é escrita pelos vencedores. Parece uma boutade ‒ uma frase de efeito, sem maiores consequências. Não é. O conceito é verdadeiro não só ao nível elevado da História que se aprende na escola, mas também ao modesto nível da história familiar.

Dia destes, um primo me procurou pedindo detalhes da vida de antepassados distantes. Como eu não sabia, resolvi procurar. Assim que me debrucei sobre meus alfarrábios pra repescar acontecimentos de séculos atrás, me veio a compulsão de encaixar pessoas e datas no devido compartimento.

Faz alguns dias que ando mergulhado numa São Paulo povoada por meia dúzia de corajosos que subiram a serra a pé e na Villa Rica da época do ouro e dos bandeirantes. Uma sensação estranha e, ao mesmo tempo, agradável.

Do que aconteceu duzentos anos atrás, já ninguém se lembra, o que é natural. O que é menos natural ‒ e que estou descobrindo agora ‒ são acontecimentos relativamente recentes, que foram apagados da memória familiar. De repente, um recorte de jornal da época revela a notícia do enterro de um parente próximo do qual não ficou lembrança. Por que será?

Suicidas somem do histórico familiar. O mesmo destino se reserva a membros desgarrados que se tenham ido contra a vontade dos pais. Quem nunca viu velhas fotos em que o rosto de um dos figurante foi recortado com tesourinha? Eliminar participantes é uma forma de reescrever a história.

No século 19, quando casais tinham uma renca de filhos ‒ às vezes mais de dez ‒, alguns não sobreviviam mais do que algumas semanas. Quando um deles falecia, era costume dar a um novo rebento o mesmo nome do falecido. Curioso costume. O primeiro do nome desaparecia completamente da memória familiar. Nunca mais se falava nele ou nela.

Como se vê, a história familiar é escrita como convém aos patriarcas. E não tem conversa. Quanta coisa deve ter acontecido, que a gente não ficou sabendo, não?

Baú de memórias ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma vez aberto, meu baú de memórias se recusa a ser fechado de novo. Desta vez, as recordações que inundam minha mente dizem respeito a uma experiência tragicômica vivida em família.

Meus avós paternos tiveram 15 filhos biológicos e adotaram outros 17. Meu avô era um rico e pacato fazendeiro de Minas Gerais e espaço não era propriamente o que faltava, nem em suas terras, nem em seu coração. Não é preciso muito esforço de imaginação, no entanto, para prever os infinitos problemas do cotidiano que ele e minha avó tiveram de administrar para cuidar de 32 filhos.

Na adolescência, como era previsível e inevitável, a convivência íntima acabou funcionando como combustível para que alguns filhos biológicos se apaixonassem por seus irmãos adotivos, ou vice-versa. Os mais determinados e rebeldes ignoraram a falta de benção do patriarca e se casaram. Logo a família crescia em ritmo exponencial.

filharada-1Quando, em 1929, explodiu o ‘crack’ da bolsa de Nova Iorque, a única saída que meus avós visualizaram para continuar mantendo com dignidade uma família tão extensa foi a de enviar os filhos mais velhos para trabalhar em São Paulo. Meu pai foi um deles. Aqui se profissionalizou e formou família. Só voltava à casa dos pais nas férias, levando consigo os 5 filhos.

Vivendo e estudando em São Paulo, eu não tinha como me manter em dia com os acontecimentos do ramo mineiro da família. Já não sabia quem tinha nascido, morrido ou casado e já não me lembrava mais quem era filho ou irmão de quem.

Certo dia, já adulta, recebi a notícia de que minha madrinha de batismo havia morrido. Como, na época, meus pais já estavam separados, minha mãe pediu que eu fosse dar a notícia a meu pai em seu novo endereço. Imaginando que o único vínculo que ligava minha madrinha a ele era o fato de ela ser casada com um tio adotivo, não me preocupei em tomar precauções especiais ao dar ciência do ocorrido. Ao ouvir a notícia, meu pai cambaleou, levou a mão ao peito como se estivesse tendo um infarto e, sem ar, disse chocado: “Você está dizendo que minha irmã morreu??”

Para meu supremo espanto, só descobri naquele segundo que ambos, minha madrinha e seu marido, eram na verdade irmãos adotivos de meu pai. Era tarde demais para fazer alguma coisa. Consolei-o como pude e o levei ao cemitério. Lá, uma multidão de parentes mineiros nos aguardava. Meu pai, ainda muito abatido, sentou-se a meu lado num banco do lado de fora da capela. Permaneceu calado a maior parte do tempo, limitando-se a me abraçar e segurar minha mão. Quando chegou a hora de fechar o caixão, ele levantou-se e perdeu-se em meio ao tumulto que se formou.

Foi quando um desconhecido se aproximou de mim e, com um ar entre curioso e lascivo, deu início a um verdadeiro interrogatório. Nome, idade, profissão, local de residência, nada escapou. Mesmo pressupondo que se tratasse de um amigo da família, eu me esquivava como podia das respostas, já que a tentativa de intimidade forçada só fazia aumentar minha irritação.

cimetiere-1Quando já me preparava para levantar e me afastar dele, veio a última pergunta que esclareceria de vez todo aquele imbróglio: “Desde quando você conhece o Oswaldo? ”. Sem entender o propósito de uma pergunta tão sem pé nem cabeça, respondi de mau humor: “Desde o dia em que nasci, oras!”. Totalmente constrangido, o rapaz abaixou a cabeça, levantou e foi embora.

Na volta para casa, perguntei se meu pai sabia quem era ele. Resumo da ópera: o jovem impertinente era um dos tantos primos que eu não conhecia. Ao testemunhar a forma afetuosa e íntima com que meu pai me tratava, ele simplesmente havia imaginado que eu fosse sua namorada atual.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.