Exportação de droga

José Horta Manzano

Sábado passado, pacotes de cocaína foram apreendidos pela Polícia Militar no Porto de Santos. Eram dezenas de pacotes, encontrados grudados num casco de navio, abaixo da linha d’água.

A mesma notícia de jornal informa ainda que cerca de 2.000 contêineres são escaneados diariamente pela Receita Federal antes de partirem do porto em direção ao exterior. O objetivo é detectar droga escondida.

Até aí, tudo bem, tudo em ordem. Polícia Militar e Receita Federal estão, cada uma por seu lado, cumprindo seu dever. Parabéns a elas.

Não sendo especialista em detecção de tráfico de droga, só me resta conjecturar. Conjecturemos, pois.

Se é verdade que, como imagino, o objetivo de nossas autoridades não é de se apossar do entorpecente, mas de desbaratar o tráfico, tenho dificuldade em entender o modo de proceder delas.

Ao apreender a droga grudada nos navios e divulgar a façanha ao grande público, a única recompensa da polícia é tirar aqueles quilos de cocaína do mercado. (Droga que será substituída rapidinho por nova remessa ilegal.)

Penso em outra maneira de agir, que não sei se seria possível, mas que me parece mais proveitosa. Ao descobrir a droga encastrada num contêiner ou colada num casco, por que é que nossa polícia não deixa a mercadoria onde está? A ideia é entrar em contacto com a polícia do país de destino do navio dando conta do que acontece.

A carga ilegal apreendida sábado último estava num navio com destino à Espanha, país que, imagino eu, está também equipado para lidar com esse tipo de criminalidade. Se a polícia espanhola fosse informada de que no contêiner número tal (ou no casco do navio tal) há uma quantidade de droga ilícita encastrada, teriam tempo de preparar uma “operação acolhida” destinada a dar ‘boa recepção’ à bandidagem.

No destino, um grupelho de criminosos virá certamente recuperar a mercadoria. Enquanto isso, no porto, a polícia está de emboscada. Tanto faz que venham de barco, por baixo d’água ou a pé. Assim que os receptadores encostarem a mão no navio, serão detidos em flagrante delito. Vão direto para o interrogatório. Com um pouco de sorte, vão acabar entregando uma parte da cadeia de comando, o que permitirá que a polícia efetue outras prisões. E assim por diante, uns delatando, outros prendendo.

Ao apreender a droga ainda no Porto de Santos, a PF fica só com a mercadoria, renunciando a todo o resto.

Devem ter alguma razão para proceder assim. Este leigo aqui desconhece qual seja.

Dormiu no ponto

José Horta Manzano

O Boeing da Qatar Airways decolou do aeroporto de Doha (Catar) em direção a Bali (Indonésia). Foi no domingo passado. O voo se anunciava sereno. Entre os passageiros, estava uma família iraniana: marido, mulher e criança pequena.

No Irã, o consumo de álcool é reprimido. Talvez por essa razão, o casal se aproveitou da «boca livre» ‒ melhor seria dizer «copo livre». Exageraram nos drinques. Já meio mole, o marido ferrou no sono. A esposa, guiada pela ousadia dos que tomaram um trago, valeu-se da ocasião. Apanhou o celular do marido e, encostando no escâner o dedo do homem adormecido, conseguiu desbloquear o aparelho.

Curiosa, bisbilhotou(*) a memória do telefone. Não tardou a descobrir que estava sendo traída pelo marido. Enfurecida, despertou-o e pôs-se a agredi-lo. Primeiro, com palavras. Depois, com gritos. Em seguida, diante de passageiros atônitos, chegou às vias de fato. A tripulação tentou intervir para acalmar a situação, mas também foi atacada pela viajante colérica.

A situação chegou a tal ponto que o comandante, informado do que acontecia, solicitou permissão para pouso de urgência no aeroporto mais próximo. Aterrissou em Chennai (Madras), no sul da Índia. Ali, casal e filho foram desembarcados manu militari. Livre dos turbulentos passageiros, o avião seguiu viagem.

Visto que não havia ameaça à segurança e que nenhum crime havia sido cometido, as autoridades indianas decidiram manter a família confinada no aeroporto. Horas mais tarde, quando a passageira já havia recobrado o estado normal, foram os três embarcados num voo de volta ao Catar.

Moral da história
Desbloqueio de celular por meio de reconhecimento táctil é útil e seguro. Mas é aconselhável não dormir no ponto.

(*) Nota etimológica
Bisbilhotar, voz onomatopaica, provém do verbo italiano bisbigliare, que tem o sentido de sussurrar com leve movimento dos lábios. Nessas horas, quem está por perto só consegue ouvir sons como «bis-bis» ou «pis-pis». Corresponde ao inglês whisper e ao alemão pispern.

Com informações do diário The Times of India.