José Horta Manzano
Entre as chamadas deste domingo, a Folha de São Paulo traz a história de dois garotos adolescentes. Ambos se dedicam à dança clássica e acabam de ser selecionados para uma competição na Suíça.
Num primeiro momento, não entendi bem a razão pela qual tanta importância era dada ao assunto. O que é que justificava o destaque em primeira página, com foto e tudo? Bastou ler a legenda para entender: a origem dos dois – humilde, como se diz – não os destinaria a seguir um caminho em princípio reservado às elites. O artigo diz, logo de saída, que um dos jovens é filho de policial militar e o outro, de empregada doméstica.
Lembrei então que, no Brasil, o salto é muito grande. Não se imagina que filho de família de poucas posses possa ir muito mais longe que seus pais. Filho de empregada doméstica que se torna bailarino internacional? Inimaginável! É como filho de operário se formando doutor.
Devo confessar que, nessa história, o que me choca é outra coisa. Das entrelinhas da reportagem salta à vista uma verdade não pronunciada: a de que é (quase) certo que pobre não tem futuro. A história dos dois rapazes é enxergada como inabitual, exceção absoluta, conto de fadas.
A meu ver, é aí que reside o problema maior. Mobilidade social, no Brasil, é fato raríssimo. Os entraves para «subir na vida» são tão numerosos, que caso de sucesso merece destaque de primeira página.
Na Europa, não é assim. Por aqui, as oportunidades são mais homogêneas. Raras são as escolas particulares. Existem algumas, com aulas unicamente em inglês ou alemão, dedicadas a estrangeiros. Tirando esses casos especiais, toda criança vai à escola pública. E, atenção, não dá pra escolher escola! A criança tem de frequentar a escola do bairro onde mora. O resultado é que o filho do médico e o do lixeiro se sentam lado a lado. Recebem o mesmo ensino e têm chances iguais de seguir a carreira que melhor lhes apetecer.
No Brasil, um país onde as disparidades sociais já são gritantes, a escolarização serve para alargar ainda mais as distâncias entre estratos de população. Atenção tem sido dada à distribuição de renda, o que é muito bom e necessário. A educação da meninada, no entanto, é o parente pobre do sistema. Continua relegada ao deus-dará.
Em vez de estabelecer quotas universitárias baseadas em critérios raciais(!), melhor faria o governo se investisse na educação e na formação das jovens gerações. No Brasil, o elevador social anda emperrado.
A condição básica para agilizar a mobilidade social é universalizar o ensino de qualidade. Se começarem hoje a investir nesse sentido, dentro de 20 anos ninguém mais se espantará ao ver filho de lavadeira com canudo debaixo do braço.
