Codinome

José Horta Manzano

Quando alguém ou algo é chamado por um nome que não é o seu, há várias maneiras para dar nome ao nome – se é que ouso me exprimir assim.

Entre nós, a forma mais usada é apelido.
Ex: O nome dele é Antônio mas o apelido é Tonico.

Em Portugal, preferem utilizar alcunha.
Ex: Este é o tão falado Rayovaque, cuja alcunha é “Rei”.

Cognome é palavra mais rara. Substitui apelido e alcunha.
Ex: No soldado mais valente, puseram o cognome de “Ludovico”.

Na linguagem da geração Z, está em voga o termo americano nick.
Ex: Ei, galera! A influenciadora é a Kriseldina. O nick dela é Kris.

Foi na ditadura militar que o termo codinome apareceu. É de uso restrito. Costumava ser atribuído aos que pegavam em armas para combater o regime. A ditadura acabou, mas tem gente que usa o termo até hoje.
Ex: O guerrilheiro mais ousado do grupo leva o codinome de “Ludovico”.

No exemplo acima, convém substituir codinome por “nome de código”. O melhor é deixar a expressão codinome morrer de morte morrida. Que se use uma palavra que não evoque período tão obscuro.

Poubelle

José Horta Manzano

O distinto senhor retratado acima é Filippe Poubel. Foto instantânea é às vezes ingrata e pode dar imagem negativa do fotografado, portanto é bom esclarecer: Senhor Poubel é deputado estadual, eleito pelo povo do Rio de Janeiro. A foto foi publicada pelo próprio numa rede social.

Segundo sua assessoria de imprensa, ele se encontra atualmente “sob proteção do Estado após a Polícia Civil do RJ constatar, através de escutas, alto risco contra sua vida”. Essea ameaça pode explicar a pose de “venha me buscar se for homem”.

Na Europa, lá pelo final do século 19, cidades importantes começavam a virar metrópoles, com milhões de habitantes amontoados em espaço exíguo, com ruelas estreitas e malcheirosas. Em Paris, a coleta de lixo já existia. À espera da carroça do lixeiro, a população enchia as ruas com pilhas de entulho, transformando a cidade num espetáculo sórdido.

Em 1883, Monsieur Eugène Poubelle, autoridade regional com jurisdição sobre a cidade de Paris, assinou decreto impondo aos proprietários de imóveis que fornecessem a cada inquilino um recipiente padronizado para armazenar o lixo – o que chamamos hoje lixeira. Dimensões, características e formato estavam definidos no decreto. A novidade foi tão impactante, que o povo acabou dando o próprio nome da autoridade ao recipiente: até hoje, na França, lata de lixo não tem outro nome senão poubelle, substantivo feminino.

Na origem, o sobrenome francês Poubel (e sua variante Poubelle) é uma alcunha. Conto a história. Na época em que nomes de família começaram a ser atribuídos, 700 ou 800 anos atrás, essa estirpe foi iniciada por um indivíduo «pouco belo», um modo eufemístico (e sarcástico) de dizer que ele era muito feio. Na época e no dialeto de determinadas regiões, era assim que se dizia pouco belo: “pou bel”; em francês padrão atual ficou “peu bel” ou “peu beau”. A descendência do patriarca acabou herdando a alcunha, que virou sobrenome.

Pelo que se vê na foto, o nobre deputado, que belo não é, faz jus ao significado originário do sobrenome. Já quanto ao recipiente padronizado inventado por Monsieur Poubelle, cabe ao distinto leitor julgar se a pose do parlamentar merece terminar na lata do lixo. Ou não.

Codinome

José Horta Manzano

Estante e prateleira são sinônimos? Sim e não. A linguagem popular não faz muita diferença, usa um pelo outro. Mas o fundo das coisas é o seguinte: estante é um móvel composto de certo número de prateleiras. Portanto, stricto sensu, não são sinônimos exatos.

Estada e estadia são sinônimos? À primeira vista, sim. Acontece que cada um desses dois termos se especializou. Quando recebemos uma visita, dizemos que ela veio para uma estada de três dias. Se deixamos o automóvel num estacionamento, pagaremos um montante correspondente à duração da estadia do veículo. Navios também fazem estadia no porto. Convém, portanto, usar estada para gente e estadia para veículos.

Às vezes se ouve que um personagem qualquer do mundo das artes se apresenta sob o codinome tal. Nome, codinome, apelido, alcunha, cognome, denominação, epíteto são termos semelhantes, mas estão longe de ser sinônimos perfeitos. Cada um deles tem valor e peso próprios. Para não trocar os pés pelas mãos, convém respeitar essas particularidades.

Nome, apelido, denominação e epíteto são neutras, não trazem embutida nenhuma ofensa. O apelido de Roberto é Beto. Chamar Antônio Carlos Jobim de Tom não incomoda ninguém. Já o mesmo não se dá com os outros aparentes sinônimos.

Alcunha(*) e cognome são termos com forte carga depreciativa, que caem bem na linguagem policial. Tirofijo era a alcunha de um dirigente terrorista colombiano, desaparecido alguns anos atrás. Beira-mar é o cognome de conhecido traficante.

Por último, sobrou o estranho codinome. Não se pode cobrar de jovens jornalistas o conhecimento profundo de uma realidade que não viveram. Mas vale a pena aprender. Nos anos 1970, pequenos grupos, às vezes armados, se insurgiam contra o poder central. Na tentativa de burlar a repressão, seus membros ocultavam o nome de batismo e adotavam nome(s) de fachada, nome(s) de código. Foi nessa época que o vocábulo codinome se popularizou.

Aos remanescentes daqueles indivíduos — alguns dos quais chegaram, mais tarde, a ocupar postos de mando na República — não agrada que se tragam à tona símbolos que marcaram fortemente aqueles tempos duros. Um desses símbolos é justamente a palavra codinome.

É bom tomar cuidado com esse termo. Falando de bandido (ou de ex-bandido), use o termo que mais lhe agradar. Quando se referir a gente honesta, evite palavras depreciativas. Pega mal pra caramba.

(*) Nota
O presente artigo baseia-se nos costumes brasileiros. Em terras lusas, o peso e até o significado de determinadas palavras podem ser diferentes. Os portugueses chamam apelido o que chamamos sobrenome. Já quando dizem alcunha, referem-se simplesmente ao apelido de alguém. Sem carga pejorativa naturalmente.