Conservadorismo

Fabiano Lana (*)

O termo “conservador” muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo de gente de extrema direita ou reacionária – o que é um erro. Conservadorismo tem a ver com prudência, respeito às instituições, reformismo, ao invés de revoluções ou atos radicais. Mas, num mundo em que conservadores de fato perderam relevância, o rótulo foi tomado de assalto por certos bandoleiros ideológicos que se orgulham de seus arroubos irrefletidos.

(*) Fabiano Lana é filósofo e analista político.
Trecho de artigo publicado no Estadão, 9 jul° 2024

Significado mole em palavra dura

Ricardo Araújo Pereira (*)

Uma característica engraçada das palavras é o fato de terem significados mais ou menos precisos. É conveniente, para que a gente consiga comunicar. Por exemplo, se eu disser que uma rocha é mole, talvez as pessoas fiquem confusas. Em princípio, a palavra “mole” não se aplica a rochas – que, de acordo com a nossa experiência, são duras.

O mundo digital, no entanto, tem uma semântica própria, em que as palavras significam o contrário do que querem dizer na vida real. A palavra “conteúdo”, por exemplo, significa quase sempre “ausência de conteúdo”. É curioso. A frase “vou criar um conteúdo filmando o meu gato dormindo” quer dizer, na verdade, “vou produzir um pouco de vácuo”.

A palavra “amigo”, no Facebook, significa muitas vezes o contrário do que vem nos dicionários. No Facebook, é possível ser amigo de pessoas que nem conhecemos. Diga-se que essa é, por vezes, a maneira mais eficaz de nutrir amizade por alguém. Mas não é esse o significado do termo.

Por outro lado, a palavra “seguidor” não significa, nas redes sociais, discípulo ou partidário. É mais frequente significar “pessoa que nos observa porque tem interesse na nossa queda”. São seguidores que vêm atrás de nós porque pretendem nos passar uma rasteira.

A palavra cujo significado mudou mais radicalmente foi “compartilhar”. Compartilhar, fora do mundo digital, é um ato de generosidade. Quando, por exemplo, compartilhamos um pão com alguém, isso quer dizer que lhe damos um pouco do nosso pão. Nas redes sociais, o ato não é exatamente generoso, uma vez que compartilhar significa, na verdade, exibir.

Alguém que compartilha a fotografia de um pão não oferece nada aos outros. Quem compartilha uma foto do seu carro novo não dá carona a quem vê. Quando alguém compartilha imagens das suas férias, normalmente até ganha dinheiro com isso, porque uma agência de viagens, uma companhia aérea ou um hotel estão pagando. Sinto em dizer que esse dinheiro também não é compartilhado.

O alambique das redes sociais transforma a mesquinhez da exibição na nobreza da partilha. É ótimo.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

À direita da extrema direita

Ruy Castro (*)

Em 1932, um jornalista português, António Ferro, 37 anos, conseguiu o que era dado como impossível: entrevistar o quase inatingível António de Oliveira Salazar, todo-poderoso de um governo que se definia como ditadura. Ferro teve com Salazar longas conversas, reunidas num livro de 300 páginas com o pensamento do ditador de Portugal.

Como foram essas conversas? A bordo de carros em movimento, à mesa de jantar, em torno de “fumegantes caldos verdes” e em passeios a pé por estradas, às vezes “à beira do anoitecer” ou sob “uma chuva miudinha e enervante”. As perguntas de Ferro eram curtas, como sói, mas as respostas de Salazar eram caudalosas e demoradas, de páginas e páginas.

Como veterano entrevistador, tiro o chapéu para António Ferro. Em 1932, não havia gravadores, os alemães só lançariam o magnetofone em 1935. Ferro teve de anotar tudo a lápis ou caneta, nas terríveis condições descritas, e Salazar não as deve ter ditado com vagar. E eu queria ver Ferro taquigrafar no escuro, debaixo de chuva.

Donde só há uma explicação: todas as palavras atribuídas a Salazar são de Ferro. Por que Salazar se submeteria a tal? Porque confiava nele. Ferro era culto, ladino, muito inteligente – aliás, amigo dos modernistas brasileiros e colaborador da revista Klaxon. E os dois tinham muito em comum: desprezo pelo povo português, aversão ao Judiciário, ódio à democracia e admiração por Mussolini e Hitler.

A extrema direita costuma ser creditada a certos governantes. Mas eles talvez fossem apenas os executores da estratégia de um pensador maléfico, à direita da extrema direita. Ferro pode ter sido para Salazar o que Marinetti, criador do futurismo, foi para Mussolini; Oswald Spengler, para Hitler; Steve Bannon, para Donald Trump; e Olavo de Carvalho, para Bolsonaro.

O que nos salva é quando esses governantes se empolgam e resolvem pensar por conta própria.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado n’O Globo.

Roubo de eletricidade 2.0

Lauro Jardim (*)

A prática do “gato de rico” na área de concessão da Light no Rio de Janeiro está cada vez mais sofisticada.

Enquanto o “gato de pobre” consiste na ligação direta do poste à residência do fraudador, as ligações de estabelecimentos comerciais, unidades fabris ou residências em bairros nobres já contam com aparelhos mais sofisticados para roubar energia elétrica.

Por exemplo, controles remotos e sensores de presença que detectam a presença humana e desabilitam as fraudes quando a fiscalização chega.

A Light tem tentado contra-atacar usando softwares de IA que monitoram o comportamento do consumo dos clientes para a indicação de possíveis alvos para inspeção.

Nos primeiros quatro meses de 2024, a concessionária registrou um aumento de 40% de fraudes de energia na Barra da Tijuca e na Zona Sul carioca, em comparação com o ano passado.

(*) Lauro Jardim é jornalista e mantém coluna no jornal O Globo.

Nota deste blogueiro
O jornalista fala em “bairros nobres”. Discordo. Esse novo normal, essa multiplicação de roubo de energia tira toda nobreza de qualquer bairro. Melhor falar em “bairros enricados”. Enricados mas abastardados. Porém sem nobreza, porque nobres não são.

Musk, o TOD poderoso


Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sabe aquela criança que passa o dia inteiro jogando videogame e, quando a mãe o chama para comer, ele responde “Agora não, mãe. Não estou com fome”? E, quando a mãe insiste, ela responde com agressividade: “Não enche, mãe, deixa de ser chata, estou quase passando de fase”. E, pela terceira vez, quando a mãe ameaça recorrer ao pai para ser obedecida, ela replica: “Tudo bem, não tô nem aí, pode chamar”. E, se finalmente ela perde a cabeça e bate no filho, ele reage com deboche: “Pode bater, não tá nem doendo!”.

Não conheço o histórico de vida de Elon Musk, mas por tudo que já li a respeito de suas ações no comando do X, da Tesla e da Space X, além de suas relações com Trump e outras figuras de extrema-direita no mundo e dos incontáveis conflitos que tem provocado com o sistema judiciário de diversos países, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que ele se enquadra no diagnóstico de personalidade TOD, o transtorno opositor desafiador.

O TOD é comumente originado na infância e, embora não tenha uma causa específica, o risco de seu desenvolvimento costuma ser maior se os pais também têm a disfunção ou se a criança é abusada por eles e exposta a um ambiente hostil. Li recentemente que Musk teve um pai extremamente abusivo, que lhe infligia severos castigos corporais e desdenhava de suas emoções e comportamentos. Além disso, foi vítima de muito bullying na escola, tendo sido hospitalizado certa vez em decorrência de um espancamento de colegas. Em recente declaração, ele próprio admitiu “não dominar os códigos sociais”, isto é, ter dificuldade de reconhecer e entender as emoções de outras pessoas. E, por ser também portador da síndrome de Asperger (uma forma leve de autismo), como ele próprio alega, só é capaz de apreender o significado literal das palavras.

Ele diz lutar, por exemplo, pela liberdade de expressão – e, para ele, o conceito de liberdade é sem limites, não estar sujeito a nenhum tipo de amarra ou impedimento externo. Daí o corolário de que quem se opõe a esse “direito” é um “ditador brutal”.

É fácil para qualquer um perceber que ele gabarita nos sintomas do TOD, dentre os quais estão: desobedecer a regras, importunar intencionalmente outras pessoas, mentir e/ou agir por vingança ou com crueldade. O ponto fulcral do transtorno é, portanto, opor-se e desafiar toda e qualquer figura de autoridade, reafirmar que não há nenhuma superior à própria.

É como se ele tivesse de repetir todos os dias para seus desafetos: “Eu posso mais do que você”. O fato de ser um bilionário agrega ainda mais arrogância ao seu perfil: não importa quantos clientes ele perca por dia, quantos funcionários o processem, o quanto a lucratividade de suas empresas esteja em declínio, a espiral de negação da importância dos outros em sua vida não para de se alargar. Nem é preciso dizer que, a despeito da minha necessária solidariedade ao sofrimento emocional que certamente aflige o ego de Musk, fica evidente que ele jamais conhecerá limites para se impor. E a melhor – quiçá a única – maneira de lidar com ele é deixá-lo falando sozinho, simplesmente forçando-o a arcar com as consequências legais de suas falas e feitos.

No caso do recente embate com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, Musk parece ter encontrado sem querer um competidor à altura. Radicalmente inflexível no julgamento de qualquer um que questione seu poder e sua autoridade, Moraes parece ter caído na armadilha preparada por Musk e seus aliados bolsonaristas. O que o clã Bolsonaro não conseguiu fazer em 4 anos no poder, Musk se divertiu fazendo em 2 ou 3 madrugadas insones. A promessa de reabilitar os perfis bloqueados por Moraes, “mesmo que o X tenha de sair do Brasil’, equivale a repetir, como a criança rebelde sem causa, “Você não manda em mim”.

E, como diz um velho provérbio, quando dois elefantes brigam quem paga é a floresta. É difícil avaliar quem mais sai perdendo com essa insana troca de chumbo. Embora à primeira vista o conflito tenda a favorecer as hostes bolsonaristas, em especial nas próximas eleições municipais, uma consequência imprevista das bravatas de Musk ainda pode mudar a direção dos ventos: desenvolveu-se no Facebook uma campanha para estimular o abandono imediato do X como uma espécie de questão de honra da brasilidade, à qual já aderiram inúmeros jornalistas, artistas, intelectuais e subcelebridades, além de boa parte do eleitorado não-bolsonarista. Muitos políticos, mesmo constrangidos, querendo evitar a contaminação de sua imagem para os próximos pleitos, uniram-se em torno de Moraes e passaram a defender a regulamentação urgente das redes sociais.

Além disso, a retomada da polarização ideológica acabou sendo aproveitada por muitos para desqualificar mais uma vez o senso de “patriotismo” das hostes bolsonaristas. Esse é um fenômeno que já vi acontecer em outras circunstâncias: quando nordestinos discutem entre si, as diferenças de costumes e de linguajar tendem a ser apontadas acidamente, mas quando um sulino ou sudestino se junta à discussão, os nordestinos imediatamente se unem em bloco para refutar a superioridade dos brasileiros de outras regiões.

E, para os autoproclamados defensores da democracia e do estado de direito, mesmo os irritados com o protagonismo e a politização do STF, Moraes passou a simbolizar uma espécie de salvador da pátria, um pai de punho firme capaz de peitar e aniquilar quem ameaça o bem-estar de seus filhos – um papel pra lá de paradigmático para os brasileiros, convenhamos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Beijo na foto

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Lá com os seus trinta anos, ainda virgem, (procurem no Aurelião para saber ao certo o que vem a ser uma mulher virgem, é coisa que ainda existe em dicionários), continuava a agir como se fosse uma adolescente. Para tudo pedia permissão. Para sair, para entrar e, quando ficava indecisa, pedia permissão para pensar se queria entrar ou sair.

Sempre se lembrava das histórias ouvidas quando criança, sobre os príncipes encantados, cuja maior qualidade é a de serem bonitos. Príncipe encantado que se preze não precisa ser trabalhador, nem honesto, tampouco carinhoso ou inteligente. Basta ser príncipe e bonito. Já repararam como todos os príncipes de conto de fadas têm apenas essa qualidade? São bonitos. E só com essa qualidade são capazes de fazer uma donzela feliz para sempre. É o que garantem todos os contos de fadas.

Assim cresceu a Durvalina, sempre esperando por um príncipe que fosse bonito. Não sonhava com alguém inteligente, preocupado com a vida em si, com o mundo. Assim como nas histórias ouvidas, queria achar um homem que fosse bonito e que a fizesse feliz para sempre, como num passe de mágica. Também não era necessário ser um príncipe, pois isto lhe diminuiria muito as chances de sucesso na busca. Só desejava que não fosse preciso beijar um sapo. Queria um príncipe prontinho. E bonito.

Como não costumava se expor indo a festas ou mesmo frequentando barzinhos da moda, afinal isso iria contra todos os princípios morais que aprendera desde pequena, ia do serviço para casa e de casa para o serviço renovando a cada dia a esperança de encontrar, nesse percurso tão igual, um sapo, quer dizer, um belo príncipe que a quisesse.

Um dia, após muita insistência, aceitou o convite do pessoal do serviço para ir a um baile. Afinal, aquilo poderia ser uma grande oportunidade para se divertir e quem sabe um bom lugar para sair de lá acompanhada de um sapo já transformado em príncipe. E bonito.

Pensou até em já ir com um vestido branco, parecido com o de uma noiva, caso precisasse de um para a ocasião. Em sua ingenuidade juvenil ela ainda acreditava que hoje em dia as moças ainda se casam. E de branco.

Sentou-se à mesa e sentiu-se tentada a experimentar um pouquinho do uísque que todos tomavam. Pela primeira vez na vida tomava uma bebida alcoólica. Estava longe dos pais e aproveitou-se da ausência deles para fazer uma incursão no mundo etílico. Mesmo porque, eles não estando por perto, não tinha a quem pedir permissão.

Tomou os primeiros goles e gostou. Repetiu numa segunda dose quando começou a sentir que tudo já era tão natural para ela naquele lugar, que tudo era divertido, e aceitou o convite para dançar. Dançou como nunca havia experimentado na vida. Rodopiou, levou, foi levada pela pista e em intervalos voltava à mesa para reabastecer-se com um pouco mais do aditivo que a ajudava a viver tudo aquilo.

O acompanhante, bem, não se pode dizer que era exatamente um príncipe. Rapaz simpático, mas sem o principal requisito para ser visto como um príncipe: não era muito bonito não. Mais se parecia com um sapo mesmo, só não era verde, mas naquela altura do campeonato, depois do terceiro uísque, para quem não estava acostumada àquelas coisas, era o homem ideal! Ao menos foi o primeiro que em sua vida se aproximou o suficiente para sentir o calor de seu corpo e de quem ela pudera sentir o perfume.

No dia seguinte descobriu que a bebida servida não era das melhores, quando acordou com todos os sintomas de uma memorável ressaca. Estava se martirizando com tamanha dor de cabeça, quando sua melhor amiga de trabalho lhe deu uma fotografia que alguém tirou na noite anterior, na qual se podia vê-la dançando abraçada (e bem abraçada) com o seu príncipe feiínho, que estava mais para sapo mesmo, à espera de um beijo para se transformar em algo melhor.

Alguma coisa a enterneceu e fez vibrar seu inexperiente coração. Era só uma foto, mas lá estava ela, nos braços de um homem que já lhe parecia o ideal, apesar da nota baixa no quesito beleza.

Tá certo, não se lembrava do nome dele nem de como fazer para encontrar-se com ele novamente, mas a foto se salvara naquela falta de lembrança de todos os acontecimentos da noite anterior. Era uma prova de que ela finalmente havia sido tocada e abraçada por um homem. Ela, a Durvalina, quem diria!

Sua amiga, numa tentativa de animá-la, disse que provavelmente o moço viria atrás dela sim, que logo haveria de aparecer. E que então poderiam dar continuidade ao que haviam iniciado naquela noite. Ainda que ninguém soubesse ao certo o que havia se passado.

Mas isso não lhe pareceu tão importante assim. O mais importante era a existência daquela fotografia, que passou a guardar sempre embaixo do travesseiro e na qual, antes de apagar a luz, dava um beijo e tornava a guardar. Sonhava com anjos. E príncipes.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Cagões em silêncio

Ruy Castro (*)

O presidente Lula afirmou que não irá ficar remoendo o passado a respeito de 1964, porque os atuais generais eram crianças quando o golpe militar aconteceu e não tiveram nada a ver com ele. Tem razão. Como esses generais estão hoje entre os 60 e os 70 anos, tinham então menos de 10, idade em que, segundo Nelson Rodrigues, deviam estar raspando perna de passarinho a canivete. Ou passando mais tempo no banheiro do que estudando.

Por não serem responsáveis por 1964, os generais hoje na ativa não deveriam se sentir herdeiros do golpe e obrigados a defendê-lo das acusações de tortura, execução e desaparecimento de seus adversários. Ao contrário – sem envolvimento emocional com os algozes e vítimas, seu maior interesse deveria ser ilibar as Forças Armadas dessa nódoa, admitindo que foram tais e quais oficiais que cometeram os crimes, e não as Forças em conjunto. O “esprit de corps” de que não se livram só serve para explicar por que, culpado ou inocente, nenhum milico saía fardado às ruas das grandes cidades brasileiras durante a ditadura.

Os generais de hoje têm agora também a oportunidade de impedir que o espírito golpista e criminoso de alguns de seus colegas contamine a opinião de quem, daqui a 60 anos, se debruçar sobre outro golpe ou tentativa de – o de 2022.

Para isso, deveriam contar tudo o que sabem nos depoimentos a que forem intimados, em vez de ficarem mudos como fizeram há pouco nove cagões, entre os quais os generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira e o comandante Almir Garnier. O silêncio só lhes serviu para, além de se autoincriminarem, exibirem sua covardia. Sim, Bolsonaro também ficou mudo, mas este sempre foi um valente de palanque – e, agora, nem isso.

Pelo retrospecto, Heleno, Braga, Paulo Sérgio e Garnier, crianças em 1964, deviam ser das que, diante do perigo, corriam para as saias da mãe. Continuam.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicano n’O Globo.

O golpinho de Bolsonaro

Elio Gaspari (*)

O golpe de 1937 de Getúlio Vargas guarda uma diferença essencial com o golpinho de 2022 de Jair Bolsonaro.

Ambos queriam o golpe para permanecer no poder, mas, enquanto num caso a eleição só ocorreria em 1938, no outro ela já havia ocorrido, e Bolsonaro perdera. Bota diferença nisso.

Querer fazer em dezembro de 2022 o que Vargas fez em 1937 seria transformar uma tartaruga em girafa.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

A ilusão política das grandes manifestações populares

Fernando Pessoa (*)

Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste, ou sabe delas, ingenuamente as interpreta pelos fatos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos fatos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os fatos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra fatos não há argumentos. Ora, só contra fatos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os fatos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos fatos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações – ia eu dizendo – o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos “avançados” englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena.

Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente de opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, não o “homenageado”, quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado, maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação senão com palmas e vivas.

É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprio a ilusão duma confiança que enfraquece.

(*) Fernando Pessoa (1888-1935), poeta, escritor e literato português.

O avesso do avesso

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Na medicina antroposófica há algumas práticas curiosas que muitas vezes beiram o nonsense, mas que, em última instância, se revelam bastante eficazes para promover transformações importantes no bem-estar físico, psíquico e anímico dos que se atrevem a segui-las. Uma delas, que sempre me encantou, é a proposição de um “Dia do Contrário”, que deve acontecer ao menos uma vez por mês – ainda que não haja uma frequência imposta nem datas específicas a serem observadas. É muito mais a autoavaliação de necessidade que dita como e quando ele vai acontecer.

Ao longo desse dia, a pessoa é instada a fazer absolutamente tudo de uma forma diferente da habitual. Cada um decide quais novas medidas serão testadas e eventualmente incorporadas. Ao tomar banho, por exemplo, pode-se ensaboar o corpo com a mão “errada” e/ou inverter a ordem da higienização: ao invés de começar pela lavagem do rosto, por exemplo, começa-se pela lavagem dos pés. Abrir portas com a mão trocada; alterar toda a rotina de horários (de acordar, tomar banho, arrumar a casa, comer e dormir); alterar o cardápio (com carne/sem carne) e/ou inverter a ordem dos pratos nas refeições; trocar o papel tradicional atribuído a cada membro da família, permitindo, por exemplo, que as crianças determinem quem vai fazer o quê, quem manda e quem obedece, etc. são outras formas comuns de autoexperimentação.

Não só isso, porém. Nos dias de hoje esse período de desconstrução de manias poderia abranger coisas como abolição do uso de telas de qualquer espécie por 24 horas e substituí-lo por rituais de meditação e introspecção; envolver-se com experiências táteis, auditivas e gustativas, de olhos fechados; abandonar uma reunião de trabalho para levar o filho para um passeio no parque; envolver-se num debate respeitoso com familiares, vizinhos ou desafetos ideológicos sobre os principais lances da política nacional e internacional – e tantos outros desafios que só a imaginação de cada um pode indicar.

O propósito? Simplesmente conscientizar-se a respeito da tirania dos hábitos do cotidiano, quebrar estruturas de autoridade encarquilhadas, ressignificar visões de mundo e crenças pessoais, abrir mão da zona de conforto de forma a destravar o potencial criativo e promover mudanças que nunca se ousou fazer antes por medo de perder a própria identidade. Os mesmos objetivos são perseguidos pela arquitetura antroposófica: na construção de residências e prédios comerciais busca-se eliminar ao máximo paredes com ângulo de 90 graus, de modo a evitar que as pessoas se tornem “quadradas” ao interagirem no ambiente.

Tive a oportunidade de colocar em prática várias vezes essa proposição e me impressionei com os resultados. A sensação de leveza e de liberdade, o alívio das tensões normais do dia a dia, a oportunidade de assumir-se imperfeito/desajeitado e principalmente a injeção de coragem para experimentar novas formas de estar no mundo são resultados inegáveis.

Semana passada, assistindo a flashes dos desfiles das escolas de samba, me dei conta de que o dia do contrário e o carnaval têm algo em comum. Percebi com mais nitidez o que esteve por trás da necessidade de instituição de um modelo de ‘carnaval à brasileira’. Inventado com base nas mesmas premissas do dia do contrário, a proposta original da nossa folia era a de inverter totalmente a hierarquia social – incluindo os papéis tradicionais de gênero.

Mistura sincrética de diferentes manifestações culturais, como as danças de salão europeias, bailes de máscara, ritmos indígenas e danças africanas, nossa forma única de conceber os festejos carnavalescos permitia que trabalhadores domésticos, garis, manicures, babás, cozinheiras e outros membros das camadas populares assumissem o centro do palco, transmutados em reis e rainhas. Era a consagração da insubmissão às normas hipócritas de compostura de uma sociedade escravagista, da autodeterminação, da alegria despudorada e da resistência pacífica.

Infelizmente, boa parte da espontaneidade da festa foi se perdendo ao longo das décadas. Da “bagunça organizada” dos pequenos blocos carnavalescos comunitários, o carnaval brasileiro passou a obedecer aos interesses comerciais de radiodifusão, com regras rígidas de coreografia, divisão em blocos temáticos com fantasias específicas, tempo de evolução na passarela e inclusão de figuras de destaque não-pertencentes às comunidades de origem.

Seja como for, a alegria transgressora e o caráter catártico da nossa festa maior continuam encontrando abrigo nas frestas e franjas dos festejos oficiais através da multiplicação de blocos amadores e nas diferentes versões regionais da folia. A brasilidade continua se reconhecendo como negra e indígena, nortista e nordestina, feminina e periférica, inventiva e improvisadora, inclusiva e avessa ao moralismo de ocasião. Em resumo, o inverso do perfil que a extrema direita tentou nos impingir nos últimos quatro anos (uma brasilidade branca, masculina, sulista e sudestina, heteronormativa, segregadora, conservadora, militarizada e teocrática).

Sendo uma das raríssimas manifestações culturais brasileiras que empresta igual importância ao processo e ao resultado e tem um caráter cooperativo, sem direção central, nosso carnaval tem tudo para continuar simbolizando a alma dionisíaca do povo brasileiro. Embora ainda rechaçado por muitos como sinal de alienação, devassidão moral e preguiça/aversão ao trabalho, ele se coloca em agudo contraste com as manifestações raivosas do bolsonarismo e do neopentecostalismo. Para quem aprecia o valor da igualdade democrática, pode ser mil vezes mais fácil tolerar o barulho ensurdecedor, o lixo nas ruas e os transtornos no tráfego dos eventos carnavalescos do que as intimidadoras motociatas, os desfiles fumacentos de tanques e muito provavelmente as manifestações de rua previstas para o dia 25 de fevereiro próximo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pronto, poluímos a Lua: 227 toneladas de lixo já se acumulam por lá

André Masson (*)

Algumas criaturas são tão imundas que põem em perigo a própria saúde. Os seres humanos estão claramente destinados a ser tão sujos que vão alterar o curso geológico dos planetas. Como relata o site The Conversation, investigadores da Universidade de Brock (Ontário, Canadá) avisam que, no que diz respeito à Lua, a era humana já começou – e não no bom sentido.

A NASA estima que cerca de 227 mil quilos de material tenham sido deixados na Lua pela atividade humana. Esse lixo inclui veículos lunares, mas também bandeiras, bolas de golfe, estátuas, cinzas humanas, excrementos e todo tipo de objetos.

Até hoje, apenas doze homens pisaram a Lua – e lá não fizeram grande coisa. E isso resultou em 227 toneladas de resíduos. Christine Daigle, Jennifer Ellen Good e Liette Vasseur, três professoras de filosofia, comunicação e biologia da Universidade de Brock, respectivamente, estão analisando o impacto que terá a colonização humana do satélite natural da Terra.

Não é instalando estações tripuladas permanentes e enviando turistas (não particularmente conhecidos por serem mais limpos que os astronautas) que deixaremos o local nas mesmas condições em que o encontramos.

Esse impacto, ainda que esteja atualmente limitado à superfície da Lua, pode evoluir. A NASA acredita que a Lua encerra recursos no valor de centenas de bilhões de dólares, incluindo terras raras, essenciais para nossos equipamentos eletrônicos, e hélio-3, um isótopo de hélio procurado pelas suas aplicações na fusão nuclear.

A era dos humanos
As três pesquisadoras da universidade canadense indicam que essas centenas de toneladas de lixo são o início de uma nova era geológica para a Lua: a que verá a atividade humana mudar o destino de nosso satélite natural. Para ilustrar a repetição de um fenômeno que já está em curso na Terra há várias décadas, as autoras do artigo falam de “Antropoceno Lunar”, termo introduzido por um estudo científico publicado em dezembro de 2023 na revista Nature.

Para um planeta como a Terra, trata-se da era dos humanos, o que não é necessariamente uma boa notícia. O Antropoceno é um novo período geológico influenciado mais pela humanidade do que por forças geofísicas. Constata-se que a Terra está entrando nessa era há algumas décadas e a Lua parece estar seguindo o mesmo caminho.

Próximo objetivo: emporcalhar Marte.

(*) André Masson (1950-), economista francês, é diretor de pesquisa na Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais, Paris.

As aparências não enganam

Eduardo Affonso (*)

Causou espanto ao senador Flávio Dino, iminente ministro do STF, o rebaixamento do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional. Depois de qualificar o relatório como “atípico e anômalo”, com “afirmações exóticas”, Dino incorporou o estilo da saudosa mulher sapiens, hoje presidenta do banco do Brics, Dilma Rousseff:

— O que mudou é que nós pusemos fim à política de espetacularização do combate à corrupção, que é uma forma de corrupção. Quem usa corrupção como forma de combate à corrupção, como bandeira política, é tão corrupto quanto o corrupto.

(Só com essa declaração, o Brasil deve ter galgado 10 postos no Índice de Corrupção da Diversidade Vocabular.)

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.
O texto é trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

À guisa de conclusão

Bolívar Lamounier (*)

É difícil dizer o que é pior: dois grandes partidos abandonando sua tradicional moderação, como se vê atualmente nos Estados Unidos, ou um país virtualmente sem partidos, como é atualmente o Brasil, onde o que vemos é um conglomerado disforme que atende pelo nome de Centrão. Num caso ou noutro, o que precisamos ter em mente é que, com nossa renda por habitante crescendo a taxas anuais pífias, não está à vista o dia em que poderemos celebrar a superação da “armadilha do crescimento médio”. Bem ao contrário, outro confronto vitriólico como o de 2022 entre Lula e Bolsonaro nos afundará mais alguns degraus no fundo do poço.

Não descabe lembrar que não é só de partidos políticos que o Brasil carece. Não dispomos de uma elite no sentido apropriado deste termo: um grupo relativamente numeroso, competente, culto e genuinamente devotado ao bem coletivo. Temos, isto sim, um exíguo grupo de poderosos, dentre os quais seis ou sete por cento exercem um controle imexível sobre metade da riqueza nacional. Falta-nos igualmente uma classe média, ou algumas camadas que possamos designar como alta classe média, capaz não somente de identificar e defender seus próprios interesses, mas também de servir como um muro de arrimo, escorando e balizando as instituições da República, nos Três Poderes.

(*) Bolívar Lamounier é sociólogo e cientista político.

Trecho de artigo publicado no Estadão. 

Agregar

Ricardo Soca (*)

Os romanos chamavam seus rebanhos de grex, gregis. Esse substantivo deu origem a várias palavras em nosso idioma, a começar por grei, que, na linguagem eclesiástica, se refere ao “rebanho” da Igreja.

Quando uma vaca era adicionada ao rebanho, os latinos usavam o prefixo a- antes de gregis para formar aggregare = agregar.

Quando um ou mais bovinos eram separados do grupo, o prefixo se- era aplicado e dizia-se que eles estavam segregados.

Quando o rebanho era dividido, o prefixo dis- era utilizado para expressar que o grupo estava disgregado (ou desagregado).

Quando o dia chegava ao fim, o prefixo con- era usado para indicar que o rebanho estava se congregando em um só lugar para voltar ao estábulo.

Quando queremos dizer que os seres humanos gostam de viver entre seus semelhantes, como em um rebanho, atribuímos a eles um caráter gregário.

E quando um deles se destaca do rebanho, dizemos que ele é egrégio.

(*) Ricardo Soca, uruguaio, é linguista e escritor. Edita um blogue sobre a língua castelhana. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro.

O Brasil pardo detectado pelo IBGE contra o Brasil negro dos identitários

Wilson Gomes (*)

Censo do IBGE
A particularidade do censo do IBGE é que ele não apenas fornece dados, mas os apresenta orientados por teorias e embalados na ideologia dos analistas que trabalham nele.

Segundo as estatísticas geradas, 45,3% dos brasileiros se declaram como uma mistura de duas ou mais opções de cor ou raça, escolhendo entre branca, preta, parda e indígena, conforme o manual do instituto. Quem assim se identifica é pardo. Alvíssaras, o IBGE descobriu o óbvio, o Brasil é um país mestiço.

Como há um dogma dos militantes atribuído ao IBGE que reza que pardos não passam de uma subdivisão de negros, celebrou-se então a superioridade numérica dos negros nesse país. Mas apenas 10,2% se definem como negros.

É que, embora as pessoas tenham o direito de se identificar como desejarem, inclusive tendo a opção de adotar como critério de escolha a cor ou a raça, jornalistas e militantes se concedem o privilégio de ignorar tal autoidentificação e reclassificá-las conforme seus próprios critérios: pretos e pardos são espécies de negros, ponto final.

Ora, se os pardos se considerassem negros, escolheriam a identificação como pretos, como é óbvio supor. Da mesma forma, caso se vissem como brancos, optariam por essa categoria. Mas não o fizeram, assumem-se como mestiços.

Ocorre que no Brasil a escolha da categoria de cor ou raça deve ser considerada séria demais para se permitir que as pessoas decidam o que são por conta própria. A sociologia militante se concede o poder de decidir em lugar dos cidadãos, inclusive desconsiderando suas próprias percepções. Mas o tratamento é exclusividade dos pardos, claro.

A militância
Os militantes da causa negra não demoraram a ressaltar como anos de trabalho árduo dos movimentos resultaram no aumento do número dos autoidentificados como pretos e pardos no Brasil.

Embora isso possa ser verdade, esperemos algum crédito do fenômeno ao fato de que as pessoas vêm se miscigenando no país há mais de 500 anos, bem antes que movimentos negros marchassem com faixas declarando que “miscigenação é genocídio” ou inundassem as redes com denúncias de “palmitagem” de quem se envolveu com pessoas de outra cor.

O cardinalato dos influenciadores que reivindicam falar em nome de todos os negros não iria perder a oportunidade de pontificar sobre o assunto. “É uma vitória termos um Brasil que se reconhece como negro”, afirmou-se. Para depois rematar-se com: “Nunca é demais lembrar que pardos e pretos compõem a população negra do Brasil”.

Pelo visto, ignora-se o fato de que “o Brasil” se reconheceu majoritariamente como pardo, não como negro, branco ou indígena. Nem deveria ser demais lembrar que pardo é alguém que se reconhece mestiço, misturado, miscigenado, não como componente de qualquer outra população, a não ser a brasileira.

Impressionante como a matriz indígena foi esquecida, como se ela não fizesse pardos.
Ora, ocorre o contrário. O norte do Brasil é pardo, a Amazônia é parda. Os dez municipios com maior percentual de pardos estão entre o Amazonas, o Pará e o Maranhão. Como o colégio cardinalício identitário decidiu que todos os pardos são compulsoriamente negros, a origem indígena do Brasil pardo foi apagada.

O pior é que nem isso é para valer. Parafraseando o verso do Rigoletto de Verdi, “il pardo è mobile, qual piuma al vento”. Conforme a conveniência do cardinalato identitário e dos movimentos negros, movem-se os pardos para lá ou para cá.

Nos momentos de fazer volume, pardos são da população negra. Na hora das cotas em concursos ou de dividir cargos, chama-se a polícia racial, ou “comissões de heteroidentificação”, para tirar os pardos.

A autoidentificação dos pardos é desconsiderada; o que não se ignora é a premissa que há sempre um pardo querendo desfrutar de reparação que é só devida aos pretos. Pardos são úteis nos numeradores para se calcular as compensações, mas um estorvo depois do cálculo feito.

Flávio Dino
Vejam Flávio Dino. Alguém tem mais a cara do Brasil do que um caboclo miscigenado do Maranhão, justo onde a Amazônia e o Nordeste se encontram num abraço gostoso?

Pardo, no jargão do IBGE, ou moreno, mulato ou caboclo na língua real do país, Dino tem a cor e a manha da nossa gente.

No Brasil brasileiro, Dino é caboclo inzoneiro, exceto para as autoridades identitárias, que prantearam a sua indicação ao STF alegando que o cargo era para uma pessoa negra. Quando há privilégios e recompensas, pardos não são negros, nem sequer Flávio Dino.
(*) Escritor e professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Artigo publicado na Folha de S. Paulo. 

Pra quem é, tá de bom tamanho

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando eu era criança e havia alguma festinha de aniversário em casa, minha mãe se encarregava de preparar todos os salgadinhos e doces – isso para uma concentração de, pelo menos, 50 convivas. Para agilizar a execução de uma tarefa tão gigantesca quanto essa, ela colocava todas as filhas a postos para ajudar na preparação e fritura/assamento das massas, elaboração dos enfeites, arrumação da mesa e decoração da casa.

A mim era destinada quase sempre a enfadonha e repetitiva tarefa de esticar a massa das empadinhas dentro das fôrmas, talvez por não envolver o uso do fogo ou por permitir supervisão constante. Canhota e desajeitada por natureza, eu tentava de todas as maneiras corresponder às expectativas de confecção de uma camada fina de massa tanto na base quanto nas paredes laterais de modo a não comprometer a degustação do recheio.

A atenção aos detalhes sempre teve importância muito maior para mim do que a rapidez na execução de qualquer tarefa. Minha mãe dizia que eu “bordava” qualquer trabalho que me fosse solicitado. Para garantir um resultado satisfatório com a mão “errada”, eu, de fato, demorava uma eternidade: ia e voltava infinitas vezes pressionando a massa contra o fundo das forminhas até que ela se tornasse transparente, só para constatar mais tarde que ela havia rasgado na base ou que as paredes haviam ficado grossas demais. Daí era engolir em seco e recomeçar do zero. Ansiosa para se dedicar ao preparo dos demais quitutes, minha mãe tentava me apressar, relevando algumas pequenas imperfeições. Quando eu choramingava, exausta por não estar conseguindo alcançar o padrão desejado, ela piscava para mim e acrescentava com uma risada: “Não se preocupe, pra quem é, tá de bom tamanho”.

Essa frase me aturdiu desde a primeira vez que a escutei e a incompreensão pelo tom zombeteiro me assombra até os dias de hoje. Não entendia como minha mãe podia me aconselhar a usar de dois pesos e duas medidas na entrega de um trabalho, conforme o perfil de seu destinatário final. Quer dizer, então, que havia pessoas com paladar requintado o suficiente para perceber que o produto tinha um acabamento gourmet e outras que engoliam despreocupadamente qualquer coisa que lhes fosse oferecida desde que satisfizesse seu apetite? Para mim, essa categorização era inaceitável: significava (e ainda significa) que o capricho na execução da tarefa não é um valor intrínseco ao caráter do executor, mas simples conveniência social.

Cresci tentando exorcizar o caráter antiético dessa ideia, mas não teve jeito: ela nunca me abandonou e acabou sendo incorporada ao meu código pessoal de princípios morais reversos – isto é, das coisas que eu nunca deveria conscientemente tentar fazer. A opinião do usuário final sobre a excelência ou insuficiência técnica do meu trabalho também jamais foi capaz de superar minha ácida crítica interna. Se não estou satisfeita com a qualidade do que me propus a fazer, nenhum elogio tem o poder de compensar a frustração e a sensação de impotência, enquanto as críticas negativas são catalogadas apenas como mais/menos cruéis do que a minha própria.

Graças ao período recente em que fui forçada a ficar de molho por causa de uma queda, pude compreender, como nunca antes, as consequências desastrosas que a adoção de um padrão imaginário de perfeição, inatingível para o comum dos mortais, havia provocado em mim. Entendi que jamais ousei me profissionalizar de fato. Preferi sempre me apresentar como uma amadora de boa vontade, curiosa e disposta a aprender com seus erros. Todos os trabalhos que apresentei eram entregues já com as devidas ressalvas: ‘Olha, esse foi o melhor que pude fazer, mas não creio que tenha encontrado todas as respostas que você buscava’; ‘Como foi a primeira vez que lidei com isso, devo ter deixado escapar algum fator relevante’; ‘Se você me der mais tempo, posso revisar toda a análise, sem custo, e corrigir eventuais distorções’.

Claro que essa pretensa “humildade” estava a serviço de minimizar minha sensação de culpa, desviar a atenção da minha real incompetência e compensar a dor da minha ferida narcísica. Obviamente, a síndrome da impostora que me afligia acabou tendo também um enorme impacto financeiro negativo sobre meus proventos profissionais. Hoje, revendo os acordos orçamentários que me dispus a fazer ao longo da vida, penso nas infinitas oportunidades que perdi de bancar cursos de pós-graduação ou extensão universitária, viagens, ou me dedicar a outras áreas de interesse, especialmente as que não envolvessem apenas o uso do cérebro.

Por outro lado, a disponibilidade para me envolver com tarefas que eu desconhecia ou pouco exploradas no mercado acabou agregando um inesperado traço experimentalista à minha imagem profissional. Vários clientes desejosos de conhecer melhor os limites de divulgação de seu produto/marca me abriram as portas para a introdução de novas técnicas projetivas de pesquisa e novos arranjos para o público-alvo. Hoje, olhando para trás, até eu me surpreendo com tantas e tão diversificadas experiências que acumulei – desde atuar como consultora de um centro espírita para descobrir as causas das brigas entre seus médiuns até trabalhar ao lado de redatores publicitários e criativos na identificação de novos apelos mercadológicos.

Nascida e criada em solo brasileiro, no entanto, me é inescapável admitir que acreditar que “pra quem é, tá de bom tamanho” sempre foi um lema consagrado pelos integrantes dos três poderes de nossa combalida República ao elaborar projetos de combate às nossas maiores mazelas. Valores pífios para o aumento do salário mínimo, não-correção da tabela do imposto de renda, fila quilométrica para acesso aos parcos benefícios da Previdência, limitação de recursos para o SUS e para pesquisas nas áreas de educação e saúde, justiça viesada a favor dos poderosos de plantão e empedernida para lidar com as transgressões de ‘pés de chinelo’ convivem placidamente com um fundo eleitoral de 5 bilhões, fundo partidário igualmente bilionário, desrespeito às cotas para mulheres e negros na composição das chapas… a lista é interminável.

Assim, me ocorre deixar um lembrete final para quem pretende votar nas próximas eleições (municipais, estaduais e, principalmente, na presidencial):


“Nada é suficiente para quem considera pouco o suficiente.”
Epicuro


(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escrituras no Morro do Alemão

Elio Gaspari (*)

Há duas semanas, como parte do Programa Solo Seguro, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 títulos de propriedade a moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. (Naquele cenário, em 2011, foi instalado o espetáculo do teleférico que custou R$ 210 milhões. Ficou sete anos parado e seria reaberto no início deste mês. Tudo bem, o que começa como presepada, como presepada se encrenca.).

A regularização dos lotes onde vivem 180 famílias do Alemão custou três meses de trabalho a 17 pessoas: duas da Corregedoria, cerca de 12 da Prefeitura do Rio e três do cartório de registro de imóveis. A impressão das escrituras deve ter saído por uns R$ 2 mil. Só.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 17 dez° 2023 n’O Globo.

Milei quer que toda propriedade seja privada

Ricardo Araújo Pereira (*)

Tem sido dito que o presidente eleito da Argentina preza a liberdade, o que talvez não seja exato. Na verdade, Javier Milei nunca diz “viva la libertad”, mas “viva la libertad, carajo”.

Ora, uma coisa é a liberdade. Outra é a “liberdade, ‘carajo'”. São conceitos bem diferentes.

O “carajo” costuma transformar as coisas, torná-las mais brutas. Para perceber isso, basta fazer a experiência de dizer à nossa querida mãe “não vou querer sobremesa” ou “não vou querer sobremesa, ‘carajo'” e ver o que acontece a seguir à mesa.

Em uma entrevista concedida no ano passado, Milei afirmou que um governo seu legalizaria a venda de órgãos humanos. Ele parece já ter vendido um dos seus. Aquele que habitualmente fica no crânio.

É que Milei alega conversar com o seu cão morto, através de um médium, pelo que talvez haja boas razões para desconfiar que tenha transacionado o órgão em questão.

Mas, lá está, legalizar a venda de órgãos é uma ocorrência de “liberdade, ‘carajo'”. Parece uma lei igual para todos, mas não é. Quem tem dinheiro nunca irá vender os seus órgãos. Poderá adquirir alguns, caso necessite, e agora saberá a quem comprá-los, mas não vai querer vendê-los.

Ao que parece, além de manter conversas com o seu cachorro morto, Milei também fala diretamente com Deus. Foi, aliás, o próprio criador que o incumbiu da importante missão de comandar a Argentina em direção à prosperidade.

Sendo Milei uma pessoa tão educada e ponderada, não é difícil supor que Nosso Senhor tenha tirado algum do tempo que dedica à administração do universo para pedir ao novo presidente que tomasse conta da Argentina. O programa de governo é o que Deus, ao que tudo indica, defende: a extinção dos ministérios de Saúde, Educação, Cultura, Ciência, Obras Públicas e Transportes e a privatização de todas as empresas estatais.

Haverá os hospitais e as escolas que o setor privado bem quiser, nos locais em que derem lucro, e a preços sem controle do Estado. Se forem necessárias estradas ou pontes ao país, caberá à iniciativa privada construí-las e mantê-las, desde que sirvam os interesses de alguns, e não de todos.

Milei quer que toda – mesmo toda – propriedade seja privada. Embora ele prefira viver despojado dos bens mais banais possíveis.

Por exemplo, um simples pente. É óbvio que Javier Milei não tem um à disposição.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Devassa na República da Muamba

Sérgio Rodrigues (*)

As investigações da Polícia Federal ainda estão em andamento, mas já jogaram uma luz nova sobre o governo Jair Bolsonaro. Que ele tinha sido o mais indigno e mortífero da história da República já se sabia. Que fosse basicamente uma quadrilha de muambeiros ainda não estava tão claro.

Mais do que um grupo de extrema direita de viés populista e golpista – o que a turma que esteve no poder entre 2019 e 2022 também era –, emerge das investigações uma organização criminosa que lançou mão dessas tintas ideológicas para camuflar operações comuns de roubo, contrabando e mutreta. Era a República da Muamba.

E assim essa palavra brasileira de origem africana, dicionarizada desde o século 19, chegou finalmente ao primeiro escalão da vida nacional – se é que se pode chamar aquilo de primeiro escalão, a que ponto descemos.

Muamba nasceu no quimbundo, língua da família banta falada em Angola, na qual “muhamba” queria dizer em primeiro lugar “engradado de hastes e folhas de palmeiras usado em viagens, cesto, carga, carreto” (definição do dicionário Priberam). A mesma palavra designa em Angola um ensopado feito com dendê.

Foi a partir da primeira acepção, a de cesto usado para transportar carga em viagens, que muamba ganhou no Brasil os sentidos que passariam a ser os principais entre nós: primeiro, furto de mercadoria armazenada em portos; em seguida, comércio de produtos roubados e contrabando, além da própria mercadoria assim traficada. A isso se somou ainda, sempre no Brasil, uma última extensão semântica – a de fraude, velhacaria, golpe, ganho.

Um sentido mais restrito do termo entre nós é o de feitiço, bruxedo, registrado pela maioria dos estudiosos como se tivesse a mesma origem. No entanto, segundo a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro, autora de “Camões com Dendê”, nesse caso a palavra veio do quicongo “(m)wanba”.

A muamba fez sucesso tão grande no Brasil, tanto a palavra quanto o comércio escuso que ela nomeia, que não demorou a se transformar num dos incontáveis sinônimos de cachaça. Aqui também teve um filhote, muambeiro, ou seja, contrabandista ou comerciante de mercadoria não declarada.

É curioso que, apesar de todo esse peso cultural, a muamba tenha presença tímida em nossa literatura. Registros da palavra não são fáceis de encontrar fora das obras de autores que se debruçaram mais detidamente sobre a fala das ruas, como João Antônio e Rubem Fonseca.

“Assim parado, se vendo pelo avesso e fantasiando coisas, Malagueta, velho de muito traquejo, que debaixo do seu quieto muita muamba aprontava, era apenas um velho encolhido”, escreveu o primeiro em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, de 1963, dando à palavra o sentido menos comum de golpe, artimanha.

No conto “Botando pra quebrar”, do livro “Feliz Ano Novo”, de 1975, Fonseca emprega muamba no sentido mais consagrado. Um ex-presidiário se queixa de que ninguém lhe oferece trabalho, “só malandro como o Porquinho que estava a fim de eu ir apanhar pra ele uma muamba na Bolívia…”.

O dicionário Houaiss traz no pé do verbete “muambeiro” uma curiosa nota: “Desde 1990 a palavra vem caindo em obsolescência (…), substituída por ‘sacoleiro’”.

Se muambeiro corria mesmo risco de obsolescência – do qual admito que estou ouvindo falar pela primeira vez –, este parece ter sido definitivamente afastado pelas trepidantes trapalhadas de Mauro Cid, assistente de ordens da República da Muamba.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Jamais esquecer Bolsonaro

Ruy Castro (*)

De há algum tempo, sempre que cito Bolsonaro nesta coluna, leitores argumentam que devíamos parar de falar nele “para não promovê-lo” e que “quanto mais cedo o esquecermos, melhor.” Também me repugna manchar este espaço com tal nome, mas o raciocínio é outro. Continuo a falar de Bolsonaro porque o Brasil ainda não ajustou contas com ele. Aliás, mal começou.

Dia 31 de outubro, Bolsonaro respondeu a mais um processo por ter prostituído o 7/9 do Bicentenário para fins reeleitorais. Foi condenado de novo e teve confirmada sua inelegibilidade por oito anos. Pena que cada condenação não se acrescente às outras para chegar a um número de três algarismos. Sou capaz de conviver com isso, desde que uma manobra de algum de seus advogados de toga não decida pela supressão da pena.

Acho hoje que devemos ser gratos a Bolsonaro. Ao tentar destruí-la, ele nos ensinou o valor da democracia. Nesta, a corrupção existe e pode ser combatida. Numa ditadura, a corrupção é até em maior grau, mas não podemos sequer denunciá-la. Bolsonaro levou quatro anos martelando que em seu governo não se roubava, como se os bilhões que usou para comprar os votos da reeleição fossem filantropia. Se reeleito, isso se cristalizaria como verdade.

Engana-se quem diz que seu governo é “para esquecer”. Ao contrário, temos de lembrá-lo dia a dia, para aprendermos como se tentou armar a maior teia antidemocrática da história da República. Em 1937, Getulio impôs a ditadura na marra; em 1964, os militares botaram os tanques na rua. Já Bolsonaro costurou a dele ponto por ponto, infiltrando seus agentes nas urdiduras do Estado para amarrar cada nó.

Quando as outras nove investigações a seu respeito se completarem (e a delação de Mauro Cid não para de revelar crimes), então Bolsonaro poderá ser esquecido – num longínquo e acolhedor presídio federal.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.