Decepções

José Horta Manzano

Não sei se os pequerruchos de hoje ainda acreditam em Papai Noel. De criança, acreditávamos todos, ingênua e piamente. Escrevíamos cartinha, preparávamos lista de desejos. Uma vez cheguei a envelopar minha carta e enfiá-la numa caixa de correio. Não sei que fim levou.

Cada um tem sua própria vida, com encantos e choros que às vezes começam cedo. Se nada de mau acontecer antes, a primeira grande desilusão vem no dia em que a criança descobre que o bom velhinho não existe, que era apenas invenção dos mais velhos. Mas isso acaba passando.

Mais pra diante, a gente acredita (ou gostaria de acreditar) que os heróis da juventude fossem reais. Hoje, não sei o que encanta essa moçada de telefone na mão, mas os do meu tempo faziam força para acreditar na bondade do Zorro e na existência da kryptonita que dava força ao Super-Homem. A desilusão veio logo. Mas isso acaba passando.

Um pouco mais tarde, vi multidões se entusiasmando pelos comícios do Jânio Quadros, todos condoídos com a humildade daquele que fazia pausa no discurso para morder um sanduíche de mortadela. Eu não votava naquele tempo, mas vi muitos botarem fé no demiurgo. Foi um furo n’água que acabou custando caro ao país. Longa decepção. Mas isso acaba passando.

Décadas mais tarde, veio um momento especial em que a corrupção, mais robusta que de costume, saltou aos olhos da sociedade. Foi aquela sequência de mensalões e petrolões proporcionados por um partido que, de trabalhador, só tinha o nome. No poder, eles mostraram que eram bons mesmo para ganhar dinheiro no mole. A decepção foi chocante. Mas isso acaba passando.

Naquele momento surgiu, das brumas de Curitiba, um bravo juiz de província que, tal um Zorro ressuscitado, montou a cavalgadura e prometeu varrer a bandalheira. Entusiasmado, meio Brasil acreditou. Ao fim e ao cabo, foram descobrir que o personagem era tão desonesto quanto os que prometia combater. De ex-futuro presidenciável, baixou a crista e está hoje estacionado em Brasília, longe dos holofotes que já não se voltam para ele. Foi chata, a decepção. Mas isso acaba passando.

Mais uma década escorreu. Veio um Bolsonaro, que quase levou o Brasil para o beleléu. Escapamos de nos apequenar a ponto de virarmos um El Salvador, minúsculo país ditatorial idolatrado pela extrema-direita nacional. Vejam só que despautério! Muitos dos que tinham votado em Seu Jair se arrependeram. A decepção foi brutal. Mas isso acaba passando.

Pra tirar da boca o gosto amargo de quatro anos de ignorância, insultos e agressões, nosso “monstro da pandemia” foi levado ao banco dos réus, julgado, condenado e encarcerado. A proeza se deve à ferrenha disposição do juiz a quem coube, veja a sorte que tivemos, cuidar do processo. No começo, ninguém acreditava que Bolsonaro fosse um dia levado aos tribunais. Foi. Depois, poucos imaginavam que fosse condenado. Foi. Em seguida, ninguém podia crer que fosse um dia preso. Foi. Só por essa façanha, uma estátua deveria ser erguida em homenagem a doutor Alexandre de Moraes, a quem o Brasil deve a não banalização de um golpe de Estado.

Só que… ninguém é perfeito. Talvez inebriado pela visão da futura estátua de bronze, doutor Moraes exagerou na dose. As notícias ainda não estão claras, mas há indicações de que misturou os pincéis, isto é, valeu-se de seu prestígio, de seu poder e de sua força para obter favores que, sem isso, não teria obtido. Se as acusações, por ora veladas, forem verdadeiras, ficará mais uma vez provado que a imisção do privado no público (e vice-versa) permeia as altas esferas da nação. Era assim no tempo de Tomé de Souza e continua assim nos tempos atuais.

Acho que nem é possível falar em decepção. Será que isso acaba passando?

2 pensamentos sobre “Decepções

  1. Faltou falar do pai dos pobres, distribuidor de vários tipos de bolsas, mestre mor do populismo e demagogia , que não se importa de aumentar a dívida do Brasil para 9 trilhões e pagar um trilhão de juros anuais só para rolar a dívida, desde que seu partido permaneça no poder enricando seus companheiros.

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