Fux: desonesto e desleal

STF
Por fora, protegido contra pessoas mal-intencionadas
Por dentro, mal-intencionados estão soltos

José Horta Manzano

O escritor Sérgio Rodrigues argumentou que, no julgamento de Bolsonaro e sua gangue, o combate dos que detestam os carecas tem a oportunidade rara de despertar consciências para o valor de uma cabeça lustrosa, com sua linguagem pelada, em comparação com o dumping de juridiquices pilosas de uma peruca.

Convenhamos que o escritor soube deitar no papel, em letras claras, o que todos comentam à boca pequena.


É raro ver o voto de um magistrado, fosse ele do STF, provocar a unanimidade que a cachoeira de palavras de Luiz Fux provocou. Todas as críticas que li – e li muitas – mostram jornalistas, em maior ou menor grau, indignados.

A estas alturas, vosmicê já deve ter tido acesso a alguns comentários. Excluindo algum bolsonarista puro sangue, todos os brasileiros pensantes estão, se não indignados, espantados e/ou desorientados.

O STF é um colegiado de magistrados, senhores, não um cortiço de analfabetos. Decisões de tamanha envergadura, como a absolvição ou a condenação dos autores de nossa mais recente tentativa de golpe de Estado, devem ser avaliadas pelo colégio de juízes antes da apresentação ao público. O que aconteceu ontem é a prova de que essa fase foi zapeada.

Estivéssemos em tempos normais, as dez horas de fala de Luiz Fux seriam olhadas com condescendência e seriam consideradas um esforço de “ser estrela por um dia”. Uma exaltação da vaidade. A meia hora de glória que seria comentada pelo mundo todo no dia seguinte.

Mas acontece que não estamos em tempos normais – e doutor Fux sabe disso muito bem. Temos o presidente do país mais poderoso de olho nesse julgamento, ameaçando-nos até com sua força militar caso o processo não seja truncado imediatamente. Temos, no banco dos réus, um ex-presidente da República e seus áulicos, entre eles, generais.

Não é num julgamento desse quilate que Fux havia de rodar a baiana e pisar no pé dos colegas na contradança. Se o fez, foi por razões imperiosas. Não é pecado conjecturar.

Na minha visão pessoal, o inesperado refugo de Fux tem outra explicação. Não é fruto do desejo de épater la galerie, de impressionar a distinta plateia. Algo me diz que Sua Excelência agiu assim para sair da mira de Donald Trump.

Por algum motivo, o ministro faz questão de conservar seu visto americano e seu direito de visitar aquele país quando e por quanto tempo desejar.

    • Talvez tenha depositado suas economias numa caixa econômica do faroeste e queira continuar tendo acesso à grana.
    • Talvez esteja planejando uma viagem à Disneylândia em dezembro, no intuito de cumprimentar o Pateta e deixar os netinhos andar de xícara.
    • Talvez tenha dado entrada num apartamento em Miami, como tantos brasileiros, e tenha agora medo de perder o investimento.

Imagino que Fux será cobrado, por seus pares, sobre a razão da guinada. Uma boa explicação vai-lhe evitar ser mandado para a geladeira por alguns anos.

4 pensamentos sobre “Fux: desonesto e desleal

  1. Minha única reação foi de perplexidade, pasmo absoluto, embotamento intelectual. Meu corpo ficou todo dolorido, como se eu tivesse levado uma surra braba, com soco inglês. Mais do que aviltar o sistema judiciário brasileiro diante do mundo, ele conspurcou nossa cidadania de forma irremediável, nos enquadrando como republiqueta de bananas para todo o sempre. Sinto uma profunda vergonha de ser compatriota de uma figura tão execrável, talvez até mais do que o próprio Bolsonaro.

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    • Depois de publicar o texto, lembrei de algo que tinha imaginado horas atrás.

      A hipótese é tenebrosa, mas, à vista das barbaridades a que temos assistido, não seria impensável que Trump tenha oferecido a esse senhor uma bela recompensa em dólares se ele bagunçasse o julgamento.

      Bagunça feita, Sua Excelência pode ir resgatar seu prêmio na agência bancária do Velho Oeste, onde depositou suas economias.

      É só uma hipótese, atenção, não passa de fake news!

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      • I’m affraid que minha teoria da conspiração seja mais tenebrosa do que a sua. Pode ser que Fux tenha sido chantageado (incluindo a família dele) de uma forma muito cruel – além do visto nos EUA e da manutenção do cartão de crédito/eventuais propriedades, talvez uma ameaça de morte ou exposição pública de algum podre – dado que ele contradisse a si mesmo, depois de mais de 400 julgamentos do 8 de janeiro. Me fez lembrar a ideia de colocar um colete no gerente do banco recheado de bombas para garantir a abertura do cofre e o roubo – só que para isso seria preciso haver alguma evidência significativa de que o gerente é honesto e não está em conluio com os assaltantes, o que, diga-se de passagem, é muito difícil de garantir no caso deste cantador desafinado de boleros. Já tinha chamado muito minha atenção durante o voto dele a repetição ipsis litteris de todos os argumentos do clã Bolsonaro/dos líderes do PL: rememorar o julgamento do mensalão e enquadrá-lo como “esse, sim, um verdadeiro golpe de estado”, a tese de que tudo não passou de “pensamento digitalizado” e de lamúrias isoladas de um perdedor da eleição, a absurda afirmação de que não houve violência armada, etc.

        Há ainda uma hipótese intermediária/neutra de uma jornalista, que alega que ele estaria garantindo para si a vaga de Ministro da Justiça num provável governo Tarcísio de Freitas. Acabo de ler também uma declaração do Waldemar Costa Neto de que, se Fux quiser, está garantida a eleição dele como senador pelo RJ em 2026. Dudu Bananinha também postou ameaças à Cármen Lúcia e ao Zanin, caso eles votassem pela condenação do papai.

        Desculpe o atraso para responder. Tive de interromper para assistir à íntegra do voto da Cármen Lúcia. Estou de alma lavada. Nada como a simplicidade deliciosa do português arroz-e-feijão do discurso jurídico dela. (Talvez fosse melhor dizer do tutu mineiro acompanhado de arroz soltinho). Recuperei minha fé na cidadania brasileira e já me preparo para sair às ruas para celebrar com champanhe e rojões a condenação do Mito.

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  2. Para juízes que escracharam Lula e após 500 dias o endeusaram, apesar de bilhões roubados e provados, temos que dar crédito ilimitado ao STF.

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