Terremoto em Taiwan

credit: Markku Uländer via Reuters

José Horta Manzano

Há imagens que não dizem grande coisa. Há outras que prendem a atenção e fazem refletir. A foto acima é daquelas que não deixam ninguém indiferente.

Esteticamente, é belíssima, uma réplica taiwanesa da torre original, situada em Pisa. Acho até que a inclinação desse prédio é mais forte do que a da torre italiana.

Há outros espantos. Dos aparelhos de ar condicionado, nove ainda estão lá, quietinhos, exatamente no lugar em que foram instalados. Aguentaram o baque. Instalador taiwanês é gente competente.

Dos vidros espelhados, excetuando os que foram esmagados no movimento de inclinação, a quase totalidade resistiu sem cair.

Fico imaginando o pavor de quem estivesse dentro do prédio na hora do sismo. Sentir um tranco e perceber que o assoalho se inclina, se inclina… Situação de infarto.

Aqui em Pindorama, volta e meia cai um prédio aqui, outro ali, sem terremoto mesmo. Engenheiros e arquitetos da ilha de Formosa (hoje Taiwan) merecem forte aplauso. Sabem fazer edifícios sólidos e resistentes.

Dá a impressão de que, com um guindaste gigantesco, se conseguiria erguer o imóvel e recolocá-lo na posição original.

Vai ver que ele só se inclinou pra dar bom-dia à cidade.

O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Você, que vive no Sul ou no Sudeste, às vezes sente um friozinho. Mas saiba que já houve épocas bem mais geladas. Entre os distintos leitores, só alguns dinossauros hão de se lembrar do terrível inverno de 1955.

Aqui vai a descrição detalhada do fenômeno extraordinário daquele ano, coisa que só acontece uma vez por século. É até possível que, nos séculos passados, algum inverno tenha sido mais rigoroso que o de 55, mas não dispomos de nenhum registro.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, quase 70 anos atrás, tinha início a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.

Anitápolis (SC) com neve

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi atípica em cinco aspectos.

1°) A extensão territorial
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sido conservadas as respectivas cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2°) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3°) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4°) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5°) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO
(Os dados que se seguem baseiam-se nos registros do Inmet.)

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu acima de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a temperatura mais alta do dia foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e, na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul

Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina

São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná

Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo

Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso

Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia

Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio ainda pegou forte principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:

Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

Se bandido bom é bandido morto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

….um corolário necessário é o de que policial bom é policial matador, pois não? Simples questão de lógica. E também, indiretamente, um convite mal disfarçado para que a população faça justiça com as próprias mãos, sempre que possível.

É inescapável para quem lê jornais regularmente a conclusão de que nossa sociedade não só tolera a eliminação física dos acusados de violar as leis, desde que, obviamente, os abatidos se enquadrem na categoria PPP (pretos, pobres e periféricos), mas também aplaude a truculência policial ocasional contra outros alvos civis, como mulheres, idosos, crianças e moradores de rua, mesmo que não envolvidos diretamente com atos criminosos.

Uma das vantagens de ser velha é ter sido testemunha ocular da história, poder contar às gerações seguintes como os fatos realmente se deram. Pode-se argumentar que será sempre uma interpretação pessoal dos eventos passados, mas os detalhes relatados poderão ser confrontados com as versões de outras testemunhas, investigados em jornais e documentos oficiais da época e comprovados, ou não, por quem se interessa em desvendar a verdade.

Que ninguém se engane: as forças policiais brasileiras são legitimas herdeiras dos capitães do mato, sempre à caça de ‘negros fujões’ e absolutamente alienados do fato de que são eles mesmos oriundos dos mesmos estratos sociais, a soldo da perpetuação da desigualdade social e do racismo estrutural. Truculência policial não é, portanto, nenhuma novidade entre nós, sempre foi assim e provavelmente continuará sendo. No entanto, a brutalidade policial desmedida escalonou bem mais durante a ditadura militar. Naquela época, é bom lembrar, militares eram oficialmente liberados para atirar contra supostos “subversivos” antes de perguntar qualquer coisa. O uso de força letal, agindo de surpresa e impedindo a reação da vítima, era desculpada como inquestionável “segurança nacional”.

Mas à medida que a repressão urbana passou a ser mais capilarizada, tornou-se necessário contar com o reforço das forças policiais locais. Para isso, oficiais do exército foram designados para treinar policiais militares, especialmente os integrantes dos batalhões da Rota. E, claro, foram transferidas a ela as mesmas prerrogativas de “excludente de ilicitude”. Tortura para obter confissões e delações e execuções sumárias acabaram se tornando práticas corriqueiras.

Mais ou menos na mesma época, por volta do final dos anos 70, um fato de grande repercussão nacional aconteceu em São Paulo: um garoto de 12 anos, em situação de rua, que havia roubado uma corrente de ouro de um comerciante da Praça da Sé foi perseguido e morto por um bando de lojistas. Na sequência, o corpo do garoto foi abandonado sobre um banco da praça. O então arcebispo metropolitano, Dom Paulo Evaristo Arns, inconformado com a desproporcionalidade da reação, resolveu organizar uma procissão, clamando por uma atitude mais cristã de respeito à dignidade de toda pessoa humana. A iniciativa acabou dando início ao que se convencionou chamar de Movimento dos Direitos Humanos.

Imediatamente, capitaneadas por apresentadores de bizarros programas policiais televisivos, milhares de vozes se fizeram ouvir no Brasil todo, associando maldosamente o movimento de Direitos Humanos à “defesa de bandidos”. Ficou famoso desde então o refrão de que a sociedade e a segurança pública deveriam se concentrar apenas na defesa dos “humanos direitos”.

Nunca ocorreu aos detratores de Dom Paulo que, por mais bárbaro que seja o criminoso, ele continua sendo um ser humano. Está aí uma verdade difícil de ser digerida até hoje. Se compreensível por um lado (psicologicamente é mesmo difícil admitir que sejamos capazes de atos irracionais de extrema perversidade), não há como esconder o lado execrável da ideia de que bandido bom é bandido morto: desqualificar a condição humana de adversários é pré-requisito para nos tornarmos tão ou mais insensíveis quanto o mais insensível dos criminosos.

Pouquíssimos brasileiros entendem que não é função das polícias julgar da culpa ou inocência de ninguém e, menos ainda, a de matar. Mesmo quando recebidos a tiros, ainda resta aos agentes policiais a opção de atirar na mão que segura o revólver ou nos pés do agressor para evitar uma fuga. Mas atirar preferencialmente em áreas vitais infelizmente continua sendo uma prática explicitamente valorizada por muitos comandantes militares, governadores e políticos em geral.

Um pouco de conhecimento de psicologia humana não faz mal a ninguém: quais sentimentos você acha que brotam no peito de parentes e amigos dos que foram mortos em operações no interior de comunidades pobres de periferia, sejam eles inocentes ou não: respeito, medo ou ódio da PM? A despeito dos inúmeros relatos de tiros pelas costas, inocentes desarmados atingidos, invasão de residências sem mandado judicial e descaracterização da cena de crimes, o ativista dos direitos dos humanos direitos e governador de SP não vê razão para se indignar com as macabras estatísticas das Operações Escudo e Verão. Afirmar que “não tem bandido na polícia” é muito mais do que simples profissão de fé, é projeto de poder.

Que ninguém se engane: Guilherme Derrite, seu atual secretário de segurança pública, foi alfabetizado na mesma cartilha de Netanyahu: para cada um dos nossos abatidos, ao menos dez dos deles deverão pagar com a própria vida. E eis-nos de volta aos tempos de Átila, o Huno e do primeiro código civil da história da humanidade: olho por olho, dente por dente.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.