Liberdades fundamentais

De Gaulle e a coletiva de imprensa de maio 1958

José Horta Manzano

Corria o mês de maio de 1958 e a França estava em crise política. O regime em vigor não se adequava aos novos tempos. O General De Gaulle, que permanecia no ostracismo desde o fim da Segunda Guerra, foi chamado para resolver a crise e conduzir o país a dias melhores.

Aureolado como um messias, ele pôs suas condições. Queria mudança de regime, nova Constituição e poderes reforçados para a Presidência. Enquanto o país se preparava para desempoeirar sua governança, o velho general convocou jornalistas para uma entrevista coletiva.

Vieram 500 jornalistas – quantidade maior do que a sala comportava. As credenciais para assistir a palestras de De Gaulle costumavam ser disputadas a tapa. Ágil no manejo da língua e rápido de raciocínio, o figurão fazia o espetáculo sozinho.

Lá pelas tantas, um jornalista perguntou:

Est-ce que vous garantiriez les libertés publiques fondamentales?

[Caso fosse eleito], o senhor garantiria as liberdades públicas fundamentais?

E De Gaulle, na lata:

Est-ce que j’ai jamais attenté aux libertés publiques fondamentales? Je les ai rétablies! Pourquoi voulez-vous qu’à 67 ans je commence une carrière de dictateur?

E eu por acaso algum dia entravei as liberdades públicas fundamentais? Fui eu que as restabeleci! Será que o senhor está imaginando que, aos 67 anos de idade, eu começaria uma carreira de ditador?

Gargalhadas gerais.

De fato, o general assumiu a Presidência, ficou 12 anos no cargo, se reelegeu pelo voto popular e respeitou a Constituição à risca. Nunca esbanjou dinheiro público. Um exemplo? Embora residisse no Palácio do Eliseu com a esposa, mandou instalar um relógio medidor de energia nos aposentos presidenciais para poder pagar do próprio bolso seu consumo de eletricidade. Ao deixar o poder, entregou uma França melhor do que havia recebido.

O Brasil costuma funcionar diferente. Agora mesmo, temos um presidente cuja maior preocupação não é a economia de dinheiro público.

Por coincidência, nosso experiente capitão também tem 67 anos. Só que, ao contrário do general, gostaria muito de iniciar uma carreira de ditador.

Sabemos que ditador não será. Mas que vai dar trabalho daqui até o fim do ano, ah, isso vai!

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