Chué

José Horta Manzano

Quero crer que a foto foi batida no interior de um dos palácios oficiais que a República destina ao presidente: Alvorada, Planalto ou Granja do Torto. Dá pra imaginar o momento que antecedeu a imagem congelada.

De repente, o capitão se levanta e ordena a um serviçal que, de pé, assistia ao jogo, pronto pra atender a um chamado.

“Ô amizade! Pega teu telefone aí e tira uma foto de mim aí! Péra, não, você fica ali, péra um pouco, é pra mim sair na frente da tela. Deixa eu espichar o dedo. Pronto, agora, pode tirar!”

O resultado é o que se vê acima. É raro ver tanto mau gosto reunido numa só imagem. É verdade que bom gosto não é exatamente o que se espera do personagem. Assim mesmo, a gente tem sempre um fiozinho de esperança – que se esfiapa a cada vez.

A tela
Sua Excelência, aproveitando-se da exposição que o cargo lhe dá, aponta para o logo de uma emissora de televisão amiga. Ao fazê-lo, faz propaganda da empresa. Pega muito, mas muito mal. Presidente da República, justamente pela visibilidade de que dispõe, não pode exercer o papel de garoto-propaganda de empresa nenhuma. É indigno do cargo, e injusto para com as emissoras concorrentes.

Se eu fosse responsável por uma dessas emissoras que não tiveram direito a receber a bênção presidencial, entrava com pedido de ressarcimento pelo fato de minha empresa não ter sido contemplada com tratamento igual. É questão de isonomia. Ou Sua Excelência faz propaganda de meu canal também, ou exijo compensação financeira. A Justiça não ia ter como negar. E serviria de lição ao presidente descarado.

Eu poderia fazer propaganda de quem bem entendesse, que o alcance de minhas palavras não iria muito longe. Quando são figuras públicas que se pronunciam, como o presidente da República, é diferente. Uma palavra dessa gente causa forte impacto. Vale como exemplo o gesto do jogador Ronaldo, que outro dia, numa entrevista coletiva, empurrou para o lado uma garrafa de Coca-Cola: 30 minutos depois, a marca havia perdido 4 bilhões de dólares de valor de mercado.

Qualquer dia destes, o capitão devia fazer-se fotografar em frente à tela na hora da novela. Queria ver qual é o logo que aparece no canto.

A camiseta
Pelo que entendi, a camiseta (ou camisola, como preferem nossos amigos lusos) que o presidente veste é o uniforme de um time de futebol de Santa Catarina. Uma cadeia de lojas patrocina o time, o que explica as letras de 20cm de altura. Neste caso, fica complicado falar em propaganda indevida, como no caso da emissora de tevê.

Mas não fica complicado falar do requinte de mau gosto do capitão. De fato, quem ostenta um barrigão daqueles deve abster-se de vestir camiseta justinha. Pior ainda se for de cor amarela. O homem engordou muitíssimo de um ano e meio pra cá. A boia do palácio deve ser superior ao que serviam na cantina da Câmara.

Os fios
Esta não tem muito a ver com o capitão, mas ele não deixa de ser cúmplice. Você reparou naqueles fios que saem do decodificador de tevê? Minha casa não é o Palácio da Alvorada, mas aqui os fios são mais comportadinhos. Aquela fiação pendurada que aparece na foto presidencial está mais pra gato montado pra sugar o sinal do vizinho otário que paga a assinatura.

Os objetos
Repare na coleção de objetos disparates captados pela câmera. Temos:

  • o decodificador (que ficava melhor se estivesse disfarçado dentro de um compartimento, com os fios camuflados dentro de uma canaleta ou de um conduíte);
  • um calendário (que lembra brinde de fim de ano da farmácia da esquina);
  • um objeto (que parece ser um agrupamento de cristal de rocha desses que a gente traz de lembrança de viagem);
  • um livrinho azul (que não deve ser a Constituição, pois o presidente guarda a dele religiosamente na mesinha de cabeceira, para consulta diária, como todos sabem);
  • um vaso azul.

Ah, vou contar um segredo, que talvez nem o capitão saiba. Vamos falar baixinho, que é pra ele não ouvir. Sabe o vaso de porcelana que aparece justamente entre a tela e o capitão? Vão me desculpar pela ousadia, mas é a peça de maior valor nessa imagem; vale mais que a tela e o dono da casa adicionados. Pelo alto valor, até destoa dos demais objetos expostos. Só que tem um senão: o vaso é… chinês!

Não deixem que o capitão fique sabendo, senão ele vai ter pesadelos à noite.

Chué
Faz tempo que não ouço o termo chué, que pus no título. Me pergunto se seu prazo de validade já não estaria vencido. É adjetivo e significa ordinário, à toa, reles, pífio, cafona.

É palavra de origem árabe, língua em que significa pouco, pequena quantidade. Entrou na nossa língua no tempo da ocupação da Península Ibérica pelos mouros. É interessante que tenha sobrevivido em português, mas não em espanhol nem em catalão.

Por outro caminho, o termo também chegou ao francês atual. A importação foi feita na época em que a Argélia, região onde se fala um dialeto árabe, era colônia francesa. Em francês, a palavra é usada ora como substantivo, ora como advérbio. Tem a forma chouya (pron: chuiá) e mantém o significado original de quantidade pequena, pouco.

3 pensamentos sobre “Chué

  1. Pingback: Os presentes de Bolsonaro – Brasil de Longe

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