Chuveiro europeu

Ruth Manus (*)

Cresci numa casa com chuveiro elétrico. Era assim: abria a porta de plástico, entrava, dava um chutinho no canto direito para fechá-la direito e abria a torneira. Uma única torneira preta. Quanto mais aberta ela estivesse, mais frio era o banho, quanto mais fechada, mais quente. No chuveiro em si, lá no alto, havia uma chave inverno-verão, na qual só meus pais podiam mexer.

Aos 13 anos, me mudei para uma casa com aquecedor a gás. Era um processo um pouquinho mais elaborado: uma torneira de água quente, outra de água fria. Abríamos a quente até que a água queimasse a ponta dos dedos, depois misturávamos com a fria, buscando a temperatura ideal.

Tudo estava bem na minha vida, no que tange a banho. Achava que já tinha aprendido tudo o que havia para aprender na matéria, numa vã esperança de esgotar um assunto ao longo da vida. Mas, na primeira vez em que embarquei para uma viagem no Velho Continente, tudo mudou.

Eu tenho consciência de que nós, brasileiros, herdamos o hábito do banho diário dos índios, não dos europeus. Isso me faz entender um pouco melhor a incompetência chuveiral que domina os membros, candidatos a membros e ex-membros da União Europeia.

Tudo começa com o chuveiro clássico, que marca presença inclusive na minha casa. Trata-se de um chuveirinho gigante, com aquele cano molenga prateado no qual podemos tropeçar a qualquer momento. A simples constatação de que se trata de um chuveirinho gigante – pouco maior que a superfície de uma lata de ervilhas –, já deveria ser suficiente para que o mundo compreendesse que ele não pode ser o chuveiro principal.

Mas ele é. Inventaram um raio de uma barra de metal que fica presa à parede, com um gancho para pendurar o chuveiro e uma regulagem de altura. Encaixa-se o aparelho no suporte e a água, ao invés de vir de cima (como os chuveiros tupiniquins ou como a própria chuva), vem de lado, direcionada para a nossa nuca, ou para a nossa cara, consoante o caso.

Frequentemente, o peso do chuveiro faz com que ele vá deslizando para baixo e, dali a um tempo, você percebe que o jato de água já está se aproximando da altura do seu cóccix. Outro problema que se apresenta é que o chuveirinho gigante também gosta de girar em torno do próprio eixo, o que faz com que você comece o banho no centro do box, mas termine grudado à parede, como uma lagartixa, em função da vida própria do chuveiro, que gira para onde quer.

O box é um outro problema. Há duas opções: a primeira é ter o chuveirinho voluntarioso, pendurado dentro de uma banheira, e você se sente como se estivesse sozinho no estádio do Maracanã, com todo aquele espaço vazio e você num cantinho. No inverno, é como se sentir tomando banho no meio do nada, com direito a vento e frio dentro da própria banheira. A segunda opção acontece quando os europeus são modernos e resolvem construir um box. O nome ideal seria jarra, no caso. Com medidas análogas às de uma caixa de sapato, tomar banho ali dentro é parecido com comer na mesa do avião, na poltrona do meio. Não há meio termo: Maracanã ou jarra. Nada de box em terras europeias.

Outro fato que merece destaque é o “meio vidro”. Um belo dia, alguém, muito sábio, decidiu trocar as cortinas de plástico por um vidro nas banheiras. Mas a pessoa que foi fazer o vidro resolveu ser brincalhona e fez meio vidro. Como assim meio vidro? Vai entrar frio, vai molhar tudo! E o brincalhão disse: “Tudo bem, vamos zoar a galera”. E assim foi. Instituiu-se o meio vidro em 80% dos banheiros europeus.

Finalizo com o ápice que conheci num hotel, neste fim de semana. Três torneiras na parede: uma define se a água sai no chuveiro ou na banheira, outra regula a temperatura, outra a intensidade. Não está escrito nada em nenhuma. Vá testando, jovem. Uma hora dá certo. Ou não.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Um pensamento sobre “Chuveiro europeu

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s