Um descuido

José Horta Manzano

Se as rosas falassem,
diriam poemas,
diriam besteiras
como todos os homens.

As rosas pequenas,
as rosas-botão
diriam palavras
ininteligíveis
como choro de criança.

Ao desabrochar,
falariam de amores,
mostrariam ao mundo
todas as cores
(reflexo dos favores
com que o mundo enfeita
o desabrochar).

Em sua plenitude,
falariam de esperança
como se a tivessem ainda.
Dariam conselhos
como se fossem ouvidas.

Ao tombar das primeiras pétalas,
falariam de dores,
lembrariam dos amores,
curtiriam os rancores
inconsequentes.

Já no fim da existência,
quando não restassem
mais que três pétalas,
diriam palavras
ininteligíveis
como choro de velho
que ninguém quer ouvir.
Até que calassem.

10.III.1982

 

2 pensamentos sobre “Um descuido

  1. Belo, mas, triste. Um descuido mesmo. Ainda bem que as rosas não falam e que não temos o mesmo tempo de duração das rosas. Mas, o tempo de ambos, rosas e homens, passa como se fosse mesmo um descuido. Seria bom se mais homens se assemelhassem às rosas.

    Não conhecia esse seu lado poeta. Talentoso com as palavras, qualquer que seja a moldura. Gostei!

    Curtido por 1 pessoa

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