Homônimos

José Horta Manzano

Logo nos primeiros anos do antigo ginásio ‒ que, pela contagem atual, deve corresponder ao 5° ou ao 6° ano de escola ‒ a gente aprendia que certos vocábulos eram homônimos. A homonimia englobava dois grupos de palavras: as homógrafas (de escrita igual mas pronúncia diferente) e as homófonas (de pronúncia idêntica apesar de serem escritas diferentemente).

No primeiro caso, o de palavras escritas igualzinho mas pronunciadas diferente, há o clássico exemplo de sábia, sabia, sabiá ‒ se desconsiderarmos o acento. Há também:

●  aperto (ê) x aperto (é),
●  gosto (gô) x gosto (gó),
●  sede (sê) x sede (sé).

E mais uma baciada.

No caso das que têm pronúncia idêntica apesar de não serem escritas da mesma maneira, temos o conhecido grupo sessão x cessão x seção. E também:

●  acento x assento
●  caçado x cassado (ambas na moda)
●  empoçar x empossar
●  esperto x experto.

E mais um caminhão.

Hoje ocorreu-me uma curiosidade linguística. Meus cultos leitores já hão de ter ouvido a expressão inglesa «soft sell», cuja tradução literal é ‘venda suave’. É usada em contraposição à venda forçada, aquela em que o sujeito toca a campainha, oferece um aspirador ou uma enciclopédia, recebe resposta negativa da dona de casa, e ainda põe o pé na porta para ganhar tempo de acrescentar alguns argumentos em favor do produto. A «soft sell» convence o comprador por vias mais sutis. Todo vendedor bem formado conhece a manha.

No Brasil atual, a Operação Lava a Jato produziu resultados espetaculares. Poucos anos atrás, de fato, ninguém imaginaria ver atrás das grades o dono da maior empreiteira do país, antigos deputados, senadores, ministros, governadores. É de deixar qualquer contribuinte honesto de alma lavada.

A Lava a Jato gerou também efeitos colaterais não previstos. Um deles é de ordem linguística. Sem nos dar conta, criamos uma expressão homônima de «soft sell». Trata-se de «soft cell», invenção tupiniquim, com a qual ingleses e americanos não estão familiarizados. Na trilha da ‘venda suave’ americana, concebemos nossa ‘cela suave’.

De fato, tirando alguma exceção que confirma a regra, os encarcerados passam pouco tempo no cárcere, na cela dura. Com o dinheiro granjeado durante o período de roubalheira, pagam batalhões de advogados e conseguem rapidamente o benefício da «soft cell». Falo da prisão domiciliar. Com tornozeleira eletrônica, naturalmente, que é pra não ficar muito feio diante da opinião pública.

Parece que, devido à intensa procura, a polícia encontra problemas de abastecimento de tornozeleiras. É tanta gente em «soft cell» que os estoques não estão dando conta. Se eu tivesse trinta anos a menos, pensaria seriamente em me lançar no ramo de fabricação de tornozeleiras. Com financiamento do BNDES. Of course.

Nota 1
O termo ancestral cela se encontra já no antiquíssimo sânscrito. A raiz se espalhou pelos falares indo-europeus e sobrevive em línguas eslavas, em grego, em línguas germânicas e latinas. Transmite geralmente um sentido de espaço confinado, cômodo pequeno, jaula, lugar onde se guarda ou se esconde algo. O alemão moderno Keller, o inglês cellar (adega, porão) assim como o francês cellier (despensa) são da mesma família. Nosso celeiro faz parte da turma.

Nota 2
Como diz o outro, a solene cerimônia de passagem da faixa presidencial periga transformar-se em mera passagem de tornozeleira.

 

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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