Bilionários perdidos

José Horta Manzano

Com a voz trêmula de pesar, a mídia nacional anunciou ontem que, em um ano, o Brasil perdeu 23 bilionários. Meu Deus, que tristeza! Fiquei decepcionado e senti muita pena. A contabilidade é da revista Forbes.

É surpreendente constatar a que ponto a riqueza desperta curiosidade e interesse. Desde 1929, faz sucesso uma revista chamada Fortune que, como indica o nome, dirige holofotes para milionários. Em compensação, não se tem notícia da existência de nenhuma publicação chamada Misery. É compreensível. Fosse lançada, não passaria do primeiro número. No fundo, miséria não interessa a ninguém.

Banco 5Voltando ao problema dos bilionários «perdidos», é interessante observar como, sem se dar conta, a imprensa considera esses personagens como parte integrante do patrimônio nacional. Dizer que «o Brasil perdeu», francamente, é patético. Como até porta blindada de banco suíço sabe, dinheiro não tem cheiro nem pátria. O Brasil não ganhou nem perdeu nada, ora essa.

Jorge Paulo Lemann & esposa

Jorge Paulo Lemann & esposa

A maior fortuna
Segundo a revista americana, senhor Jorge Paulo Lemann aparece na 19ª posição. Nossa mídia anuncia, com indisfarçável orgulho, que ele é o brasileiro mais rico. Ainda que não se possa ter certeza, vamos dar de barato que seja realmente o mais abonado.

O que nossa mídia desconhece é que esse senhor, que se mudou definitivamente para a Suíça há dezessete anos, já nasceu com dupla cidadania. Filho de imigrante suíço, nasceu brasileiro pela lei do solo e suíço pela lei do sangue. Como se pode imaginar, a mídia suíça o inclui entre os ricaços do país. Na lista helvética, ocupa o terceiro lugar.

Fortunas ocultas
Conforme se vão desdobrando os capítulos da Operação Lava a Jato, bilionários desconhecidos vão sendo revelados. Já apareceu auxiliar do vice do sub devolvendo centenas de milhões pra salvar a pele. A gente fica aqui a cismar quantos mais haverá e… quantos bilhões possuirão.

Banco 2Fica a desagradável impressão de que a lista da Forbes mostra apenas pequena fração dos brasileiros afortunados, só a ponta do iceberg. Muitos outros deve haver. E hão de estar fazendo novena pra que ninguém descubra.

O recado está dado

José Horta Manzano

Antes de tomar uma ação incisiva, daquelas que não deixam possibilidade de retorno, a gente costuma soltar um balão de ensaio. É como na hora de atravessar um riacho ‒ a gente pisa cada pedra com cuidado, até encontrar o caminho seguro, o caminho das pedras.

Nas recentes eleições gerais, o povo venezuelano deixou clara sua preferência. De cada três eleitores, dois deram seu voto a candidato antichavista. Isso foi algumas semanas atrás. Se votassem de novo hoje, vista a vertiginosa degradação da economia, era bem capaz de a derrota do regime ser mais acachapante.

Congresso venezuelano, Caracas

Congresso venezuelano, Caracas

Apesar dos esperneios e das firulas de señor Maduro e seus áulicos, a nova maioria sente-se cada dia mais forte. Sabe que tem respaldo popular. O regime bolivariano está com os dias contados. Fruta podre não se aguenta muito tempo no galho ‒ mais dia, menos dia, acaba no chão.

A nova assembleia de Caracas ‒ que não convém mais chamar de oposição, tão alentado é o número de deputados ‒ tem como objetivo encerrar os considerandos e partir para os finalmentes.

Antes de agir, estão consultando, como se deve. Não há que temer desagradar ao governo de países adiantados. Europa e EUA verão com bons olhos a saída de cena dos compañeros bolivarianos. Quanto aos vizinhos, não se imagina que Colômbia, Peru, Chile ou Argentina se incomodem com o afastamento de Maduro & companhia.

Mas… ai, ai, ai… falta o Brasil. Maior economia da região e apoiador desabrido do populismo instaurado por Chávez, o Planalto pode se vexar. Risco de guerra atômica não há, mas o bom senso recomenda concórdia e paz entre vizinhos. Como reagirá Brasília a uma reviravolta em Caracas?

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Na minha opinião, dona Dilma e todos os que a cercam estão mais é preocupados em esquivar acusações e afastar o risco de ser levados algemados. Os deputados antichavistas sabem disso, mas, assim mesmo, decidiram lançar um balão de ensaio.

Comunicaram oficialmente ao Executivo e ao Legislativo brasileiros a decisão de “pôr fim proximamente” ao governo de Nicolás Maduro. É o jornal uruguaio El Pais que dá a notícia. Caso nenhuma reação venha do Planalto nos próximos dias, o silêncio será considerado como sinal verde.

Ficamos aqui na torcida organizada.