José Horta Manzano
Faz muito tempo que não me sento em bancos escolares, daí estar desatualizado. Não sei se ainda se controla a presença dos alunos ou se já liberou geral. No meu tempo, tinha disso não.
Bastava o professor apontar na soleira da porta para todos se levantarem reverentemente, tudo isso no mais absoluto silêncio. A turma só voltava a sentar-se depois de autorizada pelo mestre todo-poderoso.
Em seguida, vinha a chamada. Talvez pra evitar a interminável ladainha de Josés e Marias – os nomes mais comuns à época –, éramos numerados. Ficava mais simples. Lembro-me de um professor, já idoso e de voz fanhosa, que nos divertia muito. Sua chamada ia assim: «Números óón, dóóis, tréés…»
Ausências eram registradas pelo mestre e, em seguida, anotadas na caderneta escolar do discípulo. O livrinho tinha de ser assinado todo mês pelo pai do aluno. Não sei como funciona hoje, mas, faz meio século, pais costumavam ser severos. Ninguém queria levar puxão de orelha por causa de faltas anotadas no boletim. O medo de levar pito calmava toda tentação de cabular.
Fala-se estes dias sobre controle de presença de servidores da Câmara Federal. Como sabemos, os funcionários lotados debaixo daquelas curiosas cúpulas imaginadas por Niemeyer são milhares. Até hoje, o controle era assegurado por uma simples folha de papel. Os apetrechos de ponto biométrico, adquiridos em 2009, foram finalmente postos a funcionar esta semana.
Foi um deus nos acuda. Logo no primeiro dia, filas se formaram na hora de entrada. Tanta gente compareceu, que faltou acomodação para todos. Mesas e cadeiras não foram suficientes. O congestionamento atingiu até o restaurante do pessoal.
A conclusão é evidente: das duas uma. A primeira hipótese é de que a Câmara não esteja apta a receber tantos funcionários. Como nem todos eram assíduos, ninguém se havia ainda dado conta. Se assim for, é urgente encomendar mesas e cadeiras, construir mais algumas cúpulas e – por que não? – instalar um puxadinho ao lado do restaurante.
A segunda hipótese é de que, inflado, o quadro de funcionários da Câmara ultrapasse amplamente o necessário. Boa metade talvez possa ser dispensada sem prejuízo para o serviço. Tendo a privilegiar esta segunda possibilidade.
Fico aqui a matutar. Entre esses que vivem no bem-bom à custa do dinheiro do contribuinte, deve haver muitos que se escandalizam com o comportamento de gente graúda que assalta os cofres de empresa pública. Pensando bem, os dois atos são de mesma natureza – a diferença é unicamente de escala. Ou não?
Há alguns dias, vi uma matéria de alunos que fizeram “motim”, destruíram os equipamentos, portas, janelas, arrasaram a escola… o motivo? Queriam sair mais cedo que horário previsto para o fim da aula. Pelo que vi, não sei se o link que compartilho aqui, relata, mas, a revolta é contra a nova diretora, que revolveu controlar a saída dos alunos, que, estavam acostumados à indisciplina.
Me chocou saber o que aconteceu. Mas, não pense que é um caso isolado. Não, hoje em dia, as escolas públicas brasileiras são esculhambadas pelos alunos ao exigirem uniformes, horários, disciplina, restrição de aparelhos eletrônicos etc. Vejo isso como um reflexo desse governo pulha que patrocina, por exemplo, um tal MC Guimê. Em respeito ao seu blog que é de muito bom gosto não vou substituir Guimê pelo palavrão que caberia muito bem e até peço desculpas por citar um ser que produz uma “cultura” tão questionável. Arte? Cultura? Educação? Disciplina?
Só falta motim na Câmara também. E, pelos relatos, falta pouco.
Estamos na era do Oba Oba, da inversão de valores, num sistema muito bem elaborado que cultiva sementes podres. Tais sementes, ocuparão os cargos que, por exemplo, hoje, na Câmara, já estão acostumados à indisciplina mascarada de liberdade.
Penso também assim: Que se dispense o que não é necessário. No caso das escolas, deixem quem quer, estudar, pra que não sejam fadadas as boas sementes que mesmo com tantos venenos, ainda podem vingar.
Um grande abraço.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/04/29/interna_cidadesdf,481382/video-alunos-de-valparaiso-destroem-escola-em-protesto-contra-a-direc.shtml
http://vejasp.abril.com.br/materia/mc-guime-gravacao-dvd-lei-rouanet/
P.S. Na minha época de escola, escola pública, até a indisciplina de alguns era um momento de descontração saudável. Rir do Maximiliano que, teve que trazer sua mãe à escola para resgatar seu tênis. Sim, ao pular o muro, a Inspetora, Dona Terezinha, agarrou-se a seu tênis. Ele foi e o tênis ficou.
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