Myrthes Suplicy Vieira (*)
A minha relação pessoal com a tecnologia sempre foi difícil e delicada. Para mim, ela atua conceitualmente como uma espécie de crack: tem um poder altamente viciante – ou aditivo, como prefere a linguagem médica contemporânea – desde as primeiras experiências de uso e também provoca significativas crises de abstinência quando o acesso a ela é cortado por alguma razão. Talvez por esses motivos ela encontre em mim forte resistência.
Mesmo sem conhecer muita coisa sobre neurologia, posso apostar que ela estimula nosso cérebro a liberar substâncias aparentadas com a endorfina – ou adrenalina – induzindo-nos a recorrer à nossa capacidade de autossuperação.
Outra característica que me incomoda sobremaneira na tecnologia é seu caráter impositivo. Certa vez me deparei com um artigo no qual o autor estabelecia uma analogia entre os computadores e o Deus cristão do Velho Testamento: autoritário, irascível, ancorado em decálogos e perseguidor cruel de todo aquele que ouse não observar estritamente seus comandos. É mais ou menos o que sinto neste momento, tentando dominar a linguagem mais complexa de meu novo computador. Eu, que já estava gostosamente curtindo minha zona de conforto, sou agora agressivamente forçada a mudar, evoluir.
Tudo o que eu queria com essa nova geringonça era não ter de enfrentar mais problemas com navegadores velhos, poder abrir arquivos embalados na roupagem .docx e ganhar mais agilidade para compor meus textos. O que ganhei foi humilhação, depressão, perda de autoestima. Envergonhada com minhas limitações intelectuais para lidar com a nova máquina, pedi ajuda a um sobrinho mais afeito à informática. Ele trouxe com ele a filha de apenas 7 anos de idade que, num segundo, assumiu o controle do mouse e me mostrou todas as opções de que eu dispunha para resolver meus problemas. Me dei conta, naquele instante, de que a informática é a arma das novas gerações para se vingar de seus ancestrais. Non ducor, duco.
Não foi a primeira vez que a tecnologia me deu um baile. Foi assim também com o microondas (que não tenho até hoje), com o refrigerador frost free e com o celular. Quando finalmente cedo à tentação de incorporar ao meu cotidiano um desses novos gadgets, encontro sempre mil motivos para criticar o sistema operacional e fico resmungando pelos cantos que antes tudo era melhor, mais fácil.
Não tenho disposição para penetrar nos labirintos idiomáticos dos manuais de instruções, não consigo decodificar a terminologia e não consigo me deixar levar pelo prazer da exploração e da descoberta. Como um burro empacado, limito-me a desligar o aparelho e acionar um técnico especializado, pedindo-lhe que traduza a solução buscada para uma linguagem que uma criança de 2 anos possa entender. Somente quando, depois de muitas tentativas e erros, começo a vislumbrar uma luz no final do túnel, encontro dentro de mim a força necessária para desbravar novos territórios. E aí já é hora de adquirir um novo modelo e recomeçar as batalhas inglórias do zero.
Lembro, estarrecida, de experiências mais antigas, da época da minha adolescência e início da vida adulta. O horrível constrangimento que experimentei com a primeira porta automática num aeroporto internacional, quando estendi o braço e me inclinei para a frente na tentativa de empurrá-la e fui de cara ao chão, com malas e bagagens. O pasmo com a ociosidade de todo o departamento contábil da empresa multinacional na qual trabalhava simplesmente porque a luz acabou subitamente. O assombro sem fim com a notícia de que um avião havia caído na floresta amazônica apenas porque o piloto digitara o código errado no computador de bordo e ignorara os alertas de um dos passageiros, nativo da região e mateiro por profissão, voando em círculos por horas até acabar o combustível.
Não faltam exemplos acabrunhantes da dependência irracional que as máquinas provocam, mas dou-me por satisfeita com estes. Dou por demonstrado que a tecnologia emburrece, fazendo-nos desacreditar da eficácia de nossos recursos instintivos de sobrevivência.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
Como a autora, também abomino a tecnologia; para mim, nem micro ondas, nem sequer celular!
Abraços, wilma.
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Já não abomino a tecnologia. Algumas vezes acho graça outras acho útil. Não consigo imaginar a vida hoje sem as tecnologias criadas. Mas, as pessoas desavisadas, as frágeis, as sem conteúdo, as carentes ao extremo, costumam se autoafirmar através das tecnologias, e, imagino que o retorno de tamanha idiotice seja mesmo a sensação que as drogas podem oferecer: Passageira, pouco satisfatória, ilusória, fútil.
Nunca tive dificuldade em aprender novas tecnologias. Mas, isso não me faz melhor ou pior do que quem não consegue de forma alguma sequer ligar o computador (e conheço muitas pessoas que não conseguem).
O novo sempre vem. Na transição, alguns tem dificuldades, resistências. Mas, esse novo a que nos referimos agora, é uma potente ferramenta de comunicação, de conhecimento e um claro facilitador de tantas coisas. E, como tudo na vida, tem seu lado negativo e seus riscos. E, assim como tem pessoas que não conseguem ligar o computador, outras, realmente não o querem. Tenho certeza que essas pessoas são dotadas de muita capacidade e criatividade para suprir a “falta” da tecnologia em suas vidas, não é mesmo?
O prazer da exploração e da descoberta também pode ser obtido através da telinha de um computador. Não só através da telinha, mas, é mais uma opção. Por que não?
Ontem em uma livraria (de verdade, não é site de e-book), passei vergonha com uma lixeira de aço inox. Não conseguia achar meio de colocar o lixo dentro dela. Dois segundos de auto-superação…
E essa livraria, de verdade, estava cheia de jovenzinhos e senhores, cultos. Alguns liam livros de verdade enquanto acessavam a internet e/ou ouviam músicas através de seus smartphones . Naquele momento, eu só procurava um livro mesmo.
Essa é a graça do mundo e das pessoas: nunca pronto, nunca acabado. Sempre em transformação, sempre em movimento.
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