O melhor da Copa

José Horta Manzano

Cada um enxerga a Copa com seus próprios olhos. Para um jogador de futebol em começo de carreira, pode ser a vitrine que o vai propulsar ao estrelato mundial. Para um técnico profissional, pode significar a abertura de interessantes oportunidades. Para autoridades nacionais, pode servir de trampolim para angariar simpatia e votos. Para empresários corruptos, é o momento de contar e recontar a fortuna amealhada nas costas dos bobões habituais.

Para indiferentes ― que os há, acredite! ― é hora de tirar uns dias de férias e desaparecer do mundo dos mortais. Para torcedores, é um momento de emoção, de alegrias, de tristezas. E no final ― quem sabe? ― pode até chegar a hora de gozar a alegria suprema de ver a esquadra nacional subir ao degrau mais alto do pódio. A todos, é permitido sonhar.

Como não sou jogador, nem selecionador, nem autoridade, nem empresário corrupto, não lanço à Copa olhar profissional. Aprecio o esporte em si. Gosto muito daquele balé colorido e imprevisível em que a partitura é inventada e reinventada a cada instante.

Um dos atrativos maiores do futebol é justamente essa incerteza quanto ao resultado. Em outros esportes, o melhor costuma vencer. É raro que, em atletismo, o mais rápido ou o mais ágil deixe de levar a medalha. No futebol, não é assim. Já vi a Itália perder para a Coreia do Norte. Aconteceu na Copa de 1966. O resultado deixou trauma que, passado meio século, ainda não se dissipou.

Há momentos mágicos em que um jogador manda a bola por cima de meia dúzia de adversários para aterrissar aos pés de um companheiro que, por sua vez, dá sequência à coreografia. Sejam quais forem os times em campo, o espetáculo é sempre bonito. Se houver emoção, melhor ainda.

Homem com a mão no coração (detalhe) by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Homem com a mão no coração (detalhe)
by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Mas há um momento, nesses jogos internacionais, que ― para mim ― paira acima de todos: é a hora do hino. O nosso é fabuloso. Se hino bonito ganhasse Copa, o nosso teria mais estrelas que a Marselhesa. O nosso é de escutar em pé, mão do coração, nó na garganta.

Recortei e guardo até hoje um artigo que o jornal londrino Guardian publicou doze anos atrás, por ocasião da Copa de 2002. O autor faz esfuziantes elogios ao hino brasileiro dizendo que é o mais gentil, o mais alegre, o mais melodioso, o mais envolvente. Parece escapado de uma ópera de Rossini. Chega a dizer que nosso hino é um dos grandes presentes que o Brasil deu à felicidade humana. É mole?

Parece que a Fifa impõe que a execução do hino de cada país não exceda um minuto e meio. Muitos cabem nessa exigência. O nosso, não. O resultado é que nosso cântico nacional costuma ser truncado, sustado na metade, deixando os jogadores com cara de bobos e o público com um gosto de quero mais.

Hino BrasilEntendo que regra é regra. Leis não são feitas para serem discutidas, mas para serem cumpridas. Mas, convenhamos, nossos (sempre) distraídos congressistas, aqueles que assinaram sem ler a Lei Geral da Copa, deviam ter pensado nesse detalhe.

Posso até entender que se desviem alguns bilhões do dinheiro brasileiro para construir estádios monumentais, mas tenho dificuldade em aceitar que um de nossos símbolos nacionais mais fortes seja desfigurado diante de bilhões de terráqueos.

Os bilhões de dólares, com «arenas» ou sem elas, com «Copa das copas» ou sem ela, seriam desviados de qualquer maneira. Mas truncar o hino, ah, está aí um crime facilmente evitável.

No momento em que escrevo, faltam ainda algumas horas para a abertura do campeonato. Quem sabe uma luz terá baixado nos organizadores? Quem sabe nos deliciaremos com a execução integral da primeira parte do hino?

O futebol é esporte que sempre reserva alguma surpresa. Vamos torcer. Esperemos que seja executado sete vezes. Por inteiro.

4 pensamentos sobre “O melhor da Copa

  1. Não pelo patriotismo, mas, toda vez que ouço o hino nacional brasileiro, percebo o quanto ele é extasiante. Uma obra prima! Não gosto nada de futebol. Mas, achei interessante a tua colocação sobre os “momentos mágicos” do “balé colorido”, uma descrição poética que acredito sim, fácil de ser sentida a quem acompanha o referido esporte.
    Tirando o colorido balé, eu diria que para a platéia pode parecer imprevisível o balé e o resultado, mas, nem sempre o resultado é imprevisível nos bastidores, quando até isso resolvem corromper…
    Como cada um é cada um, eu prefiro assistir patinação no gêlo.
    Emendando em tuas palavras: Não sou jogadora, nem selecionadora, nem autoridade, nem empresária corrupta, não lanço à Copa olhar profissional. – Nem aprecio o esporte em si. – Mas, vou seguir a tua expectativa de ouvir a primeira parte, inteira, do hino nacional. Esse, merece 100% de minha apreciação.
    Um grande abraço José Manzano.
    #masnaoiatercopa rs

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    • Vamos torcer para ouvi-lo inteiro, Michèle.

      Até abro mão do «deitado eternamente em berço esplêndido» e do «Brasil de amor eterno seja símbolo». Mas faço questão do «virudu» e do «Brasil, um sonho intenso, um raio vívido». Espero que não ousem truncar e parar no «salve, salve». Saravá!

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  2. HIno não é para se escutar com mão no coração. Isso é copiar o que americanos fazem.
    Hino Nacional Brasileiro é para ser ouvido / cantado com cabeça descoberta (sem bonés, gorros, etc., a manos que seja um militar), em pé, com os braços ao lado do tronco. E sem aplausos no final, que não é pagode, nem axé, nem funk.
    E bandeira não é para servir de toalha de mesa, nem roupa de “mulher da profissão mais antiga do mundo”.

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