Xô, urubu!

José Horta Manzano

Os franceses estão deslumbrados diante da possibilidade, cada dia mais real, de se tornarem campeões do mundo de futebol pela segunda vez. Mas não estão nada tranquilos.

Semana passada, tinham quase certeza de que, se chegassem à final, iam encontrar a Inglaterra, uma seleção que lhes parecia fácil de encarar. No entanto, deu Croácia, um time aguerrido. Estão engolindo em seco.

Pra complicar, a figura aziaga de Mister Mick Jagger, componente dos Rolling Stones, está ameaçando surgir no horizonte. Pé frio mundialmente reconhecido, o homem é um perigo!

A carreira de azarento de Mister Jagger é pontilhada de insucessos. Dos jovens anos do cantor, pouco se sabe. Certo é que, a partir da Copa do Mundo de 2010, ele nunca desmentiu a fama de beijo frio.

Nas oitavas de final daquele ano, torceu pra Inglaterra ‒ seu país ‒, que deu vexame ao perder de 4 a 1 para a Alemanha e ter de voltar pra casa. Dias depois, a convite da federação americana, assistiu ao encontro EUA x Gana, que terminou com a vitória do país africano por 2 a 1. Nas quartas de final, é enrolado numa bandeira brasileira que testemunhou a eliminação do Brasil diante da Holanda (1 x 2).

Em 2014, a aventura continuou. O homem tranquilizou os italianos ao prever que a Itália passaria tranquilamente às oitavas de final ‒ o país foi eliminado na fase de grupos. Avisou aos portugueses que levantariam a taça ‒ foram eliminados pela Espanha igualmente na fase de grupos. Mais enervante ainda foi a “força” que deu ao torcer pela Seleção no Mineirão naquele terrível 7 x 1.

Nesta Copa da Rússia, o cantor foi visto torcendo por sua Inglaterra quando ela foi derrotada pela Bélgica e perdeu toda esperança de ser campeã do mundo. Visto que ele continua deambulando pela Rússia, jornalistas franceses quiseram saber o que ele acha da final de domingo próximo. Quem vai ganhar? A resposta: «Acho que vai ser a França, mas ainda não tenho certeza».

De dedos cruzados, os franceses andam espalhando sal pela casa. Só não rezam novena porque não dá tempo. Te esconjuro!

No cabeça

José Horta Manzano

Monsieur Jules Ernest Séraphin Valentin Rimet (1873-1956), cartola de alto coturno, foi presidente da Fifa durante 33 anos. Começou em 1920 e permaneceu enquanto a saúde ajudou. Inspirado pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, teve a ideia de organizar um campeonato mundial unicamente para o futebol, separado dos demais esportes.

A ideia foi posta em prática pela primeira vez em 1930. O Uruguai foi designado como sede. Os europeus demonstraram flagrante desdém pela distante e atrasada América do Sul ‒ apenas quatro países se dignaram de mandar a seleção enfrentar a longa viagem: França, Romênia, Iugoslávia e Bélgica. Ressalte-se que o pequeno país sul-americano só foi escolhido porque seu governo se dispôs a custear todas as despesas das equipes participantes, transporte inclusive.

O troféu, que o presidente da Fifa carregou na bagagem pessoal, tinha sido confeccionado na Europa. Era uma peça de ourivesaria em puro estilo art-déco ‒ uma espécie de taça montada sobre um pedestal e sustentada por uma figura alada. Apropriadamente, foi chamada Coupe Jules Rimet, numa homenagem pouco modesta ao cartola.

Coupe Jules Rimet

Em francês, a palavra coupe traduz nossa taça. Em razão da forma do troféu, o campeonato foi aqui chamado, nos primeiros anos, de Taça do Mundo. A vitória brasileira de 1958 deu origem a várias marchas triunfais, a mais conhecida das quais dizia «A Taça do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa».

De lá pra cá, distraídos, deixamo-nos contaminar pelo estrangeirismo, decerto visto como mais chique. A taça virou copa, que, aliás, é como os espanhóis chamam o objeto. De qualquer maneira, o troféu já não tem mais forma de taça. Ficam elas por elas, que nem taça nem copa correspondem ao desenho do troféu atual.

O termo copa vem do latim cupa (também cuppa), que é como os romanos chamavam a taça. Descende de antigo radical kup/kap, que tem sentido de encurvar, arquear. A família conta com muitos parentes: copo, cubo, cúpula, cúbito e seus derivados. Desconfia-se que até o alemão Kopf (cabeça) seja parente desgarrado. De fato, a forma arredondada da cabeça bate com o sentido de encurvar.

Falando em Kopf, muitos especialistas predizem que a partida final da Copa será entre Brasil e Alemanha. Naturalmente, com Brrrasil no cabeça ‒ perdão ‒ Brasil na cabeça!