Veteranos de 1944

José Horta Manzano

Oitenta anos atrás – só os que já viveram muito podem se lembrar – agricultores franceses e raros soldados alemães presenciaram, com enorme espanto, o grande desembarque de tropas aliadas vindas do outro lado do mar para libertar a França ocupada por tropas nazistas. Eram ingleses, franceses, escoceses, poloneses, canadenses, australianos, mas principalmente um contingente de 73 mil americanos.

Tinham se concentrado durante meses do outro lado do Canal da Mancha, no sul da Inglaterra, à espera do momento favorável tanto na estratégia militar quanto na meteorologia. O clima daquela região é caprichoso, cambiante, instável, o mau tempo pode vir a qualquer momento. Naqueles tempos em que as previsões não contavam com apoio de satélites nem de meios modernos, era ainda pior.

Assim mesmo, a ordem de embarque veio dia 6 de junho de 1944, dada pelo general Eisenhower, que seria eleito presidente dos EUA 8 anos mais tarde. A travessia da Mancha se fez num mar tempestuoso. Os poucos soldados alemães postados na França, de frente para o mar, defenderam suas posições com determinação. O resultado foi um número elevado de baixas entre os que desembarcavam.

Não vamos aqui fazer um relato sobre a Segunda Guerra Mundial, que você pode encontrar melhor e mais completo na Wikipedia. Só queria acrescentar que, embora o desembarque tenha sido bem sucedido, os aliados não chegaram a Berlim no dia seguinte. Até que o último canhão se calasse, foi ainda preciso batalhar por quase um ano, com tudo o que isso acarreta de sofrimento e perdas humanas.

O mundo – nós incluídos – deve muito àqueles soldados americanos que atravessaram o oceano para arriscar sua jovem vida na Europa, numa guerra que nem era a deles. Se não tivessem ido, de duas uma: caso a Alemanha de Hitler tivessem vencido, falaríamos hoje alemão e estenderíamos o braço para a saudação nazista; se fossem os russos a derrotar a Alemanha, falaríamos hoje russo e nosso país faria parte dos satélites de Moscou. E estaríamos obedecendo a Vladímir Putin ou a outro ditador de turno.

O soldado Jake Larson em 1944 e hoje, com 101 anos.

Para comemorar este 80° aniversário do desembarque de junho de 1944, sessenta americanos sobreviventes foram convidados a fazer de novo a viagem até a França e lá passar uma semana. Dos 73 mil soldados de oitenta anos atrás, já não restam muitos. Dos que agora foram convidados, o mais ‘mocinho’ tem 96 e o mais velho, 107 anos. Estão todos muito orgulhosos e um pouco espantados de ainda estarem vivos passados tantos anos.

Quando foram lutar contra Hitler, desembarcaram com fuzil no ombro. Hoje, quase todos em cadeira de rodas, a imagem é menos guerreira mas certamente mais emocionante.

Daqui ninguém me tira

José Horta Manzano

A Rússia é o maior país do planeta. Sua superfície equivale a dois Brasis. Com tanto espaço para população relativamente pequena ― de uns 140 milhões de habitantes ― convém perguntar por que razão se batem pela Crimeia.

Por que fazem tanta questão de conservar um território exíguo, do tamanho do pequenino Estado das Alagoas? Seriam os russos gananciosos a ponto de tomarem à força um pedaço de terra estrangeira, assim, sem mais nem menos, pelo prazer de aumentar seu próprio território? Que diferença faz acrescentar 27 mil km2 a um país que já dispõe de 17 milhões de km2? A Crimeia, afinal, não tem petróleo, nem ouro, nem urânio.

O buraco é mais profundo. Por grande que seja, a Rússia tem um problema antigo de difícil solução: seu imenso território é encravado, a porta de saída é estreita. Com exceção de alguns trechos, suas costas estão expostas a mares frios, daqueles que congelam no inverno e dificultam ou impedem a navegação.

Faz séculos que o governo russo tenta por todas as maneiras estender suas costas a águas mais clementes. Cada quilômetro de beira-mar livre de gelo agregada ao território representa uma vitória.

O avanço em direção ao sul é o objetivo maior do Estado russo. Em todas as guerras que o país travou, o butim mais significativo foi sempre a conquista de mais uma franja de costa. Foi o que aconteceu ao final da Guerra Russo-Finlandesa e da Segunda Guerra Mundial. Cada uma delas aumentou a exposição do país a mares temperados.

Rússia e península da Crimeia

Rússia e península da Crimeia

Pois a Crimeia entra nessa linha. Banhada pelo Mar Negro, situada a uma latitude de 45 graus, tem suas costas livres de gelo o ano inteiro. Do ponto de vista estratégico, é uma das joias da coroa. Para Moscou, aquela peninsulazinha vale ouro.

De qualquer maneira, era território russo até 1954, quando foi atribuída à Ucrânia por decisão burocrática tomada em Moscou. Na época, como a Rússia e a Ucrânia faziam parte da União Soviética, essa redefinição de fronteiras internas não trazia consequência. Hoje não é mais assim. Mas frise-se que a população daquele território ainda é majoritariamente de origem e de língua russa.

Os EUA e a UE podem reclamar, ameaçar, espernear ― não vai adiantar. Exagerando nas tintas, eu diria que é mais fácil os russos entregarem um pedaço da Sibéria que a Crimeia. Os estrategistas do mundo inteiro sabem disso. O que se vê estes dias não passa de jogo de cena. A Rússia lá está e lá continuará «duela a quién duela». (*)

Interligne 23

(*) Nota em atenção aos mais jovens
Em 1992, quando de uma entrevista à televisão argentina, Collor de Mello ― então presidente do Brasil ― soltou uma joia de puro portuñol. Querendo afirmar que todos os corruptos seriam desmascarados e punidos, traduziu ao pé da letra nossa expressão “doa a quem doer”. Ficou incompreensível para ouvidos castelhanos. Foi um desastre.