Quem não gosta de samba

José Horta Manzano

No quesito harmonia, o Bando da Lua foi pioneiro entre os conjuntos vocais brasileiros. Constituído já na primeira metade dos anos 1930, foi na virada para a década seguinte que, na trilha do triunfo internacional de Carmen Miranda, subiu à notoriedade. É que, convidados a acompanhar a ‘Pequena Notável’ na nova carreira, os rapazes permaneceram anos nos EUA, onde trabalharam em espetáculos e em quase dez filmes ao lado da estrela.

Entre outros sucessos, gravaram em 1940 Samba da minha terra, composição de um então pouco conhecido Dorival Caymmi, jovem de 26 anos. Nem Caymmi nem o Bando da Lua poderiam imaginar que, 80 anos mais tarde, gravado e regravado por uma coleção de artistas, o samba ainda estaria no ouvido de todos.

Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé

Quem é que não conhece?

O estribilho vale como metáfora permanente. Me lembrei dele hoje de manhã. É que, ao abrir o jornal, me dou conta de que, nas altas esferas da República, o desfile de insanidades continua.

O doutor que nos governa acaba de contratar seu quarto ministro da Saúde. É o homem que, no papel, deve cuidar da saúde dos brasileiros e conduzir o país a bom porto nesta pandemia. No papel, disse eu. Vamos ver se, na prática, a teoria é a mesma. É permitido ficar com um pé atrás.

A esta altura do campeonato, em que a forte perturbação que acomete a mente do presidente é conhecida de todos, o que é que levaria essa gente fina a aceitar um posto no governo do capitão?

  • A atração do vil metal
    tipo ‘agora vou abrir conta na Suíça’?
  • A vaidade irresistível
    tipo ‘vejam até onde cheguei’?
  • Um irrefreável masoquismo
    tipo ‘adoro ser humilhado em público’?
  • A necessidade de fugir da justiça
    tipo ‘devo, não nego, mas se me cobrarem, tenho foro privilegiado’?
  • Convicção sincera de que o presidente está com a razão
    tipo ‘ele é meu ídolo, portanto está sempre certo’?
  • A ingenuidade absoluta
    tipo ‘dãããã’?

Alguma razão haverá. O mistério parece insondável. No entanto, a solução é às vezes tão evidente, que ninguém vê. A resposta, de tão simples, parece estar na cara. Não precisa buscar nos escritos de Freud. Basta reler a metáfora de Caymmi e adaptá-la ao nosso tempo. Assim.

Quem aceita convite de Bolsonaro
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé.

É carnaval

Myrthes Suplicy Vieira (*)

E, porque é carnaval, tudo o mais fica suspenso, cai para segundo plano, perde interesse, é postergado. Não são só os pequenos comércios, os autônomos prestadores de serviços e os bancos que aproveitam o enlouquecimento coletivo para se permitir uma folga e fechar as portas. É também a mente humana que entra em estado de torpor e vai embotando aos poucos, sufocada pelo calor escaldante, embalada pelo frenético ritmo dançante e hipnotizada pelas imagens de luxo e esplendor.

Tudo se adapta ao clima festivo e se transforma. Os telejornais são encurtados, as notícias de política e economia passam a ocupar o terceiro ou quarto bloco da edição e as manchetes mais preocupantes dizem respeito ao carro de uma escola que se desgovernou durante o desfile, quebrou ou pegou fogo. Os sites e portais de notícia na internet não ficam atrás: milhares de fotos das celebridades instantâneas que desfilaram e uma profusão de enquetes e análises de especialistas sobre as chances de cada escola ser campeã.

Nas novelas, os personagens das tramas mais terríveis de traição, vingança e sexo também encontram alívio temporário em seu tormento, se fantasiam e caem na folia. A grade de programação das emissoras sofre contínuos ajustes para acomodar chamadas ao vivo. Até a previsão do tempo enfrenta sutis alterações: ao invés de destacar o perigo de deslizamentos e inundações em áreas de alta densidade populacional, o destaque fica com a temperatura e o risco de chuva no horário do desfile em todas as passarelas regionais do samba.

E como fica quem não gosta de carnaval? Ora, como já diz a canção, quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé. Os incomodados que se mudem, dita a sabedoria popular. Por que não vão fazer um retiro espiritual em alguma zona de mata? Ah, não pode por causa do risco de febre amarela? Pois que se tranquem em alguma clínica e passem por uma sonoterapia até a quarta-feira de cinzas, ora bolas.

Pensando bem, justiça seja feita, esse forçar goela abaixo não é exclusividade do carnaval. Em terras brasileiras, o mesmo se aplica ao futebol e aos “reality-shows”. Mesmo que você não suporte nenhum dos dois, é bombardeado a cada segundo com toneladas de informações indesejadas sobre o desenrolar de cada novo lance.

Sofremos, como povo, da doença dos imperativos categóricos do consumo. Se você é brasileiro e não gosta de café, de cerveja, de feijoada, não é torcedor fanático de algum time de futebol nem de alguma escola de samba, não gosta de praia, de sol e de verão, não se deixa atrair por novelas nem pelos embates tempestuosos (ou picantes) dos participantes de algum “reality-show”, melhor dar início aos preparativos de mudança para outro país.

Excesso e repetição, esses são os lemas da marqueteira alma tupiniquim. Transbordamento e deboche, as únicas respostas possíveis do adestrado cidadão-consumidor-folião para se livrar da angústia que o oprime social e politicamente nos outros 361 dias do ano.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.