Dilma e o fantasma Marina

Eliane Cantanhêde (*)

A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.

Estatísticas 2Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chão e lavava banheiro das freiras para ter direito às aulas.

Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, tornou-se a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.

Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre “desenvolvimentismo” e “sustentabilidade” e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas.

Estatísticas 3Contrariando pesquisas e evidências de que tudo mudou com a queda do Cessna Citation, a campanha de Dilma continuou, estranhamente, desperdiçando munição contra o tucano Aécio Neves. Demorou a cair a ficha. Talvez porque Dilma e Lula tenham fixação em tucanos. Talvez porque não tenham discurso e bala para atingir Marina, de figura frágil e projeto abstrato.

Dilma acordou ontem, 28 de agosto, tateando, improvisando para acertar a intangível Marina. Com um detalhe: passou a mirar Marina, mas sem tirar o olho de Aécio. Além do medo de perder para Marina, o pavor de Lula, Dilma e PT é… terem de entregar o Planalto às mãos de uma aliança da ex-petista Marina com o PSDB.

(*) Eliane Cantenhêde, jornalista, é colunista da Folha de São Paulo

Na prática…

… a teoria é outra.

José Horta Manzano

Apareceu estes dias uma notícia surpreendente: o Partido Socialista Brasileiro deu-se conta, de repente, de que a plataforma de seu candidato à presidência da República ― um certo senhor Campos ― diverge consideravelmente do programa partidário.

Impensável em países onde a política é bem estruturada, essa situação não comove ninguém no Brasil. Plataforma política se adapta aos ventos do momento. Não combina com o programa do partido? Que não seja por isso: modifique-se o programa. É exatamente isso que a mencionada agremiação política fará nas próximas semanas.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Proletários de todos os países, uni-vos!

Realmente, não fica bem, em pleno século XXI, um programa de partido pregar a «socialização dos meios de produção». Soa pra lá de démodé. Chega a ser patético no ponto em que propõe a eliminação de «um regime econômico de exploração do homem pelo homem».

O manifesto do partido atinge o ápice do irrealismo quando preconiza a «transferência gradativa ao domínio social (entenda-se ao Estado) de todos os bens passíveis de criar riquezas». É mole?

Esse quiproquó vem demonstrar, se ainda fosse necessário, a inutilidade dos partidos políticos no Brasil. Visto o divórcio entre a teoria programática e a prática do dia a dia, os partidos são meros balcões de negócios onde uma revoada de indivíduos ― dentes longos e unhas afiadas ― disputam os bens da Viúva.