Terraplanismo – primeira parte

José Horta Manzano

O jornal francês La Croix publicou ontem um artigo sobre a Confraria dos Terraplanistas do Brasil. O texto, muito sério, passa longe da zombaria. Expõe os fatos como eles são. Aponta que «para milhões de brasileiros, a Terra é plana».

Terra plana debaixo de seu domo

Este blogueiro, que vive há décadas em asilo voluntário no exterior, já tinha lido sobre isso. Da primeira vez, achei que fosse brincadeira. Duvidei que alguém pudesse acreditar nessa ideia. Em seguida, quando fiquei sabendo que o guru boca-suja, inspirador do governo atual, também apoia essa teoria, descobri que o mal está mais difundido do que eu imaginava.

Doutor Bolsonaro formou uma assessoria de gente esquisita. É espantoso que um pessoal capaz de avalizar o terraplanismo tenha sido alçado a cargos importantes. Como é que pode um país complexo como o nosso ser conduzido por gente assim? Ingenuidade até que passa; credulidade a esse ponto é de sair correndo sem olhar pra trás.

Se não bastassem as intuições dos antigos, as teorias de Galileu e Copérnico, o pêndulo de Foucault e os trabalhos de Coriolis, temos hoje astronautas que volta e meia fazem viagens em torno da Terra. Que precisa mais?

Onde está e que está fazendo aquele moço de Bauru, o Marcos Pontes, que é hoje ministro da Ciência, Tecnologia & outras coisas? Falo daquele que, no governo Lula, tomou carona num voo espacial da Rússia e viajou até a Estação Espacial Internacional. (Dizem que a brincadeira custou aos cofres brasileiros a módica soma de 10 milhões de dólares, pagos aos russos para fazerem o favor de aceitar o ‘astronauta-turista’ de uma viagem só; mas pode ser apenas maledicência.)

Terra redonda avistada da ISS – Estação Espacial Internacional

Primeira consideração
Doutor Bolsonaro escolheu Pontes para ministro; logo, deduz-se que sejam próximos.

Segunda consideração
Da escotilha da ISS – Estação Espacial Internacional, pode-se avistar a redondeza da Terra (veja imagem). Já faz mais de 20 anos que, sem parar, a estação dá uma volta completa em torno da Terra a cada hora e meia. Ninguém põe em dúvida a aventura de Doutor Pontes no espaço, em visita à ISS. Ele há de ter reparado nesse ‘detalhe’ da terra redonda. Logo…

Pergunta que não cala
Por que é que nosso silencioso ministro da Tecnologia não informa às excelências do Planalto (inclusive e principalmente ao guru boca-suja) que viu com seus olhos que a Terra é, de fato, redonda? Ao fazer isso, vai acabar na hora com a difusão dessa estupidez no Brasil. Estamos fartos de passar vergonha aqui no exterior. Se alguém quiser continuar acreditando na platitude terrestre, que o faça. Mas, na impossibilidade de eliminar todas as idiotices do Planalto, que se elimine pelo menos essa. Afinal, o pessoal precisa estar com a cabeça descansada pra bolar aquelas fábulas do arco-da-velha que alimentam os tuítes diários, uma doçura.

Não perca
A segunda parte deste artigo está no meu outro blogue.

Los apagones

BarrageJosé Horta Manzano

Quando ouvem um lugar-comum, uma banalidade, os franceses e os ingleses costumam dizer que se trata de uma platitude. Políticos soem pronunciar discursos e frases recheadas de lugares-comuns, de afirmações evidentes. Mas alguns exageram.

Nos últimos dez anos, nossos governantes foram dominados por uma ideia fixa: a permanência no poder a qualquer custo. Não sejamos fariseus. Quem alcançou posição confortável agarra-se a ela. É natural e compreensível. It’s human nature. O exagero está em aferrar-se ao poder como se ele fosse um fim em si. Não é.

Posições de mando certamente fazem bem ao ego. Em compensação exigem que o titular exerça de facto suas funções.

Pelo aumento exponencial de episódios de falta súbita de energia que temos constatado estes últimos tempos, é forçoso concluir que a devida atenção não tem sido dada ao planejamento desse setor estratégico.

Não basta cruzar os dedinhos, fechar os olhinhos e mentalizar seus desejos para que as coisas aconteçam por milagre. Os que detiveram o poder estes últimos anos não fizeram a lição de casa. Acham que posições de ministro, diretor, superintendente e que tais são apenas títulos honoríficos. Imaginam que as coisas acontecem automaticamente. Têm sido ingênuos. Sua incúria e seu despreparo têm emperrado o desenvolvimento do País.

Nossa presidente recusa o termo apagão. Talvez não lhe agrade o fato de essa palavra ter sido importada diretamente da Argentina, cujos apagones precederam os nossos. A senhora Rousseff prefere que se fale em «interrupção de fornecimento de energia», uma troca de seis por meia dúzia. Parece-lhe menos violento, mas, no fundo, reflete a mesma realidade.

Além da implicância com a expressão importada, a presidente proferiu (mais) uma platitude ao atribuir a culpa dos apagões a falha humana. É uma evidência. Alguém errou ao prever o crescimento da demanda. Alguém errou na instalação de para-raios de proteção às torres de transmissão. Alguém descuidou da manutenção preventiva. Alguém se enganou e apertou o botão errado. Alguém errou ao abrir (ou fechar) as comportas Poteaude alguma barragem. Seja o que tiver acontecido, terá sido erro humano.

Dizer que apagão é consequência de falha humana é uma banalidade. Levando nosso raciocínio até o fim, temos de considerar que o equipamento que constitui o parque energético também foi projetado, produzido, controlado, transportado, instalado e manipulado por seres humanos. Portanto, qualquer pane do material será, em última instância, efeito retardado de alguma falha humana anterior.

Será que teremos um dia dirigentes não só imbuídos de seus direitos mas também compenetrados de seus deveres?