Lítio

Visão dantesca do garimpo em Serra Pelada (Pará) – anos 1980

José Horta Manzano

O lítio é um metal de múltiplas utilidades. Com a irrupção da internet e de seus aparelhos conectados, o lítio tornou-se mais procurado. A perspectiva da fabricação maciça de carros elétricos pressionou o preço desse metal e tem excitado investidores em busca de novos negócios.

Cada vez mais precioso e mais procurado, o lítio, embora raro, é necessário na fabricação de telefones celulares, laptops, câmeras digitais, veículos elétricos, pacemakers, relógios, óculos especiais, certos tipos de cerâmica. Determinadas peças de alta tecnologia da indústria aérea, de bicicletas e de trens-bala também requerem lítio. Ar condicionado e sistemas de secagem industrial também precisam de lítio. Há ainda o uso terapêutico do lítio, usado em psiquiatria.

Na atualidade, a maior parte do lítio extraído da superfície da Terra é destinada às baterias de automóveis elétricos. Só pra ter uma ideia da necessidade desse material no futuro próximo, saiba-se que a União Europeia já proibiu a venda de carros térmicos novos (gasolina/diesel) a partir de 2035. Daí pra frente, todo carro novo terá de ser elétrico. Mais cedo ou mais tarde, o mundo inteiro virá atrás. O ano de 2035 é amanhã.

O Vale do Jequitinhonha (MG) tem chamado a atenção de investidores estrangeiros por conter lítio em suas terras e pela possibilidade de extraí-lo de forma ecológica. A etiqueta “lítio verde” promete uma extração menos agressiva para o meio ambiente.

Semana passada, uma reportagem do Estadão deu ênfase ao lítio das Minas Gerais. A empresa interessada em extrair o metal é uma certa Sigma Lithium, criada no Brasil, registrada no Canadá, inscrita na bolsa americana. Como se vê, puro sangue nacional. Enquanto isso, já outras três grandes mineradoras internacionais estão a instalar-se no mesmo Vale do Jequitinhonha, recriando, 350 anos depois, nova corrida ao “ouro” nas Gerais.

O artigo se encanta com os bilhões de dólares que serão investidos e com os milhares de empregos que serão criados.

Quanto a mim, fico pensativo. Os “milhares de empregos” serão, em angustiante maioria, de peão de obra. Quem se lembra do afligente espetáculo da Serra Pelada da década de 1980 tem uma ideia do que pode ser a extração do lítio mineiro. Certamente o retrato vai sair melhor desta vez, com máquinas gigantescas fazendo o trabalho pesado, mas, logo atrás, vêm os auxiliares. Os “milhares de empregos” não hão de ser destinados unicamente a funcionários administrativos.

Por seu lado, fico com a desagradável impressão de que, mais uma vez, nos deslumbramos com a entrada de dinheiro fácil e deixamos de pensar no futuro. Dinheiro grosso vai entrar, naturalmente, com os investimentos. Só que o lítio não é riqueza infinita. Um dia, talvez logo, vai acabar. E aí como fica? Não teremos mais nada para atrair novos investimentos.

Me parece que este é o momento ideal de pensar em adicionar valor a esse lítio. Em vez de vendê-lo de caçamba, poderíamos beneficiá-lo e assim ganhar muito mais. O Brasil tem boa tecnologia. Para atingir o estágio de excelência em produção de baterias para telefone por exemplo, não falta muito. O BNDES ou o Banco do Brics (alô, dona Dilma!) podem perfeitamente financiar o investimento que está faltando para desenvolver essa tecnologia.

Se nada for feito agora, vamos continuar exportando matéria prima para que outros agreguem valor e enriqueçam. E vamos continuar à espera do salvador da pátria, aquele que nos erguerá ao patamar das nações justas, ricas e desenvolvidas.

Caminhão elétrico

José Horta Manzano

Você sabia?

Para preparar este artigo, tive de mergulhar no mundo do transporte por caminhão. Mergulhar não é o melhor termo; só molhei a pontinha do pé. É que eu precisava conhecer o nome em português de um determinado tipo de caminhão conhecido aqui como semi-remorque.

Para leigos, caminhão é caminhão, tudo a mesma coisa. Mas não é assim tão simples. Aprendi que o mundo dos caminhões se subdivide em dois grandes ramos: o caminhão propriamente dito e a carreta. O caminhão é um veículo fixo, feito de um bloco só. Já a carreta é articulada, com o cavalo mecânico na frente e o semirreboque atrás.

Talvez o distinto leitor já soubesse dessas minúcias. Quanto a mim, acabo de aprender.

Nota
Muitos escrevem semi-reboque, que leva jeito de ser mais correto. No entanto, a ortografia oficial manda grudar tudo e, ainda por cima, acrescentar um R no meio: semirreboque. Fica esquisito, mas é assim. É como semirreta, semirrei, semirrígido, semirrústico, semirrisonho. Um espanto.

A Suíça acaba de fabricar o maior caminhão do mundo movido a eletricidade. Na verdade, é uma carreta, um veículo articulado, com cabine + plataforma (ver imagem). O cavalo mecânico (cabine) tem dois eixos e o semirreboque tem mais três. O mastodonte é capaz de levar até 40 toneladas de carga. Vazio, tem autonomia de 900 km; carregado, roda até 500 km sem recarregar as baterias de lítio.

Esse primeiro modelo saiu em dois exemplares, que tiveram até direito a uma cerimônia especial realizada no Museu dos Transportes de Lucerna. A parte mecânica, qualquer um sabe construir. O grande feito tecnológico está nas quatro baterias de lítio de mais de uma tonelada cada uma. O veículo roda em silêncio quase total. Quando ele passa, ouve-se um leve zumbido, semelhante ao de um patinete elétrico.

A proeza, inimaginável até um ano atrás, se insere na onda mundial da transição energética. A queima de combustíveis fósseis vai sendo rapidamente abandonada em prol de outros meios, renováveis e sustentáveis. As crianças que nascerem daqui a 20 anos, se quiserem conhecer um veículo de motor a explosão, terão de ir ao museu.