Uma lágrima por Maduro

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

O povo e a lágrima
Uma lágrima por Maduro… quem é que vai derramar? O caricato caudilho reinou sobre a Venezuela por anos e acabou abduzido por forças militares provenientes justamente do odiado “império”. Que ironia… Com certeza, não será seu próprio povo que vai deixar rolar uma lágrima de saudade. A imensa maioria da população venezuelana se encontra agora num estado desconfortável, em que cabem a esperança de dias melhores, uma pitada de euforia reprimida e uma visível apreensão.

A reportagem da BBC fez curtas entrevistas com transeuntes, numa Caracas em que ainda fumegavam as ferragens retorcidas de veículos militares bombardeados. Uma caraquenha, sob condição de anonimato, confessou que os venezuelanos querem apenas “viver sem medo”. Acrescentou que “o importante não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para seus habitantes”. Disse ainda que “ninguém teria escolhido esse modo de fazer uma transição política, mas alguma coisa precisava acontecer”.

No amanhã do bombardeio da cidade e da captura de Maduro, Caracas esteve calma, mergulhada num ambiente pesado, em que ninguém ousava comentar os acontecimentos. Não é da noite para o dia que se destravam bocas caladas há anos sob o jugo da repressão onipresente. Regimes autoritários como o de Maduro se sustentam silenciando opositores e vozes discordantes. Na dúvida, silenciam-se todas as vozes.

Um vizinho simpático pode representar perigo: seria talez um informante a soldo do regime? O mesmo vale para a senhora transpirada, logo à sua frente na fila do caixa do supermercado: estaria assuntando as conversas dos demais? No Brasil, desde 1985, nos desacostumamos a viver dessa maneira, baixando os olhos e falando pelos cantos. Os patetas que hoje clamam por uma ditadura militar não fazem a menor ideia do que seja viver num regime desse naipe. São uns pobres bugres ignorantes, alegres mas sem noção.

Meia-volta volver
Sob todos os aspectos, o ataque à Venezuela foi acintoso, um atentado contra o direito internacional. Praticado pelos Estados Unidos, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o fato assume proporções assustadoras. É um abalo forte nas normas de convivência internacional e anúncio sinistro de guinada ao passado, ao tempo em que o mundo se dividia entre metrópoles e suas colônias.

Contra a lei da selva, nada se pode fazer. Os EUA são mais poderosos que todos os demais países americanos reunidos. Portanto, o que está feito, feito está. A “jus sperneandi”, neste caso, não vige.

A prisão do líder
Não acho muito certo hospedarem Maduro numa prisão comum nos EUA, a exemplo do Metropolitan Detention Center (no Brooklyn, NY) prisão em que se encontra atualmente. Não digo isso por uma questão de manter privilégios, mas há que convir que personalidades públicas têm um grau de exposição mais elevado que um cidadão comum. O risco de ser maltratado, ferido ou até assassinado por outro(s) detento(s) é grande. Pelo mesmo motivo, não gostaria que Lula ou Bolsonaro fossem metidos na Papudona, no Centro de Detenção de Pinheiros ou em Bangu. Uma quentinha envenenada pode ser servida a qualquer momento.

Dado que não é possível construir uma prisão especialmente para Maduro, acredito que a melhor solução seria pô-lo em prisão domiciliar vigiada. Ele e a esposa teriam, daqui até o fim de suas vidas, tempo suficiente para refletir sobre os erros cometidos e os bilhões de dólares perdidos. Que, aliás, podem bem se encontrar abrigados, em nome de laranjas, em bancos americanos.

Conselho a Mr. Trump
Este recadinho vai direto para Mr. Donald Trump que, como todos sabem é leitor assíduo deste blogue.

Dear Mr. Trump,

Congratulações pela espetacular intervenção na Venezuela e pela cinematográfica abdução do pranteado Nicolás Maduro – que ainda há de render filmes hollywoodianos no futuro.

Agora, que as supimpas Forças Especiais americanas estão ainda mais bem treinadas, sugiro-lhe preparar uma ação para raptar aquele que – esse, sim! – tem sido a causa de milhares de mortes diárias e dores de cabeça para o resto do mundo. Falo de Vladimir Putin.

Ordene a suas Forças Especiais que infiltrem Moscou e colham aquele criminoso que lá se esconde, um personagem muitíssimo mais nocivo e perigoso que o tosco Maduro.

O senhor receberá aplausos do mundo inteiro e, de quebra, garantirá seu tão desejado Prêmio Nobel da Paz!

Agradecimentos antecipados.

A vida da manada é difícil

Pedro Valls Feu Rosa (*)

Animal 01Dia desses assisti a um daqueles documentários sobre a África, recheados de cenas de caça. O foco era exatamente este: os cuidados que a maioria dos bichos deve ter por conviver com espécies ferozes em um mesmo ambiente.

Achei muito interessante o ritual da hora de beber água, no final do dia. O primeiro a ir até o rio é o chefe da manada. Ele chega cauteloso, quase furtivo. Verifica com cuidado o ambiente, certificando-se de que lá não está nenhuma besta feroz à espreita.

Se a barra estiver limpa, ele retorna e chama o restante da manada. Vão todos às pressas, em uma correria desesperada causada não pela sede, mas pelo medo. É assim que chegam à beira do rio e começam a beber nervosamente, sempre olhando para os lados e controlando o ambiente. Ao redor, sempre vigilante, lá está o chefe da manada, pronto a dar o alarme caso alguma fera apareça.

Animal 02Neste caso, cada animal sabe o que fazer: sair numa correria desesperada. O último é sempre o chefe – que, para salvar o restante da manada, acaba virando comida de alguma besta feroz.

Confesso que a cada vez que assisto a um documentário desses choca-me principalmente a falta de dignidade imposta aos animais mais pacíficos, sempre obrigados a viver às escondidas ou correndo de um lado para o outro. As atividades mais banais, tais como pastar ou beber água, se transformam em momentos de risco, nos quais a dignidade vai cedendo espaço ao instinto de sobrevivência.

Pois é. Assim é a vida lá nas selvas da África. Mas, mudando de assunto, há alguns dias saí para jantar fora com um casal amigo. Eles resolveram levar os dois filhos, ainda crianças. Vivemos momentos agradáveis. Por volta das oito da noite, fomos embora.

Animal 03Impressionou-me, então, o treinamento da família. O primeiro a sair do restaurante foi o meu amigo. Olhou para um lado e para o outro, foi até o carro, contornou-o, certificando-se de que não havia ninguém perto e, de lá, fez um sinal de positivo para a esposa e os dois filhos.

Estes, então, disciplinadamente, saíram quase correndo rumo ao carro. Cada um já sabia o que fazer, abrindo sua porta e entrando apressadamente. Enquanto isso o motor estava sendo ligado e o veículo preparado para sair. Confesso que não cheguei a cronometrar quanto tempo durou esta operação, mas posso dizer que consumiu menos de 30 segundos.

Animal 04Conversando depois com meu amigo, fui informado de que toda a família passou realmente por um treinamento. E acrescentou que, em caso de emergência, todos já estão preparados. Assim, ele deverá ficar e encarar a situação do jeito que for possível – e se não for possível, que se sacrifique pelos demais. Quanto à esposa e filhos, estes deverão sair correndo desenfreadamente, cada um para um lado, abanando os braços e gritando por socorro.

Mas, perdoem-me, ainda sobre a África aprendi algo interessante naquele documentário. Disseram que uma das maneiras de diferenciar um animal pacífico de um violento é através dos olhos.

Animal 05Eis aí algo curioso, que eu ainda não havia observado: os olhos dos animais mansos ficam na lateral da cabeça – posição que torna mais fácil controlar o ambiente ao redor. Em resumo, dá para vigiar melhor se alguma fera está se aproximando. Já quanto a estas, os olhos invariavelmente ficam na frente do crânio, possibilitando um maior foco nas vítimas e uma caçada mais eficiente.

E é assim, inspirado pela vida nas selvas, que fico a pensar se não deveríamos ter os olhos ao lado das orelhas…

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(*) Pedro Valls Feu Rosa é desembargador. Foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Fonte do texto.