Um reparo

José Horta Manzano

Faz mais de ano que jornalistas, analistas e comentaristas vêm falando em “tentativa de golpe” quando se referem à sequência de acontecimentos preparados durante o governo do capitão e que culminaram no 8 de janeiro.

Tenho um reparo a fazer. Pelo que as investigações têm deixado cada dia mais claro, estão errados os que falam em “tentativa de golpe”. Não era uma tentativa, mas um golpe de verdade! O chato (para os arquitetos da manobra) é que não deu certo, o navio fez água e a vaca foi direto pro brejo.

Melhor então falar em “golpe fracassado”. Quem preferir, pode usar outro termo: golpe malogrado, abortado, frustrado, falhado. Acho que “gorado” cai como luva. Na verdade, chocaram o ovo sem perceberem que ele não estava fecundado. Resultado: gorou.

Tentativa é que não foi. Naqueles tempos obscurantistas, todos os atores estavam convencidos de estar trabalhando para um golpe com G de general, grandioso, glorioso e ganhador. Na cabeça daquela gente desmiolada, o futuro estava garantido.

Vamos de “golpe gorado” mesmo.

Atentado

José Horta Manzano

A língua francesa formou o substantivo attentat tomando como base o verbo attenter, que é filhote do latino attentare. Em latim, o verbo significava pôr em prática qualquer meio para que uma coisa seja bem sucedida.

Nossa língua foi buscar o substantivo francês e o aportuguesou: virou atentado. O sentido continua bem próximo ao original. Em atentado, está embutida a ideia de tentativa. Como toda tentativa, tanto pode dar certo como não.

A vice-presidente da vizinha Argentina foi ontem vítima de um atentado. Um indivíduo apontou uma arma, tentou atirar, mas a bala não saiu. A vice-presidente teve sorte. O agressor, menos. Além de não ser bem sucedido, foi dormir atrás das grades.

A Folha de SP acertou ao dar a notícia. Falou em “atentado contra Cristina”. Correto.

Folha de São Paulo

 

 

O Globo também acertou. Foi até mais longe. Falou em “tentativa de assassinato”. Correto.

O Globo

 

 

Já o Estadão escorregou. Tratou a notícia de “tentativa de atentado”. Além de soar complicado (tentativa de atentado), desvirtua a verdade. O que o agressor cometeu foi um atentado de verdade, não uma “tentativa”. Se não deu certo, é uma outra história.

Estadão

 

 

Se o redator fizer questão de qualificar o ato, pode falar em atentado falho, atentado fracassado, atentado infrutífero, atentado frustrado – ou outro adjetivo parecido.

Mas é bom não esquecer que, apesar de o agressor não ter conseguido chegar a seus fins, o ato foi um atentado de verdade, não só um ensaio ou uma tentativa.