Bandeiras secretas

José Horta Manzano

Você sabia?

Antes de 1994, quando ainda vigorava o regime de segregação racial conhecido como apartheid, a África do Sul ainda se sentia próxima dos tempos coloniais. A população branca segurava firme as rédeas do poder mas, assim mesmo, pairava no ar a pouco agradável impressão de estar vivendo em terra alheia. A prova é que a bandeira do país guardava três bandeirinhas «de reserva» bem na faixa branca central. Embora já fosse independente, o país tinha dificuldade em desgrudar das origens britânica e neerlandesa.

Antiga bandeira da África do Sul. Foi substituída pela atual em 1994.

Com a eleição de Nelson Mandela à presidência e a transição miraculosamente pacífica que se seguiu, o regime mudou, o apartheid foi para o museu e a bandeira, naturalmente, foi redesenhada.

Hoje em dia, poucos são os países cuja bandeira guarda inserida uma bandeirinha «de lembrança». Esse fenômeno é frequente com pequenos territórios britânicos que vivem em regime de semi-independência.

Há uma bandeira, no entanto, que leva nada menos que oito bandeirinhas ocultas, como num jogo de esconde-esconde. É a elegante bandeira da Noruega. Como os demais países escandinavos, ostenta a cruz viking.

Bandeira da Noruega e as oito bandeiras escondidas.

Apesar da aparência relativamente simples, uma observação mais atenta revelará oito bandeiras nacionais mimetizadas, como naqueles quebra-cabeças que desafiam a «encontrar o coelho».

Há mais casos de bandeiras ocultas dentro de outras. Há que prestar atenção: quem procura, acha. Todavia, uma coisa é certa: nosso lindo pendão da esperança não se aninha dentro de nenhum outro.

Crédito
A descoberta das bandeiras ocultas dentro do pendão norueguês se deve à perspicácia do blogueiro espanhol Diego González.

Nomes delicados ‒ 1

José Horta Manzano

Cada língua tem gênio próprio. Os mesmos sons e as mesmas palavras que, aqui, soam bem podem não ser percebidos com a mesma benevolência por ouvidos estrangeiros. E vice-versa.

Uma de minhas irmãs casou-se com um catalão. Quando engravidou, começaram as conversas para escolher o nome do nascituro. O marido disse que, se viesse um menino, gostaria que se chamasse Pau. Assustada, minha irmã recusou-se obstinadamente. «‒ Filho meu chamado Pau? Nem em pesadelo!» A discórdia desapareceu quando a ecografia atestou que era uma menina. Explicação: Pau, que soa tão estranho a nossos ouvidos, é nada mais que a forma catalã de nosso corriqueiro Paulo.

Algumas cidades, vilas e vilarejos ao redor do mundo levam nome que, para nós, pode parecer surpreendente. Aqui estão três exemplos:

Bastardo
Pequeno distrito do município italiano de Giano dell’Umbria (província de Perúgia) leva esse nome incômodo. Abriga mais de 2000 habitantes. As estatísticas não informam se são todos bastardenses.

O nome do distrito, assaz original, deriva de antigo albergue chamado Osteria del Bastardo, hoje desaparecido. Faz um século que os habitantes querem mudar o nome do lugar mas, conversa vai, conversa vem, nunca chegaram a um acordo. Por enquanto, vai ficando assim mesmo.

Vista aérea da pequenina localidade de Vagina, Rússia
Crédito: Google maps

Vagina
Nada menos que três povoados russos carregam esse estranho nome. Um fica na província de Krasnoyarsk, outro está na região de Kurgan e o terceiro situa-se no distrito de Aromashevsky, região de Tyumen. Pelas informações que tenho, o significado da palavra é o mesmo que em nossa língua. Há mistérios insondáveis.

Kagar
No Estado de Brandemburgo (Land Brandenburg), na Alemanha, está a cidade de Rheinsberg. Um de seus pequenos distritos leva o charmoso nome de Kagar. Situada a apenas 50km de Berlim, a região é muito procurada em período de férias. A principal atração turística do distrito é um pequeno lago chamado justamente Kagarsee (See é a palavra alemã para lago).

Vista do idílico Kagarsee

Por coincidência, a pequena distância do lago, está o canal de Repente, recanto de aspecto paradisíaco, um convite para passeios. Recomenda-se a quem passar pela região, especialmente entre maio e setembro, fazer uma excursão a pé de Repente a Kagarsee. É um charme só.

Nota
Este artigo foi amplamente inspirado num excelente blogue espanhol, o Fronteras Blog. Aqui fica meu agradecimento.