O pastor misericordioso

José Horta Manzano

Já muito tempo passou desde a última vez em que entrei numa igreja para ouvir a missa. Visitas turísticas a catedrais góticas e românicas não contam, que essas, vi muitas.

Só para vosmecê ter uma ideia, no tempo em que eu ia à missa, ela ainda era dita em latim. Já na época, ouvia-se dizer que o Vaticano estava considerando substituir o latim pela língua vernácula. Eu não sabia exatamente o que era “língua vernácula”; só mais tarde aprendi que era a que se falava no dia a dia, no nosso caso, português do Brasil.

Embora antigos, esses tempos não se confundem com o do Deus dos tempos bíblicos, aquele personagem sisudo e implacável que inspirava mais pavor que amor. Sem chegar a ser propriamente liberais, os preceitos da Igreja da minha época já eram menos engessados do que, digamos, no tempo de meus avós. O fogo eterno já não ameaçava os pobres mortais por um sim, por um não.

No púlpito, na hora do sermão, o vigário brandia o indicador apontado para um ponto no horizonte, percorria com os olhos o conjunto do fiéis e os alertava do perigo do pecado mortal. Os que caíssem em tentação tinham de se confessar e comungar rapidamente porque, se morressem naquelas condições, seria quase impossível alcançar a salvação. Hoje, acredito que a fala visava mais é a manter unido o rebanho de fiéis. Em todo caso, funcionava.

Afagos e ameaças eram sempre dirigidos aos paroquianos. Párocos não pronunciavam discursos farisaicos do tipo “Nós somos puros e vamos para o céu; aqueles ali são pecadores e têm entrada garantida no inferno”.

O Globo informa que o distinto pastor de uma “denominação” neopentecostal da periferia de São Paulo, apoiador de Bolsonaro, não gostou da apresentação da escola de samba carioca que teve a ideia esquisita de homenagear o Lula e desancar com a oposição. Gosto por gosto, eu também não gostei. Com tanto assunto por aí, homenagear presidente candidato à reeleição me pareceu péssima escolha.

O pastor tampouco apreciou que a tal escola de samba tenha menosprezado certos valores religiosos que lhe são caros. Quanto a mim, não discordo: apreciei menos ainda. Acho que não se deve nunca zombar da religião alheia.

O ponto em que o pastor e este escriba estão em desacordo vem agora. No que me diz respeito, ainda me prendo aos preceitos que aprendi.

    • Roupa suja se lava em casa;
    • fuja-se de farisaísmos do tipo “eu sou bom, eles é que são maus”;
    • religião e política não se misturam;
    • temos direito de gostar ou não, mas quem julga e condena é Deus.

Já nosso pastor assumiu comportamentos que considero indignos de um sacerdote.

    • Lavou sua roupa em público, via redes sociais;
    • não se vexa de pôr religião e política no mesmo balaio;
    • não se restringiu a criticar a apresentação da alegoria, foi além;
    • apontou culpados, condenou-os e fixou-lhes a pena.

O pastor misecordioso disse que os integrantes da escola que homenageou o Lula terão câncer de garganta(!). Dado que ele não especificou, a maldição vale para todos os integrantes, dos diretores aos faxineiros, passando por passistas, porta-bandeiras, criadores, mecânicos, costureiras, modistas, músicos.

É verdade que a escola de samba desafinou, mas o pastor trocou os pés pelas mãos e atravessou o passo. Fez aquilo que o Cristianismo condena: rogou praga para todo o pessoal da escola. E fez isso publicamente, na frente de fiéis e de infiéis. Será pecado mortal?

Me sobrou uma curiosidade. Se, por assustadora hipótese, a escola tivesse homenageado Bolsonaro e ridicularizado a imposição de cinzas da quarta-feira, qual teria sido a reação de nosso pastor rogador de praga? Uma maldição virulenta ou um gostoso afago em cada integrante da escola de samba?

Baile da saudade

José Horta Manzano

A charge
Achei genial a charge que saiu na Folha de hoje, obra do jovem desenhista João Montanaro (27 anos). É a imagem reproduzida acima.

A seita
Os obstinados que se mobilizam a um simples aceno de Bolsonaro estão mais para sectários (fiéis de uma seita) do que para partidários (companheiros de partido). A obediência absoluta demonstra isso. Partidos, especialmente no Brasil, não exigem fidelidade total de seus membros. Já uma seita só sobrevive da lealdade de seus adeptos.

Sem faixas
Me parece simples. Com receio de ser levado em cana por incitação à sedição, Bolsonaro pediu a seus fiéis que não trouxessem faixas. Resultado: ninguém veio com faixas. Isso expõe a devoção do distinto público a Seu Mestre, ou seja, ao super-homem que lhes dá ordens.

O Brasil já conheceu populistas que, a seu tempo, magnetizavam os fiéis. Getúlio Vargas talvez tenha sido o mais significativo deles. Assim mesmo, assisti a conversas animadas entre getulistas e ademaristas (de Adhemar de Barros) que não terminavam em tiro nem morto estendido no meio-fio.

A diferença é o que eu dizia antes: num caso, temos simpatizantes de um partido; no outro, são fiéis obedientes a um guru. Essa é a diferença entre os de antigamente e os de hoje. Daí a dificuldade de lidar com os ditos “bolsonaristas”.

No espírito de um “bolsonarista”, o chefe tem sempre razão. Não há discussão possível. Se mandou levar faixa, levo; se não mandou, não levo. Se ele diz que é um inocente perseguido por pessoas más, acredito.

Como argumentar? Não adianta nem tentar. Seria como tentar convencer um eleitor argentino de que o “peronismo” já faleceu faz meio século. Ele não concordará.

Resumindo
Isso foi o que mais me impressionou no ajuntamento de ontem: a ausência de faixas. Da meia dúzia de discursos, já se imaginava que não insultariam magistrados, mas do público era mais difícil. No final, vê-se que foi mais fácil adestrar os assistentes do que conter um dos ‘pastores’ discursantes, que chegou a cutucar autoridades superiores a ele.

Trocando em miúdos, temos uma continha de soma zero. Os ‘bolsonaristas’ deram mostras de quem são e do apreço que devotam ao guru. Continuam a apreciar o chefe. Quanto aos ‘não bolsonaristas’, continuam no seu canto, sem precisarem de chefe que lhes diga de que cor têm de se vestir. Os de lá não votam nos de cá e vice-versa. O desfile não fez ninguém mudar de campo. Zero a zero.

Quanto à Justiça, ah, são outros quinhentos! O tempo judicial é mais longo que o tempo do trio elétrico ex-presidencial. Daqui a uma semana, a algazarra suscitada pelo ajuntamento da Avenida Paulista terá sossegado. Mas os processos, implacáveis, continuarão a correr nos escaninhos do Supremo.

Não acredito que choro de Madame amoleça coração de magistrados.

PS
Esperemos que os juízes que vão julgar Bolsonaro não tenham interpretado essa movimentação como demonstração de força ou, pior, como afronta ou provocação. Juiz irritado tem a mão pesada.