Mobral neles!

José Horta Manzano

Tostão (80 réis) de 1830

Tostão (80 réis) de 1830

Segundo especialistas, Fedro, escritor que se exprimia em latim, nasceu na região da Trácia, ao norte da Grécia. Foi levado para Roma ainda muito jovem, na condição de escravo.

Como voltaria a fazer Jean de La Fontaine um milênio e meio mais tarde, Fedro especializou-se em fábulas, historietas curtas, simples, de conteúdo pedagógico e moral.

Durante séculos, não foi considerado um grande escritor. Não o situaram à altura de um Ovídio, de um Cícero, de um Catulo ou de um Horácio. A grandiloquência de seus contemporâneos fez sombra ao despojamento de seus textos.

É pena. Frases simples podem conter ensinamentos profundos. No outro extremo, discursos impressionantes e inflamados podem revelar-se vazios, nada mais que falatório. Fedro nos legou o fruto de uma mente perspicaz. São historinhas, máximas, frases e ditados que, passados dois mil anos, continuam fazendo sentido.

Hoje temos a impressão ― nem sempre verdadeira ― de ir mais rápido, de possuir conhecimento maior, de usufruir conforto superior. Acho que é tudo muito relativo.

De que adianta carregar um telefone no bolso se, entre o momento em que ele nos serve para alertar a polícia de que nos estão assaltando e a chegada da patrulha, o assaltante já se foi carregando nosso suado dinheirinho?

De que adianta estar ao volante de um bólido superveloz quando o tráfego pesado nos obriga a viajar à velocidade de um pedestre?

Um nível de vida elevado não corresponde necessariamente a uma boa qualidade de vida. Na Roma dos Césares, o nível de vida era certamente inferior ao que é hoje. Em compensação, toda a alimentação era orgânica. O único aditivo utilizado era… esterco. Orgânico e biodegradável.

Voltando a Fedro, li hoje uma de suas citações. Além de não ter perdido a atualidade, continua mais que nunca dans l’air du temps. Segue na mesma linha daquela fábula que espezinha a vanidade do rei nu.

Inlitteratum plausum non desidero.
Não desejo o aplauso dos ignorantes.

Milréis de 1939

Milréis de 1939

Se os madachuvas desta terra tropical parassem para pensar nessa máxima, e principalmente se seguissem o conselho, nosso País melhoraria logo, logo.

Mas acho que, aí, já estou pedindo demais da conta. Desgraçadamente, nossos reis continuam nus. E ingenuamente embevecidos com sua própria nudez.

Como diziam os antigos, “quem nasceu pra tostão não chega a mirréis”.