José Horta Manzano
De repente, os brasileiros descobriram várias coisas ao mesmo tempo. Ficaram sabendo:
- que, enquanto aqui faz um calor saariano, em outros lugares a neve acumulada forma um tapete branco;
- que, enquanto por aqui se dança, do outro lado do mundo tem gente trabalhando;
- que, para ter a nacionalidade brasileira, não é necessário nascer no Brasil; basta ter pai brasileiro (ou mãe brasileira) – nesse caso, a cidadania se transmite pela lei do sangue.
Surgiu do nada um jovem de seus vinte e poucos anos, nascido na Noruega, de sobrenome complicado, rosto sorridente que talvez não fizesse sucesso como galã da novela das nove, cabelo alourado de corte démodé, denotando no falar um bom conhecimento de nossa língua embora esteja há anos sem praticar – uma figura peculiar.
Até sexta-feira passada, poucos brasileiros haviam ouvido falar dele. A esta altura, vosmecê já sabe que me refiro a Lucas Pinheiro Braathen, atleta do esqui alpino.
O moço deixou de ser um desconhecido no Brasil imediatamente depois de arrasar na prova de slalom gigante, aquela capaz de destroncar o joelho de qualquer um, com o esportista descendo montanha abaixo, de esqui, a uns mil por hora, contornando piquetes plantados na neve, num rapidíssimo jogo de cintura pra lá e pra cá. De fazer o coração sair pela boca.
Ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos da Itália, que se desenrolam atualmente na região de Cortina d’Ampezzo, Alpes italianos. Ao descer a montanha, Lucas subiu ao topo da escala de simpatia do público nacional. Imagine só, logo o Brasil, que nunca tinha ganhado nenhuma medalha nos JOs de inverno, nem de ouro, nem de prata, nem de chocolade. Iniciar a coleção logo com uma de ouro!
O rapaz só não será recebido pelo presidente da República se não quiser. Especialmente em ano eleitoral, como este, prefeitos, governadores e o presidente estão ansiosos para tirar uma selfie ao lado do novo herói.
Que aproveitem, porque nosso quadro de medalhas nos JOs de inverno não deve se enriquecer assim tão já. Esportes de frio e de neve não são, como é sabido, a especialidade nacional. Vivemos num país de território gigantesco, mas que carece de montanhas. Ademais, nossa posição geográfica, entre Equador e um dos trópicos, não favorece o aparecimento de pistas de esqui polvilhadas de “ouro branco”.
Para treinar, o aspirante brasileiro teria de ter boa folga financeira, pois o campo de treinamento mais próximo no (nosso) inverno está a 3 horas de avião, no Chile ou na Argentina. No (nosso) verão, é pior: para encontrar neve fresca, são 12 horas de viagem até os Alpes. Não está ao alcance de qualquer um. Isso posto, a medalha de ouro do esqui fica como agradável ponto fora da curva.
O que vai contar mesmo é a Copa do Mundo, daqui a alguns meses. Se Donald Trump não atrapalhar, naturalmente.
