José Horta Manzano
A direção do Facebook cassou páginas e perfis criados e mantidos pelo “gabinete do ódio”, milícia digital associada a doutor Bolsonaro. Essa central de difusão de informações enganosas tem por encargo, entre outras tarefas, a “destruição” de reputações. Pus “destruição” entre aspas porque, apesar de ser a palavra usada por dez entre dez jornalistas, não me parece adequada.
Por definição, reputação é conceito neutro; ela tanto pode ser boa quanto ruim. Tanto podemos dizer que “Fulano tem excelente reputação” quanto podemos afirmar que “a reputação de Beltrano é péssima”. Portanto, não faz sentido falar em “destruir” reputações. Boa ou má, reputação sempre haverá. Será melhor utilizar outro verbo. Há muitos à disposição: sujar, manchar, enxovalhar, emporcalhar, deslustrar, enlamear, encardir.
Antigamente, dizia-se denegrir, palavra hoje considerada politicamente incorreta. É paradoxal que “denegrir reputações” seja incorreto, enquanto “embranquecer de medo” é admitido. Fica difícil entender por que um pode e o outro não. Mas esse é assunto pra outro artigo. Vamos voltar ao que nos interessa hoje.
É interessante notar que a palavra reputação vem do latim reputatio, formada a partir do verbo reputare. Este verbo é filhote de putare, cujo sentido originário é ligado à pureza (putus = purus). Putare é a forma latina de nosso podar (=limpar, eliminar galhos inúteis).
Por associação de pensamento, putare evoluiu para o sentido mais abstrato de calcular, fazer as contas, opinar, julgar, considerar. Hoje a família é extensa. Dela fazem parte, entre outros descendentes: computar (computador), contar, deputar (deputado), imputar, amputar, disputar. E, naturalmente, todas as reputações que vêm sendo solapadas pelos gentis assessores presidenciais.
