Eleições venezuelanas

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

José Horta Manzano


Palavra do dia: fraude.

É termo panromânico, disseminado das praias lusitanas à beira do Mar Negro. Aparece também em inglês, holandês e até indonésio (via holandês).

Herdamos essa palavra do latim fraus/fraudis, substantivo da 3ª declinação. O significado de fraude é próximo ao de cilada e de emboscada. Um detalhe importante, porém, marca a diferença de sentido.

A cilada e a emboscada atentam contra a vida ou a integridade física da vítima, enquanto a fraude tem por única finalidade satisfazer aos interesses de quem a pratica.


Nicolás Maduro, de tantas que aprontou, não tem outra saída que não seja agarrar-se ao poder para permanecer a salvo até o fim de seus dias. Ficará “presidente” até que seja apeado pela força. Se for obrigado a abandonar o osso, a “menos pior” das soluções seria um acordo que concedesse ampla anistia a ele e a seus cúmplices.

Anos de má gestão empobreceram o país e exauriram suas reservas em ouro e seu capital de credibilidade internacional. O povão paga a conta dos desmandos da camarilha que se instalou no topo do Estado. Os milhões de refugiados que constituem a diáspora venezuelana, espalhada pelo mundo, bem que gostariam de voltar à pátria, mas a total ausência de oportunidades os desencoraja.

Em dez anos no poder, para segurar-se no posto máximo, Maduro cooptou todos os que, de perto ou de longe, teriam poder para ameaçá-lo. Generais e outros militares de alta patente, procuradores e juízes vêm todos comer na mão do caudilho. São todos “comprados” com dinheiro da petroleira estatal e com nepotismo, favores, benesses e sinecuras inconfessáveis.

Executivo, Legislativo e Judiciário estão mancomunados e devoram as riquezas nacionais como urubus circulando em roda da carniça. Esses milhares de apóstolos cooptados dão ao governo firme sustentação. Sabem que, caso Maduro caia, o destino de todos eles será provavelmente a cadeia. Ou pior ainda: uma extradição para os EUA.

Quem espera que o ditador seja desalojado com um movimento à maneira regular, com eleição, alternância e pressão de baixo pra cima pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Não vai acontecer. A camarilha vai sempre fazer uma mágica com os números e declarar que venceu.

Portanto, vejo mal, neste momento, por qual milagre Maduro seria desalojado. Não vai servir para nada Lula da Silva fazer beicinho e dizer que “está assustado”.

O chavismo se impôs pela força e só pela força será derrubado. Quando digo “força”, não digo necessariamente tanques na rua; mas será necessária uma força bem maior que o voto de um povo que, aliás, os chavistas desprezam copiosamente.

Não adianta balançar o coqueiro, que Maduro ainda não está maduro para a queda.

Chavismo para os EUA

José Horta Manzano

Não sei o que significa «chavismo para os EUA». Se o distinto leitor souber o que é, evite criticar esse tipo de chavismo. Sobretudo, cale-se quando visitar a Venezuela. Do contrário, está arriscado a enfrentar sérios problemas com as autoridades. Um conterrâneo cometeu a besteira justamente quando se encontrava na Venezuela. Não deu outra: foi expulso do país.

Chamada Estadão 6 jan° 2017

Vamos falar sério agora. Em duas distraídas linhas, o estagiário deu recado errado. Diferentemente de outras línguas mais rígidas, a nossa permite ‒ até certo ponto ‒ o deslocamento de termos no interior da frase. Mas a liberdade desse troca-troca termina onde a compreensão fica comprometida.

O autor da chamada escorregou. Só quem já estava a par da história, que já vinha de alguns dias, entendeu o recado. Para total clareza, bastava ter ordenado os termos numa ordem coerente. Assim:

«Venezuela expulsa, para os EUA, brasileiro acusado de criticar chavismo»

ou

«Brasileiro acusado de criticar chavismo é expulso da Venezuela para os EUA»

ou ainda

«Expulso da Venezuela para os EUA brasileiro acusado de criticar chavismo»

«Aquele que sabe que é profundo tende à clareza; aquele que quer parecer profundo tende à escuridão, pois o povo acredita ser profundo tudo aquilo cujo fundo não consegue enxergar.»

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.

A vaca

Hugo Chávez

Hugo Chávez

“Chávez é como uma vaca. Em vez de leite, distribui aos seus ‘bezerros’ o dinheiro do petróleo. Eles, os altos mandos do chavismo, só estão juntos porque no centro está a vaca Hugo Chávez. Se ele morrer, os bezerros vão virar abutres. E vão querer comer a vaca de maneira anárquica”

Alfredo Romero, professor de Direito Público e diretor do Foro Penal venezuelano, citado por Rodrigo Cavalheiro no Estadão online de 15/12/12