Sem cartão de crédito

José Horta Manzano

Nunca fui de ter heróis. Os meninos da minha infância se encantavam por tipos como Mandrake, Super Homem, Batman. Eu achava muito mais divertido ler as aventuras de Frajola & Piu Piu, Pato Donald & seus sobrinhos, Pernalonga & Holtelino Tlocaletla.

Como se vê, todos os personagens daquele tempo eram importados dos EUA. Aliás, o Grande Irmão do Norte é país carente de heróis. Como nem sempre os teve à mão, inventou como pôde. De tanto buscar o herói perfeito, desembocaram num Trump, veja você, encarnação da carência americana: o homem forte, viril, que, para impor sua vontade, esmaga quem lhe estiver pela frente. O mocinho que sempre vence os índios, nem que seja com bomba atômica.

Até outro dia, eu tinha grande admiração pelo juiz Moraes, do STF. Me pareceu o homem providencial, aquele que surge no momento certo. A tarefa não era caçar índios, evidentemente, mas dar um jeito no galinheiro e mandar para a cadeia aquela curriola que vinha ameaçando nossa ordem e nosso progresso, e que tinha ousado preparar um golpe de Estado. Que pretensão…

Deu tudo certo no final: o chefe da quadrilha e todos os asseclas foram julgados, condenados e, em maioria, encarcerados. E isso se deve, em grande parte, à mão firme de doutor Moraes, que não soltou as rédeas enquanto não viu o dramalhão chegar ao fim. Se o Brasil se livrou daquele bando de ignorantes presunçosos, o juiz relator do processo merece um agradecimento especial.

Quando o governo americano (chuchado pelo inefável Bananinha, filho do ora encarcerado Bolsonaro) aplicou a doutor Moraes & digníssima esposa os raios e as calamidades da Lei Magnitsky, achei que era tremenda injustiça. Fiquei imaginando como é que os dois, expulsos do mundo digital como Adão e Eva do paraíso, iam se virar sem cartão de crédito? Me deu pena. De bom grado, teria emprestado meu cartão ao casal, desde que se comprometessem a não gastar muito, que é pra não estourar o teto.

O tempo passou, os raios e as calamidades da Magnitsky se foram, tudo voltou ao normal.

Ultimamente, fiquei (ficamos todos) sabendo que o maior estelionatário de que este país tem notícia havia sido preso. A história completa de suas peripécias talvez nunca se fique sabendo. Alguns fatos são conhecidos, no entanto. A firma de advocacia da digníssima esposa de doutor Moraes mantinha um contrato de 129 milhões de reais(!) com o banco de propriedade do estelionatário. De tão estratosférico, o valor suscita desconfiança. Madame jura que se tratava de contrato real, que cobria serviços prestados e a prestar. Acredita quem quer.

Mas isso não é tudo. Há forte suspeita de continuados contactos pessoais e telefônicos entre o estelionatário e doutor Moraes. Este nega. Mas as evidências o acusam. A ver.

E pensar que quase ofereci meu cartão a esse casal! Com todos aqueles milhões no bolso, quem precisa de cartão? Tem de fazer como em comédias americanas, em que, na hora de pagar a conta do jantar, o protagonista tira um vistoso maço de notas do bolso. E ainda deixa cem dólares de gorjeta.

Agora fica a dúvida para pensar em casa. Aquele que foi herói um dia, mas que já tinha uma longa folha corrida que ninguém conhecia, pode deixar de ser o herói que foi? Em outros termos: pilhado no erro, o antigo herói perde seu status?

Paz familiar

O Globo

José Horta Manzano

Se eu disser que Bolsonaro era (e acho que ainda é) vulgar e desbocado, não será nenhum furo de reportagem. É de conhecimento de todos, até mesmo do mais carola de seus eleitores – fato, aliás, incompreensível.

Sempre me perguntei de onde vem esse vício de rechear a conversa com palavrões e palavras de baixo calão. Será porque aprendeu dentro de casa, desde pequeno, ouvindo conversas entre pai e mãe? Será que se viciou fora de casa, junto aos colegas de serviço ou de farda? Não tenho a resposta.

Mas de uma coisa se pode ter certeza: naquela família, nos diálogos entre pai e filhos, a argumentação se exprime através daquele palavreado que, mesmo num botequim, seria bom pronunciar à meia voz.

É o jornalista Lauro Jardim quem dá a informação. Corria o ano de 2017. Bolsonaro era então deputado assim como o filho zero três (o “Bananinha” – carinhoso apelido que lhe conferiu, involuntariamente, o general Mourão).

A cena se passa no plenário da Câmara. Bolsonaro pai assistia à sessão, mas o Bananinha, pelo teor da conversa, parece estar no exterior. Não se sabe fazendo o quê. Pela carraspana pespegada pelo pai, boa coisa não era. Os deputados se preparavam para eleger o presidente da Casa.

Um fotógrafo flagrou a tela do celular de Bolsonaro e imortalizou o trecho de conversa que corria entre o pai e o n° 03. O “Renan” que aparece na conversa é o filho n° 04, meio-irmão do n°03.

Advertência: A partir daqui, espíritos sensíveis devem se abster de continuar a leitura.

Bolsonaro pai
“Papel de filho da puta que você está fazendo comigo. Tens moral para falar do Renan? Irresponsável. Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda. Se a imprensa te descobrir aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente”.

Filho n° 03 (o “Bananinha”)
“Quer me dar esporro tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá.”

Taí uma tocante mostra de puro amor paterno e filial, não é mesmo?

Vale o ditado: “Família que se insulta unida permanece unida”. E pode até terminar na Papuda. Unida.

Esse episódio revela que, mesmo antes de chegar à Presidência, o capitão já temia passar uns tempos na Papuda. Na época, só ele sabia por quê. Hoje sabemos todos.

Pensando bem – 18

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Na sua aproximação com o Oriente
Bolsonaro mexe com a alma da gente

Desdenhou, desprezou, receitou aspirina
E acabou engolindo a vacina da China

Numa prova de que é mesmo bom de astúcia
Fez o marketing do Telegram da Rússia

O próximo passo vai nos trazer muita sorte:
Bananinha embaixador na Coreia do Norte!