Lula… ambíguo?

O Globo, 8 jul 2023

José Horta Manzano

Li ontem um artigo que discorria sobre a relação mantida por Lula com ditaduras mundo afora, em especial com as latino-americanas. Não contesto o pensamento do autor, o que me incomoda é o título: “Lula é ambíguo com ditaduras”. Não é descrição adequada.

O dicionário esclarece que “ambíguo” é o que desperta dúvida, que admite interpretações diferentes e até contrárias. O comportamento de Lula com relação a qualquer ditadura não é nada ambíguo – é constante, claro e cristalino. Desde quando ele fundou o Foro de São Paulo, trinta anos atrás, sua posição não se moveu nem um milímetro. Todo regime ditatorial desperta sua simpatia.

Há que partir do princípio de que ditadura é ditadura, sem essa de “ditadura de esquerda” ou “ditatura de direita”. Quando se suprimem o direitos dos cidadãos a escolher seus representantes de forma justa, quando a imprensa livre é cerceada ou suprimida, quando a liberdade de ir e vir é entravada, tanto faz que o ditador se proclame de “direita” ou de “esquerda” – sempre ditadura será.

Lula nunca deu o menor sinal de ambiguidade nesse sentido. Nunca escondeu suas simpatias. Com grande desenvoltura, ele outro dia recebeu em palácio o mandachuva da Venezuela.

Ao regressar do Vaticano, pediu, com indisfarçada hipocrisia, que o ditador da Nicarágua libertasse “o bispo”, transmitindo assim um recado do papa. Digo que foi atitude hipócrita porque o mundo inteiro está sabendo que dezenas de membros do clero estão atrás das grades naquele país, todos perseguidos por serem religiosos. Lula, o falso humanista, só falou do “bispo”, com certo enfado, como se os demais não existissem.

A admiração que Luiz Inácio sente por autocratas é forte. Se ainda não foi visitar meia dúzia deles – Putin, Maduro, Ortega, os sucessores dos bondosos irmãos Castro – é porque assessores devem tê-lo retido pela manga.

Não é possível perceber ambiguidade na simpatia que nosso presidente demonstra por ditadores e autocratas em geral. Os Estados Unidos, por seu lado, são o fantasma que vem assombrando sua vida desde a juventude. A forte antipatia que Lula sente pelo grande irmão do norte é palpável, impregnada, inalienável.

Talvez seu cérebro ressentido veja, na proliferação de ditadores ao redor do mundo, uma forma de abalar o país detestado.

Reflexões – 1

José Horta Manzano

A prestação de solidariedade que Bolsonaro fez à Rússia não me sai da cabeça. Ao fazer a jura de submissão diante de Putin, ele esboçou uma reverência, daquelas que se costumam reservar para a rainha da Inglaterra.

Porque que razão ele pronunciou a frase da “solidariedade”, visivelmente ensaiada? Vamos ver.

Putin é o modelo ideal no projeto que o capitão rumina para si. Para Bolsonaro versão 2022, Trump é o passado; o presente se chama Putin. O dirigente russo é a norma, a referência de tudo o que o capitão gostaria de ser. E de ter!

O ditador russo reina sozinho. Os outros poderes são marionetes, todos controlados por ele. O Legislativo vota as leis que Putin determinar. O Judiciário põe na cadeia quem Putin mandar.

A imprensa livre desapareceu. A Nôvaia Gaziêta, último jornal livre, fechou algumas semanas atrás. Adversários políticos e oponentes ao regime desapareceram: ou foram envenenados ou estão passando alguns anos num simpático campo de reeducação na Sibéria.

A tevê aberta é toda estatal e só conta ao povão a verdade putiniana. Um cidadão brasileiro comum está mais bem informado sobre o que ocorre na Ucrânia do que um cidadão russo comum.

É com esse paraíso que o capitão sonha: ter o poder absoluto, como Putin. E também possuir bilhões de dólares, evidentemente. Igualzinho ao autocrata russo.

Mas nossa realidade tupiniquim é diferente. Na minha opinião, a probabilidade de o capitão realizar seu sonho está próxima de zero. Nem mesmo se, por desgraça, fosse reeleito.

Não é angelismo da minha parte. É que nosso andar de cima é amebóide, uma enguia escorregosa que ninguém consegue apreender. Na minha concepção de “andar de cima”, ponho todos: parlamentares, magistrados, militares de alta patente e civis de alta estatura. Todos estão de olho no dinheiro, sim, mas o instinto de sobrevivência fala mais alto. Todos sabem que, com um Bolsonaro ditador, correriam perigo de ir parar atrás das grades.

O capitão pode (e ainda vai) causar estragos enormes ao país, mas não conseguirá implantar sua sonhada ditadura. Bolsonaro é um saco vazio, sem estofo. Sem ajuda, não pára em pé. Só está lá até hoje porque está sendo escorado.

O autocrata e a bomba

José Horta Manzano

O destino de todo autocrata é o isolamento. É a consequência de seu estilo de mando, não há como escapar. Aquele que reina pelo terror não chega a colher reações sinceras dos que o cercam. Receosos de perder benesses, os integrantes do entourage não ousam contradizer o capo, e só lhe dizem sim.

Ao fim e ao cabo, o chefão se vê cada vez mais prisioneiro de uma bolha de aduladores, um grupo fechado onde o debate de ideias não tem lugar. Em tempos de bonança, quando os dias escorrem suavemente e a conjuntura é favorável, essa ausência de diálogo no topo da pirâmide não chega a entravar o andamento da nação. Já quando o céu escurece, o desastre é inevitável. O aprendiz de caudilho atualmente instalado no Planalto já nos deu um antegosto dessa tragédia.

Entre os autocratas do século passado, Saddam Hussein e Adolf Hitler cometeram a loucura de lançar guerra de conquista – o primeiro, sobre o Kuwait; o segundo, sobre a Europa inteira. Não acredito que faltassem bons assessores a nenhum deles. O fato é que, por funcionarem permanentemente em modo terror, inibiam os encarregados de aconselhá-los. Não davam ouvidos nem às tímidas advertências de seus generais mais experientes. Ambos os ditadores acreditavam ser super-homens e estar sempre no caminho certo. Sabemos como terminou a aventura deles.

Faz mais de uma década que o mundo vem acompanhando a ascensão de Vladímir Putin, personalidade de tendência fortemente autocrata. Por meio de cooptação das elites, de corrupção em todos os níveis e de eleições fraudulentas, chegou ao topo da pirâmide. Não tem opositores, todos assassinados ou encarcerados. Governa sozinho, faz o que quer, e ninguém ousa discordar.

Baseado numa análise tosca da geopolítica, achou que era chegada a hora de recobrar a glória perdida do finado Império Russo. Decidiu começar pela Ucrânia. Não levou em conta o fato de que um agressor externo sempre atiça o sentimento de patriotismo e de união nacional do povo agredido. Não percebeu que a invasão da Ucrânia despertaria os mesmos sentimentos entre todos os europeus – o temor de um inimigo comum é maior que querelas entre vizinhos. Não pensou que um sentimento antirrusso tão vigoroso se levantaria no mundo inteiro.

Mandou ver. Imaginou que em de poucos dias estaria tudo dominado. Não deu certo. Seu exército meteu-se num atoleiro. Sua economia está estrangulada. Sua popularidade está em queda. Seu povo periga deixar de confiar nele – suprema desonra para um orgulhoso autocrata. Que resta a Putin?

Resta a ameaça nuclear, que ele não para de mencionar, dia sim, outro também. No entanto, autocrata ou não, aconselhado ou não, o capo do Kremlin sabe que, se ele ousar apertar o botão, estará se expondo a duas consequências.

A primeira é imediata. Caso lance uma bomba atômica sobre a Ucrânia, Moscou periga ser riscada do mapa na meia hora seguinte. Submarinos americanos dotados de mísseis de ogiva nuclear rondam nas cercanias.

A segunda consequência pode até tardar, mas não vai falhar. A atmosfera do globo, imperturbável, vai continuar a se comportar como de hábito, independentemente das vontades de Putin. Já nos anos 1400, os portugueses que se aventuraram em mares nunca dantes navegados se deram conta de que, no Hemisfério Norte, as massas de ar se movimentam no sentido horário, de Oeste para Leste. Por um capricho da geografia, o território russo está situado a Leste da Ucrânia e da Europa.

Assim sendo, bombardear a Europa é como cuspir pra cima: quem comete essa besteira acaba sendo atingido no próprio cocuruto. A onda de contaminação provocada pela explosão atômica será fatalmente carregada pelos ventos e, em pouco tempo, atingirá em cheio a própria Rússia.

É pouco provável que o ditador russo escolha a opção atômica, a menos que tenha perdido, por completo, as faculdades mentais. Se tiver realmente endoidado, só resta uma derradeira esperança: que a camarilha se revolte, enfie o desvairado dentro duma camisa de força e dê um golpe de Estado. Assim, a Terceira Guerra Mundial fica adiada para o dia em que um novo aprendiz de autocrata se apossar do poder na Rússia.