Radioatividade

José Horta Manzano

As propriedades medicinais das águas do município paulista de Lindoia (hoje Águas de Lindoia) já eram conhecidas 350 anos atrás. É que as fontes ficavam no trecho paulista do caminho dos bandeirantes que seguiam em direção às minas gerais e ao planalto goiano.

A fama das águas, cuja radioatividade supera a de qualquer outra fonte conhecida em todo o planeta, chegou ao conhecimento de Madame Marie Curie, única pessoa a ter conseguido a proeza de ganhar dois prêmios Nobel em duas categorias diferentes (Física em 1903 e Química em 1911).

Em 1928, quando de sua visita ao Brasil, a cientista fez questão de passar por Lindoia e medir pessoalmente a radioatividade da água. Essa visita já seria suficiente para encher de orgulho os habitantes da cidade, mas eles têm mais uma razão.

Dia 2 de abril de 1969, três meses antes da partida da missão Apollo 11 em direção à Lua, um misterioso cliente fez uma encomenda numa distribuidora de bebidas carioca. Comprou 100 dúzias de garrafas de meio litro de água Lindoia. A nota fiscal foi extraída em nome da Missão N. Americana, Cabo Kennedy, EUA, e o total deu 226 cruzeiros novos. A mercadoria seguia para o Aeroporto Santos Dumont em caixas com tampa para viagem.

Ninguém tem certeza absoluta de que o reservatório de água da cápsula espacial foi enchido com água mineral de nossa terra. A Nasa, consultada, nunca respondeu. E nunca responderá, imagino.

O povo de Lindoia acredita firmemente na viagem espacial de suas águas. Para quem também acredita, fica a ideia de que os astronautas, ao fazer pipi, tenham encharcado o solo lunar com água brasileira.

(Ilusão boba. Pipi de astronauta é trazido de volta à Terra. Mas não precisa contar pra ninguém porque estraga o prazer.)

Com informações do artigo publicado pelo G1 em 7 jul 2017.

A small step for man

José Horta Manzano

Você sabia?

Literalmente, a máxima italiana “traduttore, traditore” quer dizer “tradutor, traidor”. Na prática, deve ser entendida como “traduzir é trair”. Muitas vezes, corresponde à realidade. Uma tradução, ainda que esmerada, pode não transmitir exatamente a intenção do autor. Isso ocorre principalmente quando o contexto é intraduzível. Por exemplo, nossa palavra saudade costuma dar dor de cabeça a tradutores, porque é difícil achar correspondente exato em outras línguas. O tradutor, nessa hora, será necessariamente um ‘traidor’, faça o que fizer.

Há casos, no entanto, em que a ‘traição’ melhora o original. Nestes dias em que se comemora o 50° aniversário do primeiro pouso de um homem na Lua, as imagens do evento vêm sendo repetidas, com insistência, por toda a mídia. No meio de um chuvisqueiro cinzento, aparece a vaga silhueta de um astronauta descendo uma escadinha e firmando o pé no solo lunar. Nessa hora, no meio de um chiado de fazer inveja a tacho de fritura de manjuba, vem a voz anasalada: «A small step for man, a giant leap for mankind».

Mr. Armstrong, o astronauta que pronunciou a frase, estava visivelmente emocionado. Apesar de ter ensaiado com afinco, atrapalhou-se na hora e pulou uma palavra. Era uma palavrinha curtinha, à toa, mas faz toda a diferença. Devia ter dito: «A small step for a man, a giant leap for mankind», que se traduz por «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade». Do jeito que ele pronunciou, sem o a, a sentença ficou aleijada, capenga. Sem o artigo, a palavra “man” deixou de significar “um homem” para designar a humanidade. Assim, a frase pronunciada foi: «Um pequeno passo para a humanidade, um salto gigantesco para a humanidade» – o que, convenhamos, fica pra lá de esquisito.

Foi aí que entraram em ação os tradutores. Desta vez, traíram. Consertaram o soluço de Mr. Armstrong. Até hoje, em toda transcrição brasileira, a frase aparece correta, bonita e com sentido. Curiosamente, os americanos preferiram manter fidelidade ao original. Pode conferir no Google. Continuam a transcrever a frase sem o pequenino a.

A aventura de julho de 1969 foi bem sucedida, mas a frase gravada no mármore da história está torta. Para todo o sempre.