A small step for man

José Horta Manzano

Você sabia?

Literalmente, a máxima italiana “traduttore, traditore” quer dizer “tradutor, traidor”. Na prática, deve ser entendida como “traduzir é trair”. Muitas vezes, corresponde à realidade. Uma tradução, ainda que esmerada, pode não transmitir exatamente a intenção do autor. Isso ocorre principalmente quando o contexto é intraduzível. Por exemplo, nossa palavra saudade costuma dar dor de cabeça a tradutores, porque é difícil achar correspondente exato em outras línguas. O tradutor, nessa hora, será necessariamente um ‘traidor’, faça o que fizer.

Há casos, no entanto, em que a ‘traição’ melhora o original. Nestes dias em que se comemora o 50° aniversário do primeiro pouso de um homem na Lua, as imagens do evento vêm sendo repetidas, com insistência, por toda a mídia. No meio de um chuvisqueiro cinzento, aparece a vaga silhueta de um astronauta descendo uma escadinha e firmando o pé no solo lunar. Nessa hora, no meio de um chiado de fazer inveja a tacho de fritura de manjuba, vem a voz anasalada: «A small step for man, a giant leap for mankind».

Mr. Armstrong, o astronauta que pronunciou a frase, estava visivelmente emocionado. Apesar de ter ensaiado com afinco, atrapalhou-se na hora e pulou uma palavra. Era uma palavrinha curtinha, à toa, mas faz toda a diferença. Devia ter dito: «A small step for a man, a giant leap for mankind», que se traduz por «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade». Do jeito que ele pronunciou, sem o a, a sentença ficou aleijada, capenga. Sem o artigo, a palavra “man” deixou de significar “um homem” para designar a humanidade. Assim, a frase pronunciada foi: «Um pequeno passo para a humanidade, um salto gigantesco para a humanidade» – o que, convenhamos, fica pra lá de esquisito.

Foi aí que entraram em ação os tradutores. Desta vez, traíram. Consertaram o soluço de Mr. Armstrong. Até hoje, em toda transcrição brasileira, a frase aparece correta, bonita e com sentido. Curiosamente, os americanos preferiram manter fidelidade ao original. Pode conferir no Google. Continuam a transcrever a frase sem o pequenino a.

A aventura de julho de 1969 foi bem sucedida, mas a frase gravada no mármore da história está torta. Para todo o sempre.

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