É assim que todos perdemos

Sérgio Rodrigues (*)

O que aconteceu no Rio de Janeiro na última terça-feira (28) devia ficar em nossa história como um marco, “o 28 de outubro”. O dia em que chegou a um patamar inédito de clareza e dor – o Rio sempre na vanguarda – a tragédia da segurança pública no Brasil.

Esse promete ser um dos grandes temas da eleição presidencial do ano que vem, dizem, e parece justo que seja. O que não é necessariamente uma boa notícia. Se precisamos nomear bem as coisas antes de resolvê-las, “segurança pública” é um pântano semântico.

Com muita facilidade esquecemos ou fingimos não ver aquilo que, de tão óbvio, se torna elusivo – que o problema tem raízes na forma como nossas elites sempre delegaram a instituições violentas, das milícias do Império às atuais polícias militares, a tarefa de lidar com a massa de despossuídos fermentada em séculos de escravidão.

Educar, empregar, incluir? Nem pensar. Bater, confinar e matar, isso sim. A “segurança pública” no Brasil nasceu como a segurança de quem tinha posses – a dimensão “pública” era sua inimiga. Sendo desmedida nossa desigualdade social, descomunal tinha de ser a violência empregada na tentativa de domar seus efeitos.

Só que essas coisas não são domáveis. A brutalidade primordial antipreto e antipobre que foi uma das vigas mestras da nação brasileira começou a inflamar, a infeccionar, e evoluiu para uma sepse. Hoje as palavras soam como eufemismos covardes: açougueiros são chamados de governadores, e um massacre com 120 mortos em um só dia, de “operação policial”.

A rotina de violência para a qual desenvolvemos uma tolerância doentia, incompatível com qualquer projeto nacional decente, virou solo fértil para que prosperassem modelos amalgamados de bandidagem, negócios e poder político, a tal ponto que o mal se entranhou no tecido da sociedade – empresas, instituições, governos, parlamentos.

Eis por que uma eleição presidencial pode não ser o melhor foro para debater a questão. Fixada naquela injustiça social originária, a esquerda tem imensa dificuldade de sequer enunciar o problema, enquanto a direita, sempre dobrando a aposta na exclusão e no extermínio com fins eleitoreiros, está condenada a agravá-lo.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Texto integral
(para assinantes da Folha de S.Paulo).

Recordar é viver

Elio Gaspari (*)

Os ministros do Supremo Tribunal Federal que tiveram seus vistos cassados talvez não lembrem, mas estão em ilustre companhia.

Em 1971, sabe-se lá por quais meios, o Dops paulista registrava que um perigoso subversivo “desenvolve grande atividade a fim de visitar os Estados Unidos. Contudo, não lhe será concedido o visto de entrada.”

Em 1977, durante o governo de Jimmy Carter, um jovem assessor do presidente pediu que o nome do subversivo fosse retirado da lista de indesejáveis nos Estados Unidos. Foi atendido e pouco depois, Robert Pastor acompanhou Fernando Henrique Cardoso numa visita à Casa Branca. Pastor tinha tamanha intimidade com Carter que levava visitantes ao Salão Oval (vazio).

Em 1995, com visto e passaporte diplomático, o subversivo desceu em Nova York e ouviu queixas porque o governo do Brasil havia sobretaxado em 70% as importações de automóveis americanos.

Tempos mudam, lá e cá.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

O jubileu de prata de Putin

Gianluca Mercuri (*)

Há exatos vinte e cinco anos, Vladimir Putin assumiu o poder na Rússia. Ele já havia sido presidente interino por quatro meses após a renúncia de Boris Yeltsin. Mas em 26 de março de 2000, ele venceu sua primeira eleição presidencial.

O quarto de século que se seguiu transformou a Rússia, esse imenso, maravilhoso e terrível país. Varreu as ilusões de paz da Europa, de um “fim da história” marcado pela vitória incontestável do Ocidente e uma convergência da Rússia e da China em direção aos benefícios do desenvolvimento econômico global, do comércio pacífico e de uma ordem mundial compartilhada. Isso trouxe a guerra de volta ao nosso continente, a ponto de assustar sua parte mais rica, democrática e estável. Essa parte somos nós.

Aqui está o que Putin fez em seus cinco anos no poder:

* Ele estancou brutalmente a perda de territórios da antiga URSS, com a segunda e mortal guerra na Chechênia (a primeira havia sido em 1994-96): em 10 anos, 50.000 mortos, dezenas de milhares de refugiados e a capital, Grozny, descrita em 2003 pela ONU como “a cidade mais devastada do mundo”.

* Ele tem eliminado sistematicamente todos os oponentes: o primeiro da lista foi o magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, preso em 2003, antes que pudesse desafiar o chefe. Em 2006, o assassinato da jornalista Anna Politkovskaya e do ex-oficial de inteligência Aleksandr Litvinenko. Em 2015, o assassinato do rival Boris Nemtsov e, em 2024, a morte de Aleksej Navalny numa prisão na Sibéria. Esses são apenas os nomes mais conhecidos; milhares foram parar na prisão.

* Ao agarrar-se ao Kremlin, ele rasgou a primeira constituição democrática da história da Rússia. Reeleito em 2004, não pôde concorrer novamente em 2008, mas fez com que o leal Dmitri Medvedev fosse eleito presidente; assumiu então o lugar de premiê. Em seguida, aboliu o limite de dois mandatos e ampliou sua duração de quatro para seis anos. Ele é presidente novamente desde 2012 e pretende concorrer novamente em 2030, depois de ter obtido cerca de 90% dos votos no ano passado.

* Ele respondeu com guerra a todas as tentativas feitas pelos países vizinhos de se aproximarem da Europa: em 2008, atacou a Geórgia; em 2014, a Ucrânia, após o levante antirrusso na Praça Maidan. Naquele ano, conquistou a Crimeia.

* Em fevereiro de 2024, atacou novamente a Ucrânia de forma brutal, dessa vez com uma invasão em grande escala, com a qual imaginava poder submeter Kiev em poucos dias. Depois de três anos, ainda não venceu formalmente a guerra, graças à resistência dos agredidos, com a ajuda dos EUA e da Europa. Isso foi até o retorno de Donald Trump.

* Teorizou e impôs a ferro e fogo o direito da Rússia de impedir escolhas autônomas por parte de seus vizinhos, com base no pressuposto de que a europeização deles seria uma ameaça à sua segurança.

* Ele ressuscitou o mito da “Terceira Roma de Moscou”, já cultivado por Ivan III, o Grande, no século XV: isso significa que a Rússia se autoproclama madrinha do cristianismo e dos valores tradicionais, ainda mais diante da “decadência” do Ocidente, que, nessa visão, seria devida à contaminação da sociedade por valores seculares e progressistas. Seu conservadorismo social e autoritarismo político fizeram dele o ídolo dos direitistas do mundo.

Hoje, Vladimir Putin está comemorando seu jubileur de prata no poder com uma trégua no conflito ucraniano acertada com os americanos, limitada à infraestrutura de energia e ao Mar Negro, e que, portanto, parece beneficiar principalmente o país agressor.

(*) Gianluca Mercuri é jornalista. Este artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera.

Amigo cidadão

Cristovam Buarque (*)

[A esquerda brasileira] não percebeu que uma utopia possível e necessária consiste em acenar com um sistema nacional de educação com qualidade e equidade, independentemente da renda e do endereço, filhos de pobres e ricos na mesma escola com qualidade entre as melhores do mundo.

Além da visão do capital monetário, não percebeu os tempos do capital conhecimento, por isso prefere apoiar greves dos trabalhadores da educação a apoiar os interesses dos alunos. Prefere continuar como o partido do sindicato de professores em vez de ser o partido da educação.

(*) Cristovam Buarque (1944-) é professor emérito da Universidade de Brasília. A integralidade deste artigo está no Correio Braziliense. Clique aqui.

Asdfg çlkjh!

Ruy Castro (*)

A moça do outro lado da mesa na agência bancária está me abrindo uma conta. À sua frente, o computador. Digita sem olhar, enquanto me pergunta sobre aplicativos, senhas, tokens e outros mistérios da vida contemporânea. Os dedos, cheios de anéis e com longas unhas, talvez artificiais, teclam a uma velocidade que, nas antigas escolas de datilografia, renderia prêmios ao aluno. Não vacila, não erra uma letra. Eu apenas observo e me espanto porque, com o dobro de anos de teclado do que ela de vida, às vezes o dedo escorrega, bato em falso e sou obrigado a corrigir.

Nos idos do século 20, sempre que alguma chatice me obrigava a ir a uma repartição pública, eu me via micado no balcão enquanto um funcionário catava milho na máquina de escrever para preencher um formulário. Aquela era a profissão do sujeito, e ele não estava preparado para a simples missão que tinha de executar: datilografar um texto. A ninguém ocorria agilizar o serviço pagando-lhe um curso de datilografia, do qual, em poucas semanas, até com o teclado coberto, ele executaria a jato o

Asdfg çlkjh asdfg çlkjh asdfg çlkjh
Asdfg çlkjh asdfg çlkjh asdfg çlkjh
Asdfg çlkjh asdfg çlkjh asdfg çlkjh.

Sendo a máquina de escrever a única alternativa mecânica à escrita manual, e estando presente em repartições de todos os tipos, eu me perguntava por que, desde a escola, não se ministravam cursos de datilografia aos estudantes. Seria uma disciplina como as outras, com provas parciais e finais, notas vermelhas para quem não aprendesse direito e possível bomba no fim do ano.

Bem, isso nunca foi feito. E, a partir dos anos 1990, deixou de precisar. Assim que se viram diante do teclado do computador – o mesmo que o das velhas Remingtons e Olivettis –, as pessoas começaram a nascer já sabendo digitar.

Asdfg!

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado na Folha de SP.

Conto de Natal para o ano todo

Osvaldo Molles (*)

Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento.

E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E, o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse:
― Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.

Veio um boi. Um boi que, segundo o Dicionário de Caldas Aulete, «serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem». Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
― O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai… e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que tinha de meu: meu pobre alento.

Veio uma cabra-montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
― Eu Lhe dei o leite de meu filho.

Veio, depois, uma ovelha, macia como reza de criança. No perfil trácio, trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
― Nada Lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-Lhe muito pouco: apenas meu calor.

Veio um jumento sisudo e muito percorrido, desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento muito velho e usado que conhece muito bem a História. Disse:
― Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.

Veio o peixe e disse:
― Eu saltei para o barco de Pedro. Eu Lhe dei a fé.

Veio o grão de trigo e falou:
― Eu me multipliquei quando Ele mo pediu. Dei-Lhe a ceia.

Veio a água ingênua e disse:
― Eu me transformei em vinho. Dei-Lhe meu sangue.

E veio o homem. O homem sábio ― o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é o rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
― Eu Lhe dei a cruz.

(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.

Problema do governo não está na comunicação

Elio Gaspari (*)

A ekipekonômica e o Planalto fizeram um pacote mal-ajambrado, tentando embrulhar uma vassoura, bananas e uma gaiola, o dólar passou os R$ 6, e o problema estaria na comunicação.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

Idiota à brasileira

 

 

Adriano Silva

Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa. Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes no shopping. É o casal que atrasa uma hora para um jantar com amigos. As regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor que os outros. É um adepto do vale-tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista pra caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera do vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso”. O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre.

E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho – preocupação com ter as contas em dia, afinal, é coisa de pobre. O PIB também é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material o levam a roubar roupão de hotel, garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade pra valer.

Trump, Lula & Milei

Eliane Cantanhêde (*)

Além de convidar Bolsonaro para a posse, Trump deixa no ar que não vai atender a ligação de Lula nem convidá-lo. E mais: o primeiro presidente estrangeiro que pretende receber é Javier Milei. Pela importância dele e da Argentina? Ou para espicaçar Lula, do principal país da América Latina?

A manifestação de Lula a favor de Kamala Harris, em nome da democracia e às vésperas da eleição, pode ter dado uma pitada a mais de acidez nas relações entre Lula e Trump, mas, com ou sem essa pitada, estava claro e precificado que a convivência dos dois já tinha irremediavelmente azedado. O aliado de Trump no Brasil é Bolsonaro, ponto.

(*) Eliane Cantanhêde é jornalista. O texto acima é parte de artigo publicado no Estadão de 10 nov° 2024.

Como discutir com uma criança bêbada

Ricardo Araújo Pereira (*)

O que gera maior perplexidade, no discurso de Donald Trump, é que tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos ouvindo uma criança bêbada – uma ideia muito perturbadora.

Tudo é tremendo: “Os maiores comícios de sempre”, “eles cometeram a maior fraude de todos os tempos”, “nunca ninguém viu nada assim”.

Há também o recurso de argumentos de autoridade pueris: “Todo o mundo sabe que eles são mentirosos”, “muita gente tem me dito que eu sou mesmo bom”.

E por fim temos os argumentos do mundo da fantasia: “Eles matam bebês recém-nascidos”, “os imigrantes estão comendo cães em Springfield, Ohio”.

Em ambos os casos, os jornalistas intervieram dizendo que não há um único Estado americano em que seja legal matar bebês recém-nascidos” e que as autoridades de Springfield afirmam não haver qualquer relato fidedigno de rapto e ingestão de animais de estimação por imigrantes naquela cidade. O problema é que desmentir uma criança bêbada é uma tarefa complexa.

Contrapor fatos a fantasias não funciona. Fatos e fantasias são unidades monetárias de países diferentes – ou, talvez melhor, de planetas diferentes. Quando uma criança nos pergunta por que é que o Papai Noel ainda não chegou, nós não avançamos com fatos sobre a inexistência do Papai Noel. Compomos uma história em que o Papai Noel, aos comandos do seu trenó voador, tem de fazer paradas em várias casas de outras crianças antes de chegar à nossa.

O ideal, por isso, não é apresentar depoimentos oficiais que negam a ideia de que os imigrantes se dedicam a comer os animais de estimação dos residentes em Springfield. O que há a fazer é mostrar um documento segundo o qual os imigrantes têm, de fato, cozinhado animais de estimação, mas apenas no caso em que esse animal é um dragão. E juntar algumas receitas de arroz de dragão, moqueca de dragão etc.

A criança fica estupefata por duas razões: por verificar que a nossa capacidade de fabulação é superior à dela; por ser obrigada a reconhecer que aquilo de que se queixava é, afinal, uma coisa boa.

Matar dragões é geralmente entendido como positivo. É a atividade mais heróica de sempre. Nunca ninguém viu nada assim.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Por que os gringos odeiam farofa?

Marcos Nogueira (*)

Se houvesse uma Copa do Mundo da comida, que prato representaria o Brasil?

O Japão chegaria forte com o sushi. Os Estados Unidos escalariam o hambúrguer. A Itália, grande potência nesse esporte, levaria a pizza.

Aqui na América do Sul, o Peru seria bastante competitivo com o ceviche. E nós? Que comida é a cara do Brasil para o resto do mundo? Já tentamos muitas vezes emplacar a feijoada como prato nacional, mas há de se admitir que ela é um péssimo produto de exportação.

Vários de seus ingredientes só existem no Brasil. O negócio, convenhamos, não tem uma aparência assaz atraente. As partes menos populares do porco criam rejeição automática numa parcela considerável da humanidade.

O que realmente pegou no estrangeiro foi o rodízio de churrasco. Tem rodízio brasileiro em qualquer cidade grande dos EUA e da Europa. Aí surgem alguns complicadores. Primeiro, churrasco não é um prato: é um método de preparar comida, existente em toda sociedade que conheça o fogo. Segundo, rodízio é somente um sistema de serviço.

Por último, mas não menos importante, a churrascaria rodízio só faz sucesso no exterior. Aqui, onde foram enormes nos anos 1990, já estão em declínio há bastante tempo. O rodízio não representa o Brasil destes dias.

O que sobra? Pão de queijo? Não é prato, é merenda para comer com café. Açaí? Poupe-me.

A farofa merece exame mais detalhado. Está presente no Brasil todinho, com um sem-número de variações possíveis. A farinha de mandioca tem seus trocentos subtipos: grossa, fina, finíssima, flocada, farinha d’água, farinha crua, farinha torrada. Mas também dá para fazer farofa de milho ou de pão velho.

Da banana ao ovo, da uva-passa aos miúdos de frango, a farofa aceita qualquer complemento.

A farofa é genuinamente nacional. Isso pode ser encarado como uma vantagem – a identidade única – ou como um empecilho para transcender a brasilidade.

Não conheço nenhum gringo que goste de farofa. Todos a acham seca, não veem sentido naquele montinho de farelos áridos. A farofa nasceu da necessidade de preservar alimentos no calor lazarento que faz no Brasil. Menos água significa um ambiente hostil para bactérias.

Fica seco, mas a gente mistura com feijão, com vinagrete, pega líquido de outra comida qualquer. E a gente adora a textura crocante. Enfim, a farofa não teria chance na hipotética Copa das comidas. Mas ainda bem que comida não é competição.

Se os gringos não querem farofa, o azar é deles.

(*) O jornalista Marcos Nogueira é colunista da Folha de São Paulo.

Candidato a prefeito, em tempos idos, numa cidade do Ceará

Gaudêncio Torquato (*)

Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque: “Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês”. E foi.

(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e colunista.

Marçal, Bolsonaro ao cubo

Ruy Castro (*)

Primeiro, a má notícia: estamos ameaçados de ter Pablo Marçal como presidente. Agora, a boa notícia: ficaremos livres de Bolsonaro para sempre.

É dos casos em que uma notícia não compensa a outra. Bolsonaro, por exemplo, não está achando graça em nenhuma das duas. Ao acompanhar atônito a escalada de Marçal rumo à, por enquanto, Prefeitura de São Paulo, consegue identificar e até antecipar cada movimento dele. Sabe muito bem como a história vai terminar —na qual ele, Bolsonaro, morre no final. Na verdade, seu enterro já saiu.

Bolsonaro está ciente de que Marçal, que aprendeu tudo com ele em violência e estupidez, vai esmagar seu opaco candidato Ricardo Nunes. Isso o obrigará a jogar Nunes aos cães, como fez com muitos outros, e, para sobreviver politicamente, juntar-se a Marçal, levando seus filhos hoje reduzidos aos zeros. Marçal talvez aceite o apoio, pela massa de votos bolsonaristas que isso lhe pode trazer. Mas, do jeito que as coisas vão, Marçal poderá ter esses votos jogando parado e ele próprio chutar Bolsonaro aos abutres. O que será bem feito, mas que vantagem levará nisso a democracia?

Bolsonaro abriu a porta do inferno para Marçal. Antes dele, Jânio Quadros, com a caspa na lapela, e Fernando Collor, a bordo de seus jet skis, já tinham sido eleitos em nome da antipolítica. Bolsonaro foi além. Estuprou o decoro presidencial, cuspiu na cara da nação, corrompeu meio mundo e deu shows diários de desumanidade, tudo para consolidar o espírito da antipolítica junto aos pacóvios.

Pois Marçal é Bolsonaro ao cubo —faz antes da eleição o que Bolsonaro só ousou fazer de faixa. Desmoraliza o processo eleitoral, zomba de suas condenações criminais, devolve os epítetos de bandido e ladrão, chama todo mundo para a briga e define seus eleitores como idiotas, para deleite deles. É Bolsonaro sem filtro e sem meias palavras.

Já chamam Marçal de demente e descontrolado. Mas não há demência nem descontrole. Cada palavra, cada ofensa, cada gesto é calculado. Conhece seu gado, sabe o que quer e como chegar. Comparado a ele, Bolsonaro é um amador.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado na Folha de SP.

Conservadores atacam Moraes…

Sergio Denicoli (*)


Conservadores atacam Moraes, mas deixam STF no controle ao ignorar regulação da internet


Há muitos políticos surfando na onda da falta de regulação da Internet. São pessoas que bradam à liberdade sempre que o STF toma alguma decisão referente ao mundo online, sobretudo envolvendo as redes sociais. Mas o que eles não dizem é que estão sendo, no mínimo, hipócritas e oportunistas.

Eles certamente sabem que, quando não há uma lei clara, cabe ao Supremo criar jurisprudências. Essa é uma das tarefas primordiais da Corte. Ou seja: sem uma regulação das redes, é função de Alexandre de Moraes e dos demais ministros definirem o que vale e o que não vale.

Portanto, se há abusos, a culpa é de quem se faz de indignado para ganhar votos, mas não coloca a mão na massa para que o Brasil possa ter uma legislação clara sobre o ambiente digital.

(*) Sergio Denicoli é pós-doutor, escritor e colunista.

Este texto é parte de artigo publicado no Estadão. Aqui (para assinantes)

Manifesto Constitucionalista

Conrado Hübner Mendes (*)

A marcha do retrocesso entrou numa nova fase. Descobriram estar fácil esvaziar ou destruir a Constituição sem mudar seu texto, sem decretar formalmente seu fim. O plano de liquidação de ativos constitucionais se expressa, por um lado, numa tenebrosa agenda legislativa. Por outro, por arranjos informais entre os Poderes que rejeitam institucionalidade.

No varejo cotidiano de nossas indignações, perdemos de vista a magnitude do projeto: turbinar o colapso climático, multiplicar o fogo e o desmatamento, privatizar acesso a praias, anistiar golpistas, militarizar escolas, milicianizar polícias, legalizar milícias, armar milicianos, prender meninas estupradas e aliviar pena do estuprador de meninas, violentar indígenas, afagar milicos, desinvestir em direitos, transformar a família constitucional em família colonial e patriarcal. Transformar jurisdição em negociação de direitos indisponíveis, legislação em alocação clientelista de orçamentos secretos, sufocar capacidade governamental do Executivo.

(*) Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e em Ciência Política.

Este texto é parte de artigo publicado na Folha de S.Paulo. Aqui (para assinantes)

O genial ministro de Belíndia

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense
via Correio Braziliense

Christovam Buarque (*)

Apesar de sua genialidade, Delfim e demais economistas “de direita” consideram que a baixa qualidade de nossa educação é consequência do subdesenvolvimento, e não que o subdesenvolvimento é consequência da baixa qualidade e da desigualdade como a educação é oferecida; por sua vez, os economistas “de esquerda” consideram que a educação de base só será bem distribuída quando a renda for bem distribuída, não que a boa distribuição de renda depende do acesso isonômico de toda população à educação de qualidade, independentemente da classe social da criança.

(*) Christovam Buarque é professor emérito da Universidade de Brasília

Este é trecho de artigo publicado no Correio Braziliense. O texto integral está aqui.

Brasília é uma usina de reciclagem de erros

Elio Gaspari (*)

Com a reforma tributária na reta final, os carros elétricos entraram, ao lado do tabaco e das bebidas alcoólicas, na lista dos produtos que pagarão o “imposto do pecado”. Em tese, esse imposto recairá sobre mercadorias que fazem mal à saúde ou agridem o meio ambiente. Ganha um fim de semana num incêndio do Pantanal quem souber o que um carro elétrico tem a ver com isso.

As montadoras nacionais fazem o que podem contra os carros elétricos, valendo-se do trânsito de que dispõem pelo corredores de Brasília, mas desta vez exageraram.

Uma reforma tributária que pretende ser racional acabou acordando o velho monstro do atraso. A sabedoria convencional ensina que tendo sido um dos últimos países a abolir a escravidão (em 1888), Pindorama tem um pé no atraso.

A coisa é pior. Até 1850, o andar de cima nacional estava amarrado ao contrabando de africanos escravizados, uma atividade supostamente ilegal desde 1831.

Admita-se que isso é coisa de um passado remoto, mas o atraso está sempre por aí.

Em 1978, a Associação dos Supermercados excluiu de seu quadro social a rede Carrefour porque ela aceitava pagamentos com cartões de crédito. Nessa época, burocratas e espertalhões criaram um regime pelo qual era mais fácil entrar no Brasil com um pacote de cocaína do que com um computador.

Encrenca-se com os carros elétricos em nome de uma proteção ao parque industrial das montadoras. Trata-se de uma jovem indústria, septuagenária e anacrônica. Enquanto fábricas reinventam-se pelo mundo afora, no Brasil fala-se em importar linhas de montagem de veículos a gasolina desativadas pelo progresso. Seria o ProSucata.

Em 2003, os maganos das montadoras viviam muito bem quando um jovem chamado Elon Musk se meteu no mercado de carros elétricos e criou a Tesla. A China foi na bola e hoje suas montadoras têm a maior fatia do mercado mundial.

Quando Juscelino Kubitschek dirigiu o primeiro carro saído de uma montadora de São Paulo, os chineses andavam de bicicleta. Em matéria de fazer besteiras, a China batia o Brasil de longe. Pindorama tinha JK, quando a China teve o Grande Salto de Mao Tsé-Tung, com dezenas de milhões de mortos de fome.

Os dois países diferem em muitas coisas, mas a China consegue abandonar as ideias erradas. Enquanto o Brasil recicla-as.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado na Folha de SP.

Venezuela, um narcoestado

Roberto Saviano (1979-) é um escritor, jornalista e cineasta italiano. Nascido em Nápoles, cresceu ouvindo relatos dos horrores praticados pelas máfias. Interessou-se pelo assunto e, durante anos de muita pesquisa, inteirou-se de minúcias daquele submundo, segredos conhecidos por quase ninguém do lado de fora.

Em 2006, escreveu o livro “Gomorra”, uma vibrante denúncia dos métodos mafiosos. Como se pode imaginar, seus escritos provocaram a ira dos membros de Cosa Nostra, ‘Ndrangheta & afins. Desde então, jurado de morte, é obrigado a levar vida nômade, como se fosse um fugitivo, trocando de endereço com frequência, uma vida de sufoco. Conta com proteção policial fornecida pelo Estado italiano 24 horas por dia.

O artigo que reproduzo abaixo, assinado por ele e publicado no Corriere della Sera, relata a real natureza mafiosa do regime bolivariano conduzido por Nicolás Maduro em nossa vizinha Venezuela. Não são suposições, são a constatação de um perito no assunto.

Fica aqui para quem ainda sentir um restinho de simpatia pelo “pai dos pobres” de Caracas.

A tradução é deste escriba.

 

 

Os dois sobrinhos de Maduro, símbolo da terra dos narcos

Roberto Saviano

Foi em 10 de novembro de 2015 que Efraín Campo Flores e Francisco Flores, de 30 anos, foram presos pelo esquadrão antidrogas dos EUA no Haiti, onde tinham ido receber a primeira parcela de um pagamento de US$ 11 milhões para enviar 800 quilos de coca para Honduras, com destino ao mercado mais exigente do mundo: Nova York.

Os primos Flores são sobrinhos da esposa de Nicolás Maduro, Cilia Flores, filhos de suas duas irmãs. Efraín é chamado de filho adotivo do casal, vive com frequência na residência presidencial e é próximo à administração do poder político de Maduro. Os “narcosobrinos”, como agora são chamados, tinham acesso ao hangar presidencial localizado na Rampa 4 do Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, e usavam aviões particulares para transportar cocaína pela América do Sul.

Eles foram descobertos graças a um infiltrado. Esses 800 quilos de coca pura cortada a 25% (qualidade superior) se transformariam em 3.200 quilos que, vendidos em Manhattan, teriam rendido entre US$ 89mi e US$ 100mi de dólares. Os sobrinhos de Maduro, no entanto, haviam acertado o valor de 20 milhões de dólares e, antes de serem presos com a boca na botija, estavam recebendo apenas um sinal de US$ 11 milhões. Era o adiantamento que eles estavam pedindo antes de enviar a mercadoria.

Quem delatou? Um homem do cartel que, nos últimos anos, esteve mais intimamente ligado ao regime de Maduro: o cartel de Sinaloa, comandado pela diarquia de El Chapo Guzmán e El Mayo Zambada (que acaba de ser preso após anos de fuga). O narcotraficante José Santos Peña foi o homem que abarrotou Maduro com o dinheiro dos narcotraficantes. Uma vez preso, ele esperava, ao fornecer todas as informações sobre a política venezuelana, ver sua sentença reduzida. No tribunal, ele traz provas e o infiltrado do DEA traz principalmente áudios em que os dois contam como o governo venezuelano administra a coca dos cartéis, como eles precisam de dinheiro para apoiar campanhas eleitorais, comprar votos, pagar os militares. Efraín se referiu a Cilia Flores como “sua mãe”.

No final do julgamento, Efraín Campo Flores e Francisco Flores, os sobrinhos de Maduro, foram condenados a 18 anos de prisão. Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte, abaixo apenas do chefe do governo (Maduro), começou a falar em “sequestro dos meninos” pelos americanos, mas durante o julgamento veio à luz a informação de que ele próprio era o chefe do “Cartel de los Soles”, um grupo de oficiais de alta patente do exército venezuelano acusado de controlar o tráfico de cocaína.

Os dois sobrinhos passaram menos de cinco dos 18 anos na prisão, porque Maduro começou a prender, sob pretextos variados, cidadãos norte-americanos. Cinco só em 2017: eles estavam em uma conferência da empresa nacional de petróleo da Venezuela e foram presos por roubo. Depois, prenderam em um posto de controle um ex-fuzileiro naval e um homem que estava visitando sua namorada. Por fim, Biden decidiu perdoar os dois sobrinhos em troca da libertação dos cidadãos americanos. Os sobrinhos do narcotráfico estão em casa.

Não há melhor maneira de ocultar tráfico e corrupção do que o manto da revolução. Falar de justiça social desvia a atenção dos negócios criminosos, e a melhor maneira de construir uma rede de traficantes é chamar a atenção para a paz, a solidariedade e a luta contra o imperialismo. Isso traz vantagens estratégicas e também proteção da mídia, uma vez desvendada a tramoia, para poder proclamar ao mundo que tudo não passa de manipulação ianque.

É assim que o mundo funciona, estamos cientes disso. No entanto, é deveras curioso que em todos esses anos, especialmente simpatizantes de esquerda, tenham realmente acreditado que o sistema bolivariano venezuelano, corroído e corrompido até as tripas, fosse outra coisa além de um Estado-Máfia. Enquanto dizia ao mundo que se opunha às guerras, prestando solidariedade a Putin e aos povos explorados, Nicolás Maduro transformava a Venezuela no centro mundial do tráfico de cocaína, o lugar para armazenar e despachar cocaína para todos os cantos do planeta.

As investigações do DEA mostram que os portos venezuelanos estão completamente nas mãos dos cartéis e que o gerenciamento das remessas emana diretamente das autoridades políticas. Diante das evidências, a resposta é sempre a mesma: é tudo propaganda americana. No entanto, há vários arrependidos delatores – entre eles Leamsy Salazar, chefe da segurança de Chávez – que forneceram provas de como a Venezuela é um narcoestado. Salazar resolveu delatar depois de ser desmascarado pelo DEA. Quando alguém é desmascarado e não é parente de Maduro, acaba na cadeia para que o governo possa dizer que é apenas uma maçã podre, não um sistema…

A Venezuela é um narcoestado, a cocaína permite a entrada do dinheiro perdido com a crise de produção de petróleo. Os homens de Chávez eram todos ligados ao petróleo, os homens de Maduro estão mais próximos do narcotráfico. Em resposta a Barack Obama, o braço direito de Maduro, Diosdado Cabello, disse: “Sim, somos uma ameaça porque somos socialistas, somos uma ameaça porque somos revolucionários, somos uma ameaça porque somos chavistas, somos uma ameaça porque queremos que o povo viva em paz!

Tudo isso é balela retórica daqueles que destruíram um país, distorceram e desgastaram os ideais socialistas. Aqueles que de verdade acreditam nesses traficantes em nome da ideologia estão apenas criando uma cortina de fumaça para defender os negócios deles.

Pega ladrão!

Ruy Castro (*)

Durante três anos de Bolsonaro, chamei-o de corruptor. De corruptor, não de corrupto. Embora fosse evidente sua prática de comprar o Exército para costurar o regime de força que viria no segundo mandato, não se sabia que roubasse além da prática familiar da rachadinha, que lhe rendeu mais de 50 imóveis. Só quase no quarto ano percebi o óbvio: não existe corruptor sem corrupção. Bolsonaro não estava usando seu dinheiro para subornar os militares. Estava usando dinheiro do Estado, e isso é corrupção.

Alguns dirão que, diante das facilidades da Presidência, Bolsonaro viu a oportunidade de meter a mão, como no caso das joias. É a velha ideia de que a ocasião faz o ladrão. Mas Machado de Assis, em seu romance “Esaú e Jacó” (1904), já corrigiu esse equívoco: “A ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito”. A prova é que, manipulando os bilhões do Orçamento à sua vontade, Bolsonaro foi apanhado pungando objetos que poderia muito bem comprar, e até com dinheiro vivo, como de praxe nos Bolsonaros.

Bolsonaro reduziu o Palácio da Alvorada a uma caverna de Ali Babá, com suas arcas de relógios, brincos, colares, anéis, braceletes, pingentes, canetas e abotoaduras de ouro e diamantes, e fez de seus auxiliares, civis e militares, a horda dos 40 ladrões – pelo menos 11 até agora. Em seguida, transformou o Alvorada num camelódromo, para vender esses bens que não lhe pertenciam. Vendidos, tiveram de ser vergonhosamente recomprados quando a Justiça deu por falta deles. Raro um contrabandista tão desastrado.

O Houaiss dá várias definições para o ato de se apossar do que é alheio: afanar, agafanhar, assaltar, defraldar, desfalcar, despojar, empalmar, furtar, gatunar, larapiar, pilhar, piratear, rapinar, subtrair, usurpar – em suma, roubar. Há vários nomes para quem se dedica a essas práticas. Mas há um bem simples e que resume Bolsonaro: ladrão.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado n’O Globo.