Primarismo intelectual e moral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A teoria darwiniana de evolução das espécies veio a público há mais de 150 anos, ou mais especificamente há 155 anos, se considerada a data da primeira edição do livro A Origem das Espécies (1859).

Desde os primeiros dias da divulgação de suas ideias, Charles Darwin enfrentou forte polêmica, uma vez que seu conceito de que o homem descende diretamente dos macacos contrariava a versão religiosa de criação divina vigente na época.

Macaco 1Por décadas e até séculos, muitas pessoas se engalfinharam na tentativa de comprovar o predomínio de uma dessas visões. A briga, no entanto, não estava amparada apenas no confronto entre ciência e fé. Deve ter sido um duro golpe no ego de muita gente saber-se descendente de um animal “inferior” – isto é, que ainda anda em quatro patas, vive em árvores e se alimenta de frutos, faz ruídos estranhos que se assemelham a uma risada, movimenta-se de forma trôpega quando de pé, agitando os membros superiores como se estivesse se coçando.

Na tentativa de se livrar dessas imagens mentais que desabonam nossos ancestrais, pouca gente deve ter-se perguntado o porquê da preferência da espécie por bananas. Terá sido por sua forma, por seu interior macio, por ser um fruto fácil de descascar ou por seu sabor? Pouco importa, o mais provável é que por todas essas razões em conjunto, além de uma provável maior disponibilidade das bananas na região em que os primatas habitavam. Que região era essa? O continente africano.

Daí começam a surgir outras ilações. Além de sermos forçados a engolir a ideia de que somos macacos “pelados”, ainda temos de suportar a hipótese de sermos oriundos de um ambiente de negros? Melhor voltarmos para o conceito de descendência divina.

Mas uma pergunta se impõe: qual é a referência usada para dizermos que somos descendentes de um deus? O deus muçulmano? O católico? O judeu? Trata-se de um deus único ou, na verdade, há muitos deuses e deusas, como se acreditava na Grécia e na Roma antiga? Haverá uma hierarquia de deuses ou, se muitos há, conviverão eles em harmonia?

Penso no Olimpo, com Zeus no topo da pirâmide e uma miríade de outros deuses e deusas abaixo dele, cada um especializado em uma função: agricultura, o lar, a caça, etc. Depois meu pensamento vagueia pelas religiões como as conhecemos nos dias de hoje. Levo um susto ao constatar que a esmagadora maioria dessas religiões é monoteísta. Mais um susto ao me dar conta de que as únicas politeístas que sobrevivem são, em sua esmagadora maioria, de origem africana. Lá vêm os pretos de novo, faça-me o favor! Pior, os deuses africanos – os orixás – têm características demasiado humanas. São temperamentais, manipuladores, sedutores, comprazem-se na luxúria, gostam de se comunicar através das danças, dos cantos, das bebidas e das comidas, não lidam com os conceitos de pecado e culpa. Em suma, são primitivos mesmo.

Einstein 1Meu pensamento volta-se agora para Fernando Pessoa: “Sem a loucura, que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?”. Concluo em definitivo: moldados em barro ou crias diversificadas de macacos, nada nos retira o título de “bestas”.

Chamo por Einstein em minha defesa: “Só há duas coisas que não têm limites: a estupidez humana e o infinito. Mas ainda não tenho certeza quanto ao último”.

Desanimo, hesito, descreio de mim mesma. Desculpem-me divagar tanto. É que hoje de manhã li uma notícia acachapante no site do UOL: “Estudo mostra que macacos aprendem matemática”. Já eu…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Entre a misantropia e a filantropia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que não gosta de gente. Dentre esse tipo de pessoas, há aquelas que buscam nos animais uma espécie de compensação afetiva para estabelecer relacionamentos e escapar da solidão.

Tem também gente que ama gente. Já dentre essa classe de pessoas, há aquelas que vivem reclamando de quem dá preferência à adoção de animais, ao invés de crianças carentes.

No meio dos dois tipos, há ainda pessoas que se satisfazem com relacionamentos cotidianos tanto com humanos quanto com animais.

Na linguagem comum das ruas, é habitual usar a expressão “Fulano é muito humano” para designar uma pessoa portadora de sensibilidade, generosidade ou solidariedade. Por outro lado, também é comum indignar-se quando um exemplar da raça humana transgride algum código de ética ou de convivência social dizendo que “Fulano é um animal”.Homem animal

De que lado está a verdade? Humanos são mesmo seres sensíveis, generosos e solidários enquanto os animais são geneticamente incapazes de se comportar de acordo com as regras da boa convivência humana? Claro que você já sabe a resposta: existe gente chegada a atitudes “animalescas” e existem animais tão sensíveis de quem se poderia dizer que já são um pouco “humanos”.

A frequência estatística de cada um desses tipos? Bem, eu diria que, se deixados em seu estado natural ― isto é, sem que grandes traumas tenham ocorrido em seu percurso geneticamente programado ― a chance de encontrar animais humanizados e pessoas animalizadas estaria próxima da do acaso, ou seja, 50% para cada lado.

Inútil negar a evidência de que somos todos humanos e animais ao mesmo tempo. Na nossa espécie, o cerne biológico é recoberto por uma camada de racionalidade que age como uma espécie de tampão para inibir a expressão de instintos primitivos. Quase sempre dá certo, mas não há garantia de espécie alguma de que um acontecimento inusitado e com uma carga energética maior do que a que estamos habituados não possa burlar a vigilância do ego e irromper com força máxima no terreno da animalidade.

O problema está na nossa dificuldade em admitir que existe, em estado latente, dentro de cada um de nós o potencial de visitar qualquer um desses extremos a qualquer momento e sem que possamos antecipar isso. Nossa censura interna apenas se esforça em comprovar que isso jamais acontecerá conosco.

O inferno são os outros

Tudo seria simples se todos os comportamentos humanos fossem plenamente conscientes ― e não são. O motivo que aparece em nossa consciência para justificar uma determinada atitude nossa nem sempre corresponde à realidade de nossa emoção. Como fomos adestrados pacientemente desde muito cedo para a expressão de sentimentos positivos e para a repressão dos negativos, nos deixamos cegar para a crueldade de muitas de nossas intenções. “O inferno são os outros”, já dizia Jean-Paul Sartre. Se não tivéssemos de conviver com pessoas que adotam outros estilos de vida, outros códigos de conduta e outros valores, nossa existência seria plácida como a superfície de um lago em dia sem vento.

Já na contramão dessa crença, Freud nos alertou em muitos de seus escritos para a violência contida no “retorno do oprimido”. Se tivermos sido extremamente eficientes ao longo de nossa vida para conter a livre expressão de instintos selvagens, podemos ter esticado tanto a corda que inadvertidamente nos colocamos a apenas um passo de uma explosão devastadora.

Duas canoas by Liz Zahara

Duas canoas
by Liz Zahara

Para domesticar a fera humana e incorporar a doce espontaneidade animal, precisamos simplesmente ter consciência de que temos um pé em cada canoa o tempo todo. É, pois, a delicada tensão dinâmica entre nossa humanidade e nossa animalidade o princípio-guia que rege uma existência saudável, a meio caminho entre a misantropia e a filantropia.

Para tratar daquelas pessoas que sentem dificuldade em encontrar o caminho do meio, lancei há pouco tempo o conceito de “adestramento de humanos”. Se você se interessa em saber mais a esse respeito, entre em contato comigo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.
Email: msvac@uol.com.br

Do trabalho que dá ter um cachorro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Muitas pessoas já me pararam no meio da rua, admiradas com minhas cachorras – seja por seu porte, por sua estrutura corporal, pela beleza e brilho de seus pelos longos, por seu ar de vivacidade ou, ainda, por sua doce mansidão – para me fazer sempre uma mesma pergunta: “Dá muito trabalho?”Cachorro 2

Nunca soube responder com precisão a essa pergunta. Gastava sempre alguns minutos me perguntando se a rotina diária de cuidados com elas podia ou não ser enquadrada na categoria “trabalho”. Explico melhor: para mim, trabalho e prazer não são categorias mutuamente excludentes. Na cabeça de muitas pessoas, trabalho vem normalmente associado a obrigação, sacrifício, dedicação, esforço, atos repetitivos, chatice, tensão, busca por resultados, etc.

Já prazer é comumente associado a ficar deitado de barriga para cima, preferencialmente ao ar livre, sem fazer nada e, no mais das vezes, desfrutando de algum estímulo revigorante, como uma brisa, uma bebida gelada, uma comidinha bem temperada, carícias corporais, etc. Para meu cérebro, entretanto, a coisa não é tão simples assim. Nem sempre dá para catalogar os cuidados necessários para a manutenção de uma vida saudável [humana ou animal] em um único dos extremos dessa falsa dicotomia. Quem faz o que gosta, meu cérebro não se cansa de argumentar, não considera isso um trabalho, apenas e tão somente se delicia fazendo o que precisa ser feito. Como todas essas ponderações sempre me ocorriam ao ouvir a pergunta, eu impulsivamente devolvia: “Depende do que você considera trabalho!”

A piada é velha mas, ainda assim, acho que vale a pena ilustrar com ela o que eu tentava comunicar: “Você sabe que está ficando velho quando o trabalho dá prazer e o prazer dá trabalho”. Como já estou “entrada em anos” e tenho tido poucas oportunidades de me deleitar com outros prazeres, resolvi dedicar o tempo que me sobra para condensar numa espécie de “cartilha” minhas percepções a respeito do trabalho que dá ter um cachorro. Ofereço a lista de pontos abaixo como minha contribuição pessoal para que entusiastas da posse responsável de animais de estimação (não conheço muito sobre gatos, minha referência é o trato com cachorros) possam tomar uma decisão informada.Cachorro 1

Interligne vertical 91. Cachorros não sabem limpar os pés no capacho. Em função disso, você corre sempre o risco de ver o piso que acabou de limpar ser conspurcado por uma trilha de pegadas de patinhas sujas de terra, de xixi ou de cocô.

2. Cachorros não sabem sugar nem aspirar sua própria baba. Dessa forma, o lugar determinado por você para eles tomarem água vai estar sempre circundado por uma pocinha peculiar e, muitas vezes, haverá uma trilha de respingos indicando o trajeto que eles fazem indo e voltando do pote.

3. Cachorros nunca se tornarão independentes de você para se alimentar, tomar água, tomar banho, nem para fazer suas necessidades fisiológicas de uma maneira ecologicamente sustentável e higienicamente responsável. Cabe a você tomar todas as providências necessárias.

4. Cachorros não falam e, portanto, você vai ter de se esforçar muito para compreender o que eles estão querendo comunicar quando o olham com aquele ar de perplexidade, principalmente quando esse olhar vem acompanhado de desobediência. Também não adianta nada perguntar o que está acontecendo quando eles ficam deitados por muito tempo e se recusam a comer.

5. Cachorros carregam para dentro de sua casa – nas patas e nos pelos – uma série infindável de bactérias, germes, virus, alérgenos de toda espécie, galhinhos, torrões de terra, pulgas, carrapatos e outros desafios importantes ao seu sistema imunológico. Tudo o que você precisa fazer é se perguntar: eu acredito que meu sistema imunológico é reforçado ou se fragiliza diante desses desafios?

6. Cachorros não fazem nenhuma ideia de suas dimensões corporais nem de seu peso e, além disso, não sabem calcular distâncias muito bem. Assim, seus móveis, cristais, pratarias e bibelôs estarão permanentemente em risco quando de seus deslocamentos dentro de casa, principalmente quando eles estão felizes e abanando seu rabo com vigor.

7. Cachorros costumam se empolgar – tanto no sentido afetuoso quanto agressivo – quando encontram pelas ruas algum companheiro de quatro patas e, portanto, você precisará ficar eternamente em alerta para evitar tropeções e arrastões. Caso o encontro seja com humanos, você precisará cuidar para que não assustem nem derrubem crianças pequenas ou idosos debilitados. Outro cuidado sempre necessário é treina-los para que não façam movimentos bruscos nem saiam correndo caso se assustem com o ruído do trânsito.

8. Cachorros não obedecem às convenções sociais. Podem cheirar suas partes íntimas sem qualquer pudor, pular nas suas visitas, agarrar-se às suas pernas e pés, fazendo movimentos copulatórios explícitos, e até mesmo fazer xixi como forma de demonstrar alegria por vê-lo.

9. Cachorros podem produzir ruídos altos e irritantes por horas a fio quando se sentem sozinhos mas, certamente, o que mais vai incomodá-lo é quando eles ficam em silêncio absoluto por muito tempo. Não dê chance ao azar: levante-se imediatamente tão logo se dê conta de que eles estão muito quietos e vá verificar o que eles estão aprontando. Nove vezes em dez você terá surpresas desagradáveis.

10. Cachorros não sabem determinar o valor dos objetos que encontram em seu caminho – nem em termos financeiros, nem em termos afetivos. Seus óculos, seu celular, o controle de seus aparelhos eletrônicos, seus documentos, boletos de pagamento, aqueles seus sapatos caríssimos, aquela roupa que você adora, seus acessórios, suas jóias, etc. despertarão sempre uma grande curiosidade neles. Como cachorros não tem mãos para segurá-los e examiná-los mais de perto, eles os colocarão em sua boca e experimentarão seu gosto e sua textura. Caso gostem…

11. Cachorros podem despertar temor, raiva ou ternura em terceiros. Ao circular com eles em elevadores, nas ruas, nos parques, esteja preparado para enfrentar reações imprevisíveis das pessoas com quem você cruza. Elas podem ir desde os afagos e elogios até gritos, impropérios e escoriações generalizadas – em você, neles e nos tais terceiros.

12. Cachorros não podem ser deixados sozinhos por muito tempo – nem ao longo de um único dia, nem principalmente quando de suas férias, viagens a trabalho ou de lazer, compromissos de última hora, doenças, ou simples cansaço. Tenha sempre à mão o telefone de um hotelzinho, spa ou clube de campo para pets. Nem pense em pedir a seus familiares e amigos para ficarem com eles, já que, no mais das vezes, você receberá apenas um sorriso amarelo de volta. Qualquer que seja a solução encontrada, você terá sempre de arcar com os custos de hospedagem, alimentação e transporte.

13. Cachorros são emocionalmente “grudentos”. Transformam-se em suas sombras e o acompanham caminhando literalmente em seus calcanhares onde quer que você vá. Estão sempre necessitados de atenção e não se constrangem em lançar aqueles olhares “pidões” solicitando que você jogue bolinha com eles, que os acaricie ou que interrompa qualquer coisa que esteja fazendo, por mais importante que seja, só para olhar para eles.

14. Cachorros não têm noção de tempo. Para eles, não existe passado nem futuro. Assim, não adianta nada você caprichar na bronca por algum malfeito que eles tenham perpetrado apenas alguns minutos atrás ou que você já cansou de tentar corrigir, nem pedir que eles esperem você terminar o que está fazendo para levá-los para passear. Mas atenção: essa desvantagem tem um lado bom. Cachorros não guardam ressentimentos, não vão nunca jogar na sua cara seus descontroles emocionais do passado nem querer “discutir a relação”. Depois de um conflito qualquer, basta chamá-los que eles virão correndo, balançando alegremente o rabinho.

15. Cachorros são seres paradoxais. Apesar de serem a causa direta ou remota de tantos transtornos, desconfortos, ameaças, irritações e constrangimentos no seu cotidiano, certamente o seu pior defeito é estabelecer um padrão de relacionamento que não encontra paralelo na espécie humana. Eles fazem com que você se acostume a esperar das pessoas o mesmo comportamento ético, a mesma lealdade, a mesma sensibilidade para decifrar suas emoções e aquele mesmo olhar de admiração. Daí….. você desaprende a viver sem eles!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.