Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.
Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):
“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”
(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)
Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.
O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.
Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.
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Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.
Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.
Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.
Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.
Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.
Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).

Eu queria falar do meu profundo desconforto com o tipo de raciocínio adotado por líderes da extrema-direita, como o desse senhor. Desculpe contraditá-lo, mas não é sobre Lula, acredite. É sobre a pretensa supremacia ideológica de alguns poucos “iluminados”, é sobre a ilusão de poder exterminar de vez toda forma de ideologia que tenha cheiro de coletividade, justiça social, inclusão e combate à desigualdade. É a crença de que só a escolha de um Chefe Supremo com poderes absolutos vai nos conduzir para a terra prometida, onde o maná cai dos céus ou brota das pedras. É bem verdade que a direita costuma ser mais eficiente na gestão da coisa pública, uma vez que não tem quaisquer pruridos éticos para implementar medidas que penalizem a população desfavorecida. Mas, é bom lembrar, só por um curto período de tempo. Como alerta a velha piada, quando o burro já estava quase aprendendo a trabalhar sem comer, ele morreu de fome…
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Também eu, que de lulista não tenho nada, fiquei chocado com a fala do deputado português. Dado que a figura presidencial simboliza nosso país, o insulto atinge todos os cidadãos brasileiros.
Esse pessoal de inteligência curta nunca percebe o alcance de suas palavras. Bolsonaro fazia (e Lula continua fazendo) exatamente a mesma coisa.
É uma das principais razões pelas quais Bolsonaro foi, desde o início, desconsiderado pelas chancelarias dos países civilizados.
É também o principal motivo pelo qual Lula perdeu aquela bela aura de “pai dos pobres” e de reformador genial, que havia construído em seus dois primeiros mandatos.
Para o caso de a ultradireita do deputado português boquirroto chegar ao poder, coisa em que não acredito, a União Europeia tem, prontinha, a receita pra corrigir esse tipo de lançador de bravatas. A prescrição já foi aplicada a Signora Meloni (PM da Itália) e a Mr. Orbán (PM e enfant terrible da Hungria). Dobraram-se e agora andam direitinho, na linha, sem dar um passinho fora.
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