Jamais esquecer Bolsonaro

Ruy Castro (*)

De há algum tempo, sempre que cito Bolsonaro nesta coluna, leitores argumentam que devíamos parar de falar nele “para não promovê-lo” e que “quanto mais cedo o esquecermos, melhor.” Também me repugna manchar este espaço com tal nome, mas o raciocínio é outro. Continuo a falar de Bolsonaro porque o Brasil ainda não ajustou contas com ele. Aliás, mal começou.

Dia 31 de outubro, Bolsonaro respondeu a mais um processo por ter prostituído o 7/9 do Bicentenário para fins reeleitorais. Foi condenado de novo e teve confirmada sua inelegibilidade por oito anos. Pena que cada condenação não se acrescente às outras para chegar a um número de três algarismos. Sou capaz de conviver com isso, desde que uma manobra de algum de seus advogados de toga não decida pela supressão da pena.

Acho hoje que devemos ser gratos a Bolsonaro. Ao tentar destruí-la, ele nos ensinou o valor da democracia. Nesta, a corrupção existe e pode ser combatida. Numa ditadura, a corrupção é até em maior grau, mas não podemos sequer denunciá-la. Bolsonaro levou quatro anos martelando que em seu governo não se roubava, como se os bilhões que usou para comprar os votos da reeleição fossem filantropia. Se reeleito, isso se cristalizaria como verdade.

Engana-se quem diz que seu governo é “para esquecer”. Ao contrário, temos de lembrá-lo dia a dia, para aprendermos como se tentou armar a maior teia antidemocrática da história da República. Em 1937, Getulio impôs a ditadura na marra; em 1964, os militares botaram os tanques na rua. Já Bolsonaro costurou a dele ponto por ponto, infiltrando seus agentes nas urdiduras do Estado para amarrar cada nó.

Quando as outras nove investigações a seu respeito se completarem (e a delação de Mauro Cid não para de revelar crimes), então Bolsonaro poderá ser esquecido – num longínquo e acolhedor presídio federal.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

2 pensamentos sobre “Jamais esquecer Bolsonaro

  1. Boa tarde. O que continuo percebendo no Brasil é a existência de um número ainda surpreendente de fanáticos seguidores do “mito”. Acredito que vale aqui a célebre citação de Voltaire: “É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram!” Os crimes de Bolsonaro estão todos sobre a mesa mas os fanáticos proclamam que é tudo uma conspiração contra o salvador da Pátria, o Capitão. Assim que Bolsonaro começou a mexer no Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para tentar blindar o filho corrupto, já percebi ali que não se tratava do bom moço que ele tentou aparentar na campanha para presidente.
    E o mesmo acontece com os seguidores daquele que atualmente ocupa a cadeira do Executivo, tão corrupto e criminoso quanto Bozo.
    Muitos crimes de Bolsonaro e de outras personalidades que o cercavam foram revelados na CPI da pandemia, cujo resultado nós não vimos ainda. Como tudo o que envolve os políticos, os homens e mulheres da Corte Suprema sempre engavetam até chegar algum momento oportuno. Parece que é um processo demorado, como os processos da Boate Kiss e os crimes da empresa Vale/Samarco nas tragédias de Mariana e Brumadinho. Ou seja, quando o julgamento for marcado, não tem nem mais graça, como diz o ditado popular. A demora da Justiça é uma tragédia de nossa civilização.
    O mais curioso aqui é ler o texto de alguém como Rui Castro, quando ele escreve: “Quando as outras nove investigações a seu respeito se completarem (e a delação de Mauro Cid não para de revelar crimes), então Bolsonaro poderá ser esquecido – num longínquo e acolhedor presídio federal.”
    Ora, alguém conhece um político de 1º ou até mesmo de 2º escalão que esteja preso? Collor acabou de ser condenado pelo STF. Não foi preso. Eduardo Cunha, José Dirceu, José Genoíno, Geddel Vieira, Sérgio Cabral, Luiz Inácio, Bolsonaro, Collor de Melo e tantos outros estão soltos. Em Brasília, todos sempre de mãos dadas, um encoberta o outro e assim todos saem ilesos de seus crimes e de condenações. Olhem para o que o STF fez com o seu protegido Luiz Inácio! Bolsonaro, mesmo odiado pela maioria dos ministros e ministras da corte, continua com um apoio popular que, em certo grau, deixa os juízes com os dois pés atrás antes da tomada de decisões mais enérgicas. O jogo do poder no Brasil é mais complexo do que pensamos.

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    • O grande Jobim disse uma vez que o Brasil não era para principiantes. Continua não sendo.

      Aliás, nenhum país é simples. Espírito de corporação na hora do medo e espírito de vingança na hora da revanche fazem parte da política politiqueira no mundo todo.

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