Inelegibilidade

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a encantadora leitora se recordem de um caso escabroso, ocorrido uns dez anos atrás, envolvendo um médico que acabou condenado a quase 300 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes. Paralelamente, o Conselho de Medicina decidiu anular seu direito de exercer. Seu registro de médico foi definitivamente cassado.

Um caso mais recente envolveu outro médico, um anestesista, filmado enquanto estuprava uma paciente anestesiada – uma história abjecta. Também esse perdeu definitivamente o direito de continuar a exercer. Pode até sair da cadeia um dia (certamente sairá), mas terá de procurar outra profissão.

É longa a lista de profissionais, não só da área médica, que perderam o direito de exercer em consequência de terem desonrado a profissão.

Jair Bolsonaro está sendo julgado por flagrante desvio de conduta cometido enquanto exercia a Presidência do país. O caso mais notório foi aquele “brienfing” para o qual convocou dezenas de embaixadores lotados em Brasília para “revelar-lhes” que o sistema eleitoral brasileiro era um jogo de dados viciados, verdadeira roleta fraudada.

O veredicto ainda não saiu no momento em que escrevo, mas observadores acreditam que o ex-presidente será julgado culpado, e que a pena será a perda de seus direitos políticos. Trocado em miúdos, talvez continue a ter o direito de votar, mas não poderá ser votado. O curioso é que a pena é limitada no tempo: vale somente por 8 anos.

Esse homem deu provas, durante quatro longos anos, de não estar apto para exercer a Presidência do país. Se está recebendo essa pena, não é por castigo – é o país que se protege contra um indivíduo que atentou durante seu inteiro mandato contra as instituições. O capitão não é culpado por ter escorregado uma vez, quiçá sob efeito de uma qualquer medicação. Seu problema é incrustado, permanente e incurável.

Sabe-se que, ainda nos longínquos tempos de capitão da ativa, já planejava explodir instalações do Exército. Durante seus anos na Presidência, fez o que pôde para explodir o Estado brasileiro. Seu caso não tem solução. Afastá-lo por 8 anos dá alívio temporário mas não resolve. Ele periga voltar para chacoalhar o coreto em 2030.

Imagine você se, no caso dos médicos indignos, fosse dado um “castigo” de 8 anos. Seria apenas uma suspensão temporária. Findo o prazo, eles voltariam à carga com todo o risco que isso comporta. A cassação do direito de exercer não deve ser vista como punição, mas como medida de proteção da sociedade.

No caso de um ex-presidente, permitir que ele um dia possa voltar ao lugar do crime para cometer as mesmas barbaridades pelas quais foi condenado é temeridade. Seus direitos políticos teriam de ser cassados definitivamente. Para sempre. Em seu caso, não há esperança de remissão.

3 pensamentos sobre “Inelegibilidade

  1. Caro Manzano, devemos lembrar que a Lei da Ficha Limpa só foi aprovada por grande pressão popular. Se dependesse dos políticos, que na sua maioria são “ficha suja”, essa lei jamais teria sido aprovada. Portanto, essa restrição de 8 anos foi ajustada para dar a impressão de que houve alguma punição ao mesmo tempo em que o político logo pode voltar à vida pública. Creio que um político condenado judicialmente não só deveria ser banido definitivamente da política como também ser proibido de votar e de manifestar-se publicamente sobre política. Lembrando que o capitão estará livre para ser cabo eleitoral de candidatos da extrema direita. E o pior é que, nos EUA, que costumam ser vistos como modelo de democracia, sendo que nem democracia são, não existe sequer uma lei semelhante à da Ficha Limpa: Trump pode ser eleito presidente até estando preso!

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  2. O procedimento que cuida do ex-presidente responde pelo nome de Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral). Atende também pela sugestiva alcunha de “Ai, Jesus!”.

    Me pergunto às vezes por que razão o eleitor brasileiro insiste em eleger (e reeleger) gente desclassificada. A ignorância não explica tudo. Se o voto do semianalfabeto fosse feito na base do “minha mãe mandou teclar este aqui, mas como eu sou teimoso teclo este daqui”, os modelos estatísticos ensinam que, em teoria, todos os candidatos teriam chances iguais de sair vitoriosos.

    O que faz que a bolinha da roleta caia sempre nas mesmas casas?

    A única resposta que encontro é tenebrosa: tanto faz escolher este ou aquele candidato – são todos podres. Se já não forem malnascidos, logo se depravarão no balaio pestilento dentro do qual vão chafurdar. Portanto, vote o distinto em quem quiser, o resultado será o mesmo.

    Não vejo saída para o nó. Se alguém tiver a receita, por favor mande carta para a Redação.

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