O boleto

Parlamento suíço

José Horta Manzano

A firmeza de opinião não está entre as qualidades maiores do brasileiro. Em detalhes do dia a dia e em acontecimentos importantes, gente simples e gente complicada tem reações semelhantes.

Vivendo há décadas longe de Pindorama, aprendi que sim é sim, e não é não. Só que isso pode valer em determinadas regiões do mundo. No Brasil, a afirmação e a negação não são necessariamente antagônicas.

Nunca lhe aconteceu de oferecer um favor ou uma simples gentileza a alguém e receber em troca um “Ah, não precisa!”? Na verdade, é um “não” que quer dizer “sim”, o que me deixa desconcertado. Para mim, parece simples: quando a gente quer, responde que sim; quando não quer, diz que não. Ficar no meio do caminho me soa estranho.

O fenômeno permeia toda a sociedade e atinge os altos círculos das “pessoas politicamente expostas”, que é a nova denominação da classe política. Habituados a flutuar entre opiniões, políticos trocam de partido como trocam de camisa. Abrem a boca pra soltar bobagem, na certeza de que, dia seguinte, poderão consertar, deixar o dito por não dito. E segue o barco.

Acredito que Lula, ao proferir disparates sobre a Ucrânia invadida pela Rússia, estava exercendo seu direito ao arrependimento posterior: toda asnice proferida pode ser consertada mais adiante, caso seja mal recebida. Tanto é assim que suas falas se “suavizaram”, sem todavia se encaixarem nos trilhos que o mundo civilizado esperava dele.

Com essas poucas falas calamitosas, Luiz Inácio destruiu a própria imagem, aquela que lhe tinha custado anos para construir e que era admirada e respeitada no planeta. A confiança que o mundo desenvolvido depositava no velhinho “pai dos pobres” foi-se embora pelo escoadouro.

A expressão que Lula usou – Clube da Paz – pode até tornar-se realidade daqui a algum tempo, dependendo de como os combates evoluírem. Só que ele, Lula, não será chamado a organizar nem a chefiar as tratativas. Talvez nem o aceitem no Clube.

A prova? Pois ontem às 14h (hora da Europa Central), os parlamentares suíços se empertigaram para ouvir o discurso de Volodimir Zelenski, que falava ao vivo, diretamente de Kiev, por vídeo em telão.

A Suíça é país tradicionalmente neutro. Assim, o presidente ucraniano evitou tocar em temas militares (armas ou munições). Em vez disso, agradeceu pelos bons serviços que a Suíça tem prestado (acolhida de refugiados, assistência médica aos feridos).

E aproveitou para detalhar seu próprio plano de paz. Sua ideia é reunir a expertise de diferentes chefes de Estado, cada um contribuindo com sua experiência em áreas como: questões nucleares, remoção de minas, proteção de crianças (milhares de crianças ucranianas foram deportadas para a Rússia contra sua vontade).

Zelenski fez um único pedido. Convidou a Suíça a organizar “uma cúpula sobre a paz mundial”. E acrescentou: “É justamente nesse ponto que a Suíça é especializada”. Foi ovacionado de pé.

Como o distinto leitor e a graciosa leitora podem perceber, Lula e seu “Clube da Paz” estão desde já descartados. A língua ferina e principalmente o raciocínio de Luiz Inácio, aprisionado em ressentimentos que lhe cristalizaram a alma, já fez seu efeito e já passou fatura. Não dá mais pra voltar atrás. Agora, o jeito é pagar o boleto. Sem chance de mudar de ideia.

2 pensamentos sobre “O boleto

  1. Crônica O Boleto muito bem colocada. Parabéns. Por outro lado peço que escreva sobre a neutralidade da Suíça que aceita contas bancárias de corruptos inclusive ouro roubado pelos nazistas. Não entendo bem esse posicionamento.

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    • Obrigado pelas palavras amáveis.

      Neutralidade da Suíça é assunto complicado. Ela foi imposta ao país pelo Congresso de Viena, reunido em 1815, ao fim das guerras napoleônicas. Foi a condição para o país manter a liberdade e a inviolabilidade de seu território.

      Para a Suíça, o estatuto de país neutro foi benéfico. Por um lado, permitiu que o país nunca mais fosse invadido nem tivesse de guerrear. Por outro, favoreceu a implantação da ONU e de organizações internacionais. Atualmente, 400 organizações internacionais estão baseadas em Genebra juntamente com a sede europeia da ONU. Sem contar três dúzias de federações esportivas internacionais.

      A ausência de conflitos aliada a uma economia bem gerida atraíram bancos e companhias financeiras do mundo todo. Não tenho o número exato de bancos de investimentos implantados no país (aqueles que não se dedicam ao varejo), mas são algumas centenas.

      Bancos são entidades privadas. Têm de obedecer às diretivas do Banco Central, fora isso são livres de estabelecer sua maneira de funcionar. Desde fins do século 19, o segredo bancário começa a se firmar. Com o aumento da imposição fiscal em países vizinhos, capitais importantes foram depositados. Em períodos de conflito, os europeus que dispunham de montantes elevados utilizaram a praça bancária suíça como porto seguro.

      Até 20 anos atrás, os bancos não faziam diferença entre dinheiro oriundo de evasão fiscal e capitais fruto de corrupção ou espoliação de populações inteiras. A questão dos fundos depositados por cidadãos judeus antes da 2ª Guerra e que nunca foram reclamados – certamente porque os titulares tinham sido assassinados em campo de concentração – foi o estopim de uma grande mudança nas práticas da banca suíça.

      No final dos anos 1990, a pressão de organizações judias americanas tornou-se muito forte e os bancos tiveram de ceder. Foi instalada uma comissão de inquérito composta de historiadores e juristas de diferentes países. E um acordo foi firmado entre os dois maiores bancos suíços e um consórcio de organizações judias americanas. Os bancos destinaram 1,8 bilhão de dólares para indenizar os descendentes daqueles que não tinham tido a chance de sobreviver para recuperar seu capital.

      De quebra, foi assinado um acordo sobre secredo bancário entre, de um lado, a Suíça e de outro, a União Europeia e os EUA. Estabeleceu-se a troca automática de informações entre as partes. A Suíça comprometeu-se a quebrar o segredo a cada vez que algum dos países signatários solicitasse.

      Com isso, faz vinte anos que o tradicional segredo bancário suíço desapareceu. Hoje só sobram fundos pertencentes a grandes ditadores (Putin e curriola, ditadores africanos, etc) e a corruptos latino-americanos (incluindo os brasileiros). Mas os bancos ficaram muito mais flexíveis nessa matéria. Se a Justiça brasileira solicitar, é bem provável que o segredo das contas de um cidadão brasileiro seja quebrado.

      Espero que esteja um pouco mais claro.

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